Terça-feira, 31 de Julho de 2007

Wenceslau de Moraes do Japão

 

   Em Paisagens da China e do Japão (1906; 2.ª edição, 1938), no capítulo A Primavera, dedicado a Camilo Pessanha (1867-1926), escreveu Wenceslau de Moraes:

 

   "Ha alguns dias, na cidade de Kobe, – poderia precisar o dia, e quasi a hora, se tamanho rigorismo me exigissem, – irrompeu a Primavera. Irrompeu: não ha sombra de exagero no vocabulo. Irrompeu, surgiu d'um pulo, fez explosão. N'este paiz do Sol Nascente, onde o sol, e com elle todas as grandes forças naturaes, são ainda uns selvagens – se assim posso expressar-me – uns selvagens sem freio, sem noção das conveniencias, incapazes de se apresentarem de visita, de luvas e casaca, n'uma côrte qualquer da nossa Europa: n'este paiz do Sol Nascente, ia eu dizendo, a creação inteira apostou, parece, em offerecer em cada dia uma surpresa, toda ella exuberancias inauditas, espalhafatos unicos, repentismos nervosos, caprichos doidos, como se reunisse em si a quinta essencia da alma das creanças e a quinta essencia da alma das mulheres, a gargalhada, a troça, enfim, motejadora de tudo quanto é ordem, harmonia, contemporisadora lei das transições.

   Hontem, foi um inverno duro, gelido, vestido apenas d'uma ampla tunica de neve. Hoje, d'um salto, o sol rompeu em quenturas amorosas, começaram de florir as arvores, e evolaram-se os insectos. Amanhã, será o estio torrido, em brazas, como nem na China, nem na Africa se sente. E assim corre o tempo, vôam as horas; cada instante é um meteoro; e aqui um tufão arranca os troncos, e alli a chuva torrencial inunda as varzeas, e alem um rio tra[n]sborda do seu leito, e uma onda do largo afoga as aldeias, e uma convulsão subterranea abala o solo..."

 

Tamon-dori, Kobe. Kobe, 12 de Setembro de 1911 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Turcifal, Torres Vedras.

 

   Já em Os Serões no Japão (1926; 2.ª edição, 1973), no capítulo intitulado A Paisagem Japonesa, escreveu:

 

   "As florescências, naturalmente, imprimem particulares feitiços, embora efémeros, aos cenários. Em Fevereiro e Março, são as flores de ameixieira que tornam certos sítios aprazíveis. Em Abril, são as flores de pessegueiro, de cerejeira, de colza; Yoshino, Arashiyama, por exemplo, são famosas pelas suas cerejeiras. Seguem-se as flores das glicínias, das azáleas, das íris. Em Julho, são as alvas e as róseas flores de lótus, a emergirem dos charcos, das lagoas; a gente vai ouvir pela madrugada, o estranho – path! – o estalido das pétalas do lótus, no momento em que as corolas desabrocham. Em Novembro, não há flores; mas são as folhas do arvoredo que então se coloram de tonalidades brilhantíssimas; as folhas de momiji, em especial, atingem estupendas gradações, que vão do amarelo de ouro ao carmesim, ao rubro esbraseado; em Arashiyama, em Minô, em Takaó, em Shin-Takaó, na alcantilada Arima e em mil outros lugares, a paisagem alcança tons de apoteose, com a qual o povo, em magotes, se deleita. E, no entretanto, o outono é, como dizem os japoneses, inki, melancólico: – a grandeza do dia diminui a olhos vistos, definha-se a vegetação, desnudam-se as árvores, caem as folhas e morrem os insectos; a paisagem estila uma tristeza lutuosa, que infiltra desolações nas almas sensitivas.

   Um dos grandes estímulos do cenário japonês é a neve, que lança alvos mantos de pureza sobre as costas das montanhas, e salpica de arremedos de florescência os próprios pinheiros, os bambus e outras árvores que nunca floresceram. A neve é adorada e adorável no Japão; ir ver cair a neve, pelos campos fora, em meses de Janeiro e de Fevereiro, é um dos passatempos desta gente. Conta-se que um antigo imperador, sofrendo em pleno estio, da nostalgia das nevadas, mandou cobrir de cetim branco uma colina inteira, que defrontava com as varandas do palácio."

 

Cherry Blossoms at Maruyama-park, Kyoto. Kobe, 7 de Setembro de 1912 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa (reendereçado para Azeitão).

 

   "Não esqueçamos o mar. O mar, pelas suas inúmeras modalidades imprevistas, pelo seu perpétuo arfar emocionante, pelos seus murmúrios, pelos seus choros, pelos seus risos, pelos seus gritos; o mar, com o seu cortejo de barcos e pássaros, com a sua labuta piscatória, é aqui, como em toda a parte, o potente feiticeiro das cenas imprevistas, que se gravam indeléveis na memória.

   Outros estímulos da paisagem residem nas estranhas aparências atmosféricas desta terra. Frequentemente, são os tons vaporosos das neblinas, os largos horizontes cor de pérola, donde emergem contornos indeisos, como de coisas sonhadas, mas não vistas; outras vezes, é o azul vívido, cintilante, do céu, de uma pureza incomparável. Juntemos as ruborizações crepusculares, os incêndios das nuvens extravagantes, os encantos do nascer e do pôr do sol, e do luar. A enumeração das oito belezas da província de Omi, Omi-kakkei, é instrutiva neste assunto. São elas: – vista do luar do outono, em Ishiyama; a neve pela tarde, em Hirayama; o pôr do sol, visto de Seta; o templo de Midera, à tarde, na ocasião de tocarem os sinos; a partida dos barcos, largando de Yabasé; o céu brilhante e a brisa, em Awasu; a chuva durante a noite, em Karasaki; os patos bravos, recolhendo a Karata.

   Mencionemos os bichos. Em Junho, a aparição dos pirilampos, em certas vizinhanças das ribeiras, vem dar grande prestígio à cena, atraindo a multidão dos visitantes. O coaxar das rãs, em meses estivais, torna queridos outros poisos. O zumbido, o canto, o grito de outros seres, a pesca também, darão fama a outros lugares." 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 16:21
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15 comentários:
De lotusgreen a 2 de Agosto de 2007 às 02:42
i am so appreciating these beautiful old postcards. this one is particularly wonderful.

and the great book covers as well
De blogdaruanove a 2 de Agosto de 2007 às 03:52
Hello, Lily! Nice to hear from you again. Thank you for the comment. Saw your last post on graphic design for railways and the first ones relate quite well to some images (of Portuguese paintings) I have aside for a coming small post on trees and vegetation... (still looking for the right images from specific paintings by members of the Canadian Group of 7 to establish a paralel...) The Moraes cycle is over, for the moment. More drawings by Ioão Carlos coming up soon, but without any relation to japonisme, though...
De lotusgreen a 2 de Agosto de 2007 às 16:08
i look forward to seeing your post on trees and vegetation (and i'm curious how you will tie in the group of 7!)! and will look forward to seeing more by the artists i am learning from you. too bad there is not more from many of them online yet.
De blogdaruanove a 2 de Agosto de 2007 às 18:07
On a second though (just joking... it was supposed to be a surprise...), maybe one or two of the next images by Ioão Carlos do relate to Japonisme... Particularly to the Japanese way of representing the sea and... the Great Wave...
De lotusgreen a 2 de Agosto de 2007 às 19:24
oh cool--looking forward to it. and you can still surprise me--i'll pretend i didn't know.

meanwhile, i just came across this (http://www.artelino.com/archive/auctions_show.asp?alp=&art=0&cay=0&cp=35&evt=0&let=g1&rel=345&sea=tree&spe=0) and was really struck by the similarities
De lotusgreen a 2 de Agosto de 2007 às 19:25
oops

http://www.artelino.com/archive/auctions_show.asp?alp=&art=0&cay=0&cp=35&evt=0&let=g1&rel=345&sea=tree&spe=0
De Daniel Rodrigues a 26 de Agosto de 2007 às 17:51
Onde é que arranjaste os tue slivros de Wenceslau de Moraes? Eu não os encontro à venda em lugar nenhum.
De blogdaruanove a 27 de Agosto de 2007 às 02:20
Agradeço a sua visita e a questão, Daniel Rodrigues. Como sabe, algumas das primeiras edições da obra de Wenceslau tornaram-se raridades ainda em vida do autor, particularmente o volume O Culto do Chá. Tais edições aparecem esporadicamente nos alfarrabistas e mesmo em alguns leilões. Apesar de relativamente recentes, as edições dos anos 70, com introdução de Martins Janeira, são também escassas no mercado. Durante a década de 90, surgiram várias reedições de alguns dos seus títulos, publicadas pela Fundação Oriente, pelo Instituto Camões, pelo Instituto Cultural de Macau e pela Vega. Ultimamente, dado que a obra de Wenceslau entrou no domínio público em 1999, a Frenesi também tem editado os seus títulos.
De Abreu Pires a 26 de Fevereiro de 2008 às 07:59
Bom dia. Tenho um exemplar do Culto do Chá em papel de folha de arroz. Está assinado (assinatura ilegível) e tem escrito "Porto, Janeiro, 1912". Alguém saberá dizer o valor dele? Com os cumprimentos. João Paulo Pires
De Abreu Pires a 26 de Fevereiro de 2008 às 20:53
Para quem quiser informações adicionais sobre o livro CULTO DO CHÁ queira contactar: 198mdk arroba oninet.pt
De gestor a 18 de Junho de 2008 às 00:08
Fotos do Livro CULTO DO CHÁ

http://fotos.sapo.pt/favoritus/playview/7


Edição Kobe de 1905

Livro não aberto.
De Duarte a 10 de Março de 2009 às 01:13
estou interessado no livro. vende-o por quanto?
De JP a 10 de Março de 2009 às 07:21
Olá Duarte. Este livro foi avaliado por alfarrabista em 600 eur. Cumps. JP
De Abreu Pires a 10 de Março de 2009 às 07:23
Poderão consultar as fotos do livro em: http://fotos.sapo.pt/favoritus/playview/7
De blogdaruanove a 10 de Março de 2009 às 09:20
Embora não haja intenção de retirar da consulta pública as recentes trocas de correspondência comercial aqui surgidas, agradece-se que as transacções comerciais, e respectiva correspondência, sejam efectuadas noutro espaço.
De modo algum o autor se vincula a transacções originadas, directa ou indirectamente, pelo conteúdo dos artigos publicados. O autor não transacciona qualquer artigo ou produto relacionado com os mesmos.

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