Segunda-feira, 13 de Agosto de 2007

Miguel Torga (III)

 

   A reescrita é uma das características dos textos torguianos. Quando consultamos as múltiplas edições das suas obras, realizadas em vida do autor, encontramos frequentemente as seguintes indicações, em diferentes livros – edição acrescentada, revista e com um prefácio; edição aumentada; edição aumentada, emendada e com um prefácio; edição refundida; edição refundida e aumentada; edição remodelada; edição revista; edição revista, aumentada e com um prefácio.

   Segundo sua filha, Clara Crabbé Rocha, Torga reescreveu e reviu os seus textos até aos últimos momentos, mesmo no leito do hospital. Tal reescrita fica patente quando efectuamos uma leitura comparada das várias edições de um mesmo título. Nos livros de contos, esta leitura comparada permite-nos, ainda, verificar que subsequentes edições integraram textos que não tinham sido publicados anteriormente. Também se verifica que alguns contos foram retirados e não voltaram a ser publicados. Dois contos, em particular, merecem especial atenção – Minério, publicado na 1.ª edição de Montanha (1941) e retirado de todas as edições portuguesas posteriores, e Firmeza, publicado nas primeiras edições de Novos Contos da Montanha (1.ª edição, 1944) e definitivamente ausente a  partir da 5.ª edição (1952). 

   Estes contos são particularmente interessantes porque representam um claro paradigma da literatura neo-realista de Torga, sendo também narrativas contemporâneas da génese do próprio neo-realismo. É um pressuposto da literatura torguiana a sua independência relativamente a movimentos literários, mas estes contos demonstram que essa asserção apenas é válida para uma classificação global da sua obra. Pontualmente, Torga produziu textos que se inseriam nos movimentos da época. Tendo colaborado na revista Presença e tendo produzido textos como este dois contos, na altura em que estas eram as vanguardas em Portugal, Torga demonstra-nos que a afirmação de Jorge de Sena, classificando-o de "suficientemente não moderno para agradar a toda a gente", será uma opinião muito pessoal e contestável. É claro que Sena poderia estar a referir-se apenas à poesia torguiana, mas tal não está implícito no contexto deste comentário endereçado a Sophia de Mello Breyner. 

   O conto Minério aborda as condições de  trabalho nas minas e as relações entre trabalhadores e patronato, uma temática que se inseria na actualidade da época e na exploração das minas de volfrâmio que alimentavam as indústrias bélicas da II Grande Guerra.

   O conto Firmeza relata uma realidade que, apesar de rural, não se afasta da temática da luta de classes.

   Transcrevem-se abaixo alguns parágrafos deste conto, retirados da 1.ª edição:

 

 

   "– E deixais-lhe estragar o pão?

   – Pois deixamos... Que nos importa a nós o pão dêle?! Colhe-o, enferrolha-o na tulha, e a gente se o quiser tem de lho pagar a oiro...

   – Mas é pão!

   – Sim, e que tem lá isso?"

 

   (...)

 

   "A trovoada continuava cada vez mais forte, e os raios abriam na noite negra rápidos clarões deslumbradores.

   O Joaquim Lontra, então, desceu a rua, chegou perto da casa, torceu à esquerda, e pelo caminho mais curto foi à eira. Lá, entrou no coberto, e do bolso das calças que não estava molhado tirou o isqueiro, fêz lume e chegou-o a um dos molhos. Depois voltou serenamente a casa pelo mesmo caminho.

   – Fogo! Fogo! – gritava daí a pouco tôda a gente.

   Mas o raio que caíra no palheiro escolhera o melhor sítio. Quando a trovoada amainou e a aldeia em pêso pode acudir, todo o barracão tinha sido devorado pelo incêndio."

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 20:50
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2 comentários:
De Carlos Freitas a 13 de Agosto de 2007 às 22:38
Um provinciano rústico segundo reza a má lingua que medra por ai. Nem 100 anos de vida destes os eternizará.
De blogdaruanove a 14 de Agosto de 2007 às 17:04
Agradeço a visita e o comentário, Carlos Freitas.

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