Segunda-feira, 6 de Agosto de 2007

Macau, 1936 (XIII)

 

   Abraçava Boubouka de olhos fechados. Contudo, via-a. Mas parecia-lhe outra. Morena, sim, mas de olhos amendoados. Uns olhos que lhe davam um olhar ainda mais doce. Um olhar rasgado, misterioso, oriental. Aparecia agora à distância. Trazia consigo uma bilha e sorria, como Boubouka sempre sorrira. Mas esta era uma outra Boubouka, adolescente, quase criança. Caminhava para ele, ondulando as vestes beduínas. Caminhava lentamente, abrindo os braços, carinhosamente. Aproximava-se deixando ver  os lábios carnudos, prontos a beijar. Um beijo dado à distância... O beijo voava. Voava para ele. Transformava-se em palavras. Palavras pequenas, silenciosas. Que cresciam, atroando o ar, atordoando-o. "Quem és tu?... Quem és tu?..." As palavras envolviam-no. Estava rodeado de espessa neblina.

   "Não sei, não sei... Não  me perguntes!" Ouvia-se a si próprio. Gritava.

   A neblina ganhava contornos dourados. E pétalas. Dezasseis pétalas. Parecia um crisântemo. Um crisântemo cheirando a saké. As pétalas desdobravam-se. Eram agora trinta e duas e começavam a girar. Uma pequena sombrinha de seda e finas varas de bambú, girando, girando. Viu-se no sopé do monte Fuji, admirando as cerejeiras em flor. As pétalas, de um rosa quase branco, caíam. Eram flocos de neve. Uma neve seca, leve. Estava frio, mas tinha sede. Juntou as mãos para derreter a neve, tentando sorvê-la entre os dedos, unidos em concha.

   Levantando o rosto, para beber, viu que a sombra provinha das folhas de uma tamareira. Estava no deserto. Ao longe, caminhando lentamente, alguém trazia uma bilha. Água, concerteza. Era Boubouka, de novo, sorridente. Entreabriu os lábios para receber a dádiva. Ansiava pela frescura daquela água.  Não poderia resistir muito mais. Estendeu os braços, as mãos, os lábios. Recebeu um beijo. E deslizou na escuridão, deixando-se envolver pela noite.

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 23:38
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2 comentários:
De Vitório Rosário Cardoso a 17 de Agosto de 2007 às 01:13
Um blogue deveras interessante, tem mais algum espólio sobre Macau?

Saudações e parabéns,
VRC
De blogdaruanove a 17 de Agosto de 2007 às 18:15
Agradeço a visita e o comentário, Rosário Cardoso. Neste momento existem cerca de vinte fotografias de Macau em arquivo, para serem publicadas a partir de Setembro próximo como ilustrações para os próximos capítulos da novela. Tratam-se de imagens de 1936 a 1940, de um fotógrafo amador, pelo que a qualidade nem sempre será a desejável.
Saudações!

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