Quarta-feira, 2 de Maio de 2007

Autógrafos - Mário de Carvalho

Mário de Carvalho (n. 1944), A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho (1983)

 

 

Mário de Carvalho (n. 1944)

    Mário de Carvalho publicou o seu primeiro livro em 1981, Contos da Sétima Esfera. Seguiu-se um volume com episódios sobre a vida num bairro lisboeta, Casos do Beco das Sardinheiras (1982). Tendo de imediato o nome identificado com as narrativas curtas e as histórias de Lisboa, publicou no ano seguinte o seu primeiro romance, O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana. Foi, no entanto, o romance Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde (1994) que conheceu maior sucesso editorial e divulgação internacional. Esta obra foi galardoada com o Grande Prémio da APE e o Pegasus Prize for Literature.

   Com a colectânea de contos A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho (1983), enveredou por um realismo simultaneamente histórico e fantástico, numa linha próxima do realismo mágico da América Latina. Do conto homónimo, transcrevem-se alguns dos parágrafos iniciais:

 

   "Os automobilistas que nessa manhã de Setembro entravam em Lisboa pela Avenida Gago Coutinho, direitos ao Areeiro, começaram por apanhar um grande susto, e, por instantes, foi, em toda aquela área, um estridente rumor de motores desmultiplicados, travões aplicados a fundo, e uma sarabanda de businas ensurdecedora. Tudo isto de mistura com retinir de metais, relinchos de cavalos e imprecações guturais em alta grita.

   É que, nessa ocasião mesma, a tropa do almóada Ibn-el-Muftar, composta de berberes, azenegues e árabes em número para cima de dez mil, vinha sorrateira pelo valado, quase à beira do esteiro do rio que ali então desembocava, com o propósito de pôr cerco às muralhas de Lixbuna, um ano atrás assediada e tomada por hordas de nazarenos odiosos.  

   Viu-se de repente o exército envolvido por milhares de carros de metal, de cores faiscantes, no meio de um fragor estrondoso – que veio substituir o suave pipilar dos pássaros e o doce zunido dos moscardos – e flanqueado por paredes descomunais que por toda a parte se erguiam, cobertas de janelas brilhantes. Assustaram-se os beduínos, volteando assarapantados os cavalos, no estreio espaço de manobra que lhe [sic] era deixado, e Ali-ben-Yussuf, lugar-tenente de Muftar, homem piedoso e temente a Deus, quis ali mesmo apear-se para orar, depois de ter alçado as mãos ao céu e bradado que Alá era grande."

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 11:48
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