Quarta-feira, 18 de Julho de 2007

Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (13)

 

   Wenceslau de Moraes, com o seu cão ao colo, na companhia da família do Cônsul de França, Monsieur Fossarieu, em Kobe.

   Embora Wenceslau tivesse tido uma educação que essencialmente assentava em modelos literários e culturais francófonos, como era hábito na altura, não dispensava a todos os autores franceses a mesma consideração literária. Em carta datada de 21 de Novembro de 1921, teceu os seguintes considerandos sobre os seus próprios processos literários e os autores que admirava:

 

   "Agora outro assunto. O processo de escrever os meus livros resume-se em pouco: pequenas notas sem titulos, divididas umas das outras por entrelinhas, evitando as largas considerações. O ultimo capitulo (chamêmos-lhe capítulo) do ultimo livro (Mendes Pinto) é formado por duas meias linhas simplesmente. Nem eu entendo livros que não sejam assim formados por notas soltas, por apontamentos ao acaso, diarios, cadernos de impressões, etc. Neste genero literario, muitos escriptores europeus se distinguiram (Rousseau, Lamartine, etc., etc., etc.); e n'elle os escriptores japonezes de ha 500 annos e 1000 annos fôram eximios, como tentei fazer conhecer no meu livro "Bon Odori".

   O escriptor, quando escreve para alimento do seu espirito e dos raros que o possam comprehender, tem de pôr a su alama inteir ano que escreve. Vibrar todo inteiro quando se escreve e fazer vibrar o coração de todos que nos lerem. O realismo de Zola, nu e cru, não presta, fez banca rota. Quer-se mais, quer-se a nota aguda, aguda como um punhal, que nos fira e que vá ferir os outros. Nojo, colera, asco, odio, horror, amor, paixão, enlevo idolatria, desespero, tristeza, etc., etc., etc., tudo serve; o que se quer é que se exprima a impressão do que se vê com uma palpitante emotividade de sentir, de maneira a ir commover-se fortemente os leitores, pintando o que nos impressiona com côres vivissimas que nos deslumbrem. Não cuido em apresentar frases limpas e correctas; quero apontar ideias, como eu as concebo, e mais nada."

 

      O processo de escrita relatado pelo autor desenvolvera-se indubitavelmente devido ao apreço que Wenceslau manifestava pelo minimalismo japonês e pela concisão da composição poética denominada haikai (http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/28941.html).

  

 

(Sem Título). Kobe, 22 de Setembro de 1909 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa (No destino, reendereçado para Azeitão).

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 15:26
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