Segunda-feira, 16 de Julho de 2007

Macau, 1936 (X)

 

   Debruçado, na amurada, deixava o olhar vaguear pela imensidão das águas. Uma imensidão agora marcada frequentemente pela linha montanhosa de inúmeras ilhas e ilhotas. Uma grande diferença da isolada vastidão do Índico, de que ele nem se apercebera. Os navios pareciam mais frequentes. Haviam-se cruzado já com o André Lebon, que fazia a ligação entre Marselha, a Indochina e o Japão. Lembrava-se ainda do que a imprensa europeia dissera do navio após o terramoto de 1923 e do auxílio que este prestara a Yokohama. Ao largo, muitas outras embarcações pontuavam o horizonte. Cargueiros, pequenos barcos de pesca, dezenas de  juncos.

   Assestava os binóculos e perscrutava pormenores. Um passatempo comum entre os passageiros. A princípio ficou surpreso com a maioria destes barcos – não traziam bandeira ou pavilhão. Disseram-lhe que isso era habitual na navegação costeira e que muitos eram barcos de comunidades piscatórias, que não reconheciam qualquer soberania. Alguns outros, barcos piratas, mesmo. Quando surgia alguma bandeira, e agora era quase sempre a mesma, desde que se aproximavam das costas da China, tentava descobrir a que país pertenceria  a embarcação. Ficou confuso quando viu uma bandeira ostentando as cores que recordava como sendo de Manchukuo. Estavam demasiado longe da Manchúria para que isso fosse provável. E nem mesmo a rota comercial e militar que os japoneses haviam estabelecido alguns anos antes, para apoiar a ocupação, passaria tão a sul. Recordou então que a bandeira da Manchúria tinha adoptado as cores da China de Sun Yat-Sen. O amarelo, representando os manchús, ocupava o fundo, a três quartos, e as quatro listas limitavam-se ao canto superior esquerdo. Esta bandeira tinha cinco listas, de igual largura, e a todo o comprimento. Era a antiga bandeira da China. Riu-se de si próprio e da sua patetice, ao ignorar o óbvio. A nova bandeira, vermelha e azul, havia sido adoptada apenas em 1928 e provavelmente alguns pescadores ainda achavam que a antiga era válida. Ou então achariam que as duas eram válidas... Algo assim como ter dois ou três nomes diferentes, mas todos válidos... Um velho hábito chinês. Recordou, divertido, a perplexidade que havia sentido quando era criança e surgira a nova bandeira da república. E recordou, ainda, sorrindo, a confusão que um famoso pintor americano fizera, anos mais tarde, quando comemorou a vitória dos aliados e colocou na mesma tela, quase lado a lado, as duas bandeiras portuguesas – a monárquica e a republicana...

   Voltou ao camarote. Decidira tomar algumas notas e registar impressões da viagem. Pegou na caneta de tinta permanente, desenroscando a tampa. Foi escrevendo, lentamente, "As velas destes pequenos juncos dos mares do sul da China..." A tinta verde dava uma tonalidade estranha à  letra cursiva que parecia adornar o papel. Escrevia as suas notas sempre a verde. Nos cadernos de viagem e no verso das fotografias. Todos lhe perguntavam o porquê daquela cor. Nunca soubera responder.

  

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 11:47
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