Quarta-feira, 4 de Abril de 2007

Autógrafos - Fernando Namora

Fernando Namora (1919-1989), Retalhos da Vida de um Médico (1949; 5.ª edição, 1955)

Desenhos e capa de Cambraia (datas desconhecidas) 

 

 

Fernando Namora (1919-1989).

   Médico por formação, Fernando Namora é um dos autores que habitualmente se associam ao neo-realismo, quer nas suas obras iniciais, de temática rural, quer nas suas obras posteriores, de temática urbana.

   A temática rural das suas obras retrata quase autobiograficamente a experiência da prática médica na província, particularmente em Retalhos da Vida de um Médico. Esta compilação de contos foi ampliada em 1963. Adaptada ao cinema por António de Macedo (1910-1994), em 1962, originou ainda uma série realizada em 1980 por Artur Ramos (1926-2006) e Jaime Silva (n. 1946). Artur Ramos adaptou ainda ao cinema A Noite e a Madrugada (1985), o romance que Namora publicara em 1950. Também o romance Domingo à Tarde (1961), galardoado com o prémio José Lins do Rego, foi adaptado ao cinema em 1966, por António de Macedo (n. 1931).

   Namora esteve ainda no centro de uma polémica literária, quando Luiz Pacheco (n. 1925), na sua obra Textos de Guerrilha (1979 e 1980), o acusou de plagiar passagens do romance Aparição (1959; Prémio Camilo Castelo Branco), de Vergílio Ferreira  (1916-1996), no seu romance Domingo à Tarde (1961; Prémio José Lins do Rego).  

 

 

   De Retalhos da Vida de um Médico, transcrevem-se os dois primeiros parágrafos do conto Um Homem do Norte:

   "O homem do Norte é, para o alentejano, o galego. O galego que veio de longe, com a sua iniciativa e a sua miséria, desbravar as desoladas charnecas do Sul. as vilas e as herdades cresceram com a ajuda desses emigrantes, e o alentejano, lento, inviolável, não esquece mais o melindre de ter sido empurrado pela perseverança dessa gente que veio de lugares onde um homem, de pernas alargadas, assenta um pé em cada courela. São galegos. Galegos que vieram comer o pão e colher alguns dos frutos da planície imensa, das distâncias sem limites, onde os olhos se dilatam de horizonte e a melancolia cresce como os lagos trigo. Os alentejanos têm na memória os matos que chegavam à soleira da porta, os minguados farrejiais que ninguém pensava em alargar, mas não perdoam que outros tenham colaborado na conquista da terra. Ainda hoje, quando chegam os ranchos do norte, já raros, chegam como inimigos: o camponês alentejano encara-os como competidores do salário, o comerciante aborrece esses miseráveis que disputam um centavo, contentando-se com broa e saramagos, que se assustam com a vizinhança de cafés e cinemas; e até o lavrador, que deles precisa e os chamou, vê neles uma raça de servos.

   O médico, que é quase sempre do Norte, o professor, e sobretudo o que veio nos tempos da conquista da planície e se fixou, gozando uma posição à custa de nervos e economia, encontraram nos mais inesperados momentos um insulto que representa uma nódoa desgraçada: galegos!"

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 14:41
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