Segunda-feira, 30 de Julho de 2007

Macau, 1936 (XI)

 

   Ocorreu-lhe, de repente, que nunca soubera responder a imensas coisas. Não soubera por que casara. Não soubera por que deixara a família. Não soubera por que deixara Boubouka. Não sabia por que ia para Macau. Deixava-se levar pela corrente... Uma atitude quase budista, pensou.

   Riu-se daquela mania de fazer evocações e criar paralelismos eruditos. Fazia-o constantemente. Era um exagero. Até o fazia para si próprio... Continuou, contudo, o exercício, não se reprimindo e lembrando-se do que o miúdo, o Saramago, tinha escrito, citando as últimas palavras do Reis: "Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo..."

   Sábio... As pessoas insistiam em confundir erudição com sabedoria... Elogiavam e apreciavam as referências supostamente científicas e as frequentes citações literárias. Simples exercício de memória, efémero fogo de artifício. De que lhes serviria a erudição, não sabendo o que queriam da vida? E aqueles que não se contentavam com o espectáculo do mundo e agiam? Até onde poderiam chegar? Tudo poderia ser uma contínua ilusão...

   Uma maior ondulação do barco agitou a mesa, fazendo tinir as chávenas de chá e lançando pequenas manchas irregulares sobre a brancura da toalha. Iam-se alargando, como gotas de chuva sobre papel. Não ficavam, no entanto, mais claras. Lembrou-se do chá Lig, na moda em Portugal. Uma hábil promoção de chá importado, aproveitando as evocações exóticas do Japão de Moraes... Como estas, também as manchas desse chá não se esbatiam. Teriam elas a mesma cor sob a toalha? Qual o seu aspecto, visto do avesso? Corresponderiam a uma outra realidade, ou seriam apenas um outro disfarce da mesma realidade, como o anagrama Gil, do chá?

   Voltou a si, surpreendendo-se, como sempre se surpreendia, com a sua facilidade para divagar sobre banalidades e para se afastar de reflexões mais importantes. O seu pensamento analógico revelava-se uma armadilha em si mesmo. Dispersava-lhe as ideias, atenuava-lhe as emoções, distanciava-o do sofrimento.

   Parecia não fazer questão em se conhecer a si próprio, nem em se preocupar com tudo aquilo que ia deixando para trás.

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 11:47
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