Sexta-feira, 10 de Agosto de 2007

Miguel Torga (II)

 

   Torga subdividiu a sua produção literária em poesia, prosa, teatro e poesia e prosa (Diário). Na prosa, encontramos cinco colectâneas de contos – Bichos (1940), Montanha (1941; a partir da 2.ª edição, 1955, Contos da Montanha), Rua (1942), Novos Contos da Montanha (1944) e Pedras Lavradas (1951).

   Neste conjunto, dois volumes apresentam essencialmente uma temática urbana – Rua e Pedras Lavradas.

   A ausência da força arquetípica e da cosmovisão que perpassam pelos seus contos rurais é evidente na maioria destes contos de características urbanas. Aqui, a celebrada força telúrica das personagens torguianas esbate-se, parecendo que estas, personificando Anteu (um dos mitos que Torga evocou na sua obra) e deixando de estar em contacto com a terra e o mundo rural, perdem grande parte do carácter e do carisma que as personagens rurais de Torga apresentam. Surgem, contudo, algumas personagens cativantes e literariamente poderosas, ao assumirem, ao contestarem ou ao sucumbirem perante as tragédias da vida,  da sociedade e da passagem do tempo. E aí, Torga recupera a humanidade, a universalidade e a genialidade das personagens que desenvolveu nos seus contos rurais.

   A impotência do protagonista de "A Reforma" (Rua), o 110, polícia de giro, é paradigmática desta universalidade, um aspecto que é ainda sublinhado pelo brilhante trocadilho entre o estatuto que o guarda acaba de perder e o sentimento que o domina. Um trocadilho que acaba por ser irónico na sua antítese e transforma uma comparação banal numa excepcional comparação literária:

 

   "As duas mulheres estavam suspensas da bôca dêle.

   – Não é que eu me sinta velho... Há outros que podem menos... Em todo o caso os anos estão sobre o lombo, e já cá tenho...

   Espraiava-se a fugir ao essencial, roído dum desespêro fundo, impotente, que lhe raiava os olhos.

   – Mas afinal que foi que aconteceu? – preguntou a mulher, a concretizar.

   Êle então, como um criminoso chegado ao fim da defesa, voltou-se, puxou uma cadeira, e enquanto se sentava pesadamente nela, confessou tudo.

   – Fui reformado..."

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 23:53
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5 comentários:
De vítor a 11 de Agosto de 2007 às 19:20
Faz-me muita confusão o aproveitamento que estão a fazer de Torga, nomeadamente algumas figuras políticas que ele simplesmente desprezava. Para além disso até a família.
Custa muito ouvir uns "sempre amigos" a tecerem loas ao vento.
Amigos tinha-os no Padre Valentim Marques, em Fernando Valle (outro grande Homem) e mais uma meia dúzia. Os outros, meros aprendizes de "feiticeiros" que somente se querem aproveitar do nome dele.
De blogdaruanove a 13 de Agosto de 2007 às 19:20
Agradeço a visita e o comentário, Vítor.
Embora de geração diferente, amigo era também, certamente, Fernão de Magalhães Gonçalves, que será evocado na próxima semana.
De Elis a 14 de Agosto de 2007 às 14:52
Oi!
Você tem a poesia chamada a carta ou o carteiro, algo assim do Miguel Torga?
De blogdaruanove a 14 de Agosto de 2007 às 17:02
Agradeço a visita e a questão, Elis.
Uma vez que me encontro de férias, de momento apenas acedo à net via celular, o que me coloca algumas limitações de comunicação e não me permite aceder aos meus arquivo em papel. Poderei tentar satisfazer o seu pedido dentro de algumas semanas.
De blogdaruanove a 10 de Setembro de 2007 às 13:23
Bom dia, Elis. De regresso, verifiquei a bibliografia torguiana que possuo, incluindo todos os Diários, e não encontrei tal poesia. No entanto, apesar de possuir inúmeros ensaios sobre o autor e exemplares de toda a sua prosa, não possuo exemplares de toda a poesia de Torga. Se puder dar-me indicações mais precisas (título do livro ou eventual ano de publicação), terei todo o gosto em efectuar pesquisas posteriores.
Saudações!

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