Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Autógrafos - Ernesto Rodrigues

 

Ernesto Rodrigues (n. 1956), A Serpente de Bronze (1989).

 

 

Ernesto Rodrigues (n. 1956).

   Professor universitário, ensaísta, poeta e ficcionista, exerceu ainda a profissão de jornalista. Durante a década de 1980 leccionou na Hungria, onde em 1996 se publicou uma compilação bilingue da sua prosa e poesia, Sobre o Danúbio (A Duna Partján). 

   De A Serpente de Bronze transcrevem-se alguns parágrafos:

 

   "À espreita, os militares faziam horas contando anedotas picantes.

   Um sugeriu que o velhadas aparecesse na rádio e na televisão para tranquilizar os para cima de meia-idade, condição necessária ao bom sucesso do empreendimento. Derivaram um pouco na escolha dos termos: golpe, revolução, bernarda, etc. Nem sequer estavam seguros de vencer. O que dava mais tesão à coisa. Em suma, já então se via que não falavam da mesma maneira. Contudo, experimentando o seu ascendente e convicto de que, em certos períodos, ele podia vir ao de cima, eis o que lhe bastava para, mais tarde, renunciar, depois que se inscreveu de vez nos fundos individuais. E, afinal, resumia, o reino que em nós se inscreve não é nosso mas dos outros. Não merece a pena perseguir o que só outros oferecem.

   Foi muito fácil, claro. Tomaram-se os estúdios como dezenas de cafés. Entre música e comunicados, o país virava, ainda sem perigo de afundar. O Príncipe, vivo que nem lagartixa, estava em todas, antes de a televisão o consagrar. Lavou-se bem, como deve quem está para incutir confiança, cortaram-lhe os cabelos e a maquilhagem tirou-lhe meia vida. Pôs monóculo porque sim, tão teatral como em 1974 (agora reconhecia) ao defrontar-se com João Pinto Ribeiro, criado de duques e não de sangue. Que as pátrias distinguem-se no particular tipo de sangue e nem todas as uniões são convenientes.

   Com a primeira nesga de sol espreguiçou-se Vénus, que saiu dos lençóis para ligar o rádio e aquecer o leite. Música estranha acordou o parceiro. Ficou de cabeça à banda sem perceber o que por tanto lutara. Como se a realidade, incómoda, lhe acabasse com privilégios e o forçasse a democratizar-se, via-se o Outro num vagão que era todo o comboio e as maneiras decentes – Ne pas se pencher au dehors, etc. – desaparecendo para erigir-se a promiscuidade em norma e finalidade. Era possível, há menos de um mês, trocar as voltas à polícia política; e a esta inundação que vai mostrar o lodo todo?"

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 16:39
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Fevereiro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29

.posts recentes

. Old Chap

. Le Sacré du Printemps

. Word of Mouth

. Still Skating Around...

. Volare...

. Ouranos

. Staccato

. E Va...

. E La Nave Va...

. The End

.arquivos

. Fevereiro 2012

. Fevereiro 2011

. Fevereiro 2010

. Outubro 2009

. Junho 2009

. Fevereiro 2009

. Outubro 2008

. Junho 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

.tags

. todas as tags

.Visitas

blogs SAPO

.subscrever feeds