Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

Autógrafos - João Palma Ferreira

 

João Palma-Ferreira (1931-1989), Os Crânioclastas (1972). Ilustração para a capa e desenhos de Catherine Labey (n. 1945).

 

 

   João Palma-Ferreira (1931-1989).

   Palma-Ferreira foi essencialmente ensaísta e investigador, tendo publicado obras como Do Pícaro na Literatura Portuguesa (1981) e prefaciado e anotado antologias como Naufrágios, Viagens, Fantasias e Batalhas (1980).

   Editorialmente, a sua produção ficcional iniciou-se com um conjunto de novelas publicadas em 1968 – Três Semanas em Maio. Posteriormente publicou várias outras obras, como o romance A Viagem (1971), legando-nos também um Diário, em dois volumes (1972 e 1977).

   Palma-Ferreira exerceu ainda os cargos de conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Madrid, depois de ter leccionado na Universidade de Salamanca, director da Biblioteca Nacional e presidente da RTP.

    De Os Crânioclastas, "prosa elíptica inteiramente escrita na diáspora castelhana" como refere o autor, transcrevem-se alguns parágrafos:

 

   "Foi quando nós entrámos. A luz abafada do fogo que morria pintava sombras na sala de frio.

   Mas volto-me e vejo-o ainda sentado nos degraus do Monumento. O padre, de bronze, faz um aceno qualquer que ninguém decifrará, o gesto da estatuária inútil, a mesma que anda por aí há séculos abandonada em livros de antiquário. Vejo-o confusamente, como na sala do casino, como na praia nos vemos ou sob a amplidão fora do vidro fosco que sufoca ou abafa o nosso hálito. Curva-se interiormente no meu cérebro acompanhando a exacta concavidade dos ossos. Tento, em desespero, neste dormir opaco, tocá-lo, leve que seja, para lhe dizer como as palavras são necessárias entre os homens. Mas ele apenas se inclina com maior gravidade, recosta-se no cadeirão para escutar as frases estrangeiras que cavam túneis de horror pelo silêncio. Sinto, nos olhos, a prisão do tecto e do zimbório que cresce, de vidro, na torre em funil por onde as frases se escoam; logo, reflectidas, regressam à obsessão de que partiram.

   Fujo. Voo pelo descampado até à praia. Sigo uma onda de viés, nos folhos da espuma, mar que varre toda a costa mais rápido do que eu. Em liberdade, grito-lhe palavras de júbilo (não há crima ainda) e projecto o som por entre nuvens, ecos em rosas de jardim ou murmúrios em memórias do quintal; falo da humidade nos recantos da casa e do silêncio cortado pelo pingar da água. No pano verde de todos os prados lanço, em glória, o prazer das apostas, reis e valetes, ases e espadas, copas e oiros. Desfecho, na serra, pela boca fria da espingarda, as dez balas de chumbo que retinem perdidas pelas fragas.

   É quando chego, fatigado, a altas horas da noite. É a mesma porta, sempre. Os batentes castanhos. É quando rodo a chave. É quando entro. Aqui. É quando subo a rampa ao encontro da mulher de fogo e ácido que me espera, no chão varrido de neve, atrás do laranjal."

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 11:34
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