Quinta-feira, 16 de Agosto de 2007

Miguel Torga (V)

 

Novos Contos da Montanha (2.ª edição, 1945).

 

   Em Novos Contos da Montanha (1944), como o nome indicia, Torga retomou uma ligação umbilical à atmosfera e aos contos publicados anteriormente em Montanha (1941), uma colectânea censurada pelo regime. (Surgiria mais tarde em duas edições brasileiras, já sob o título Contos da Montanha, voltando uma nova edição portuguesa, a quarta, a ser publicada apenas nos anos 60.)

   Nesta terceira colectânea de contos essencialmente rurais, o autor apresenta novamente a sua particular visão cosmogónica. Surgem narrativas de um mundo contido na sua realidade regional ou local que, paradoxalmente, é paradigma de realidades universais. O Alma Grande, A Festa, O Senhor, são contos que retratam diferentes dimensões da religião e da religiosidade, cruzando o sagrado e o profano, e consolidam esta particular vertente da escrita torguiana.

   Mas, essencialmente, é neste volume que o escritor conclui uma brilhante trilogia sobre a autocracia feminina e o arquétipo da mãe e da mulher. Iniciada com o rito de passagem e a catarse de Madalena (Bichos, 1940), continuada com a vida trágica da mater dolorosa que é Maria Lionça (Montanha, 1941), essa trilogia completa-se aqui com a maternidade sem pecado de Mariana. Mariana é a mulher que não conhece pecado, pois apenas reflecte o apelo e o instinto procriador da natureza.

    

 

   Transcreve-se seguidamente um parágrafo desse conto, retirado da 3.ª edição (aumentada e com um prefácio) de Novos Contos da Montanha (1952):

 

   "Mariana não podia entender a certeza do filho. A terra parecia-lhe una, indivisível, nivelada na mesma serenidade e no mesmo destino de criar. Aqui, ali, acolá, aldeias, casais, quintas ou descampados, eram sítios do mesmo mundo, iguais, onde os seus pés caminhavam tão contentes dos seixos como do rosmaninho. Nem sequer a simpatia de uma encosta, o afeiçoamento da perdiz ao monte onde tirou a ninhada. As crias de Mariana nasciam em todos os polos onde as suas pernas tinham forças para chegar. Em qualquer mata miúda o seu ventre paria em paz, e atrás de qualquer parede o seu corpo recebia a seiva de uma nova vida. Não. Nem entendia o rapaz a gabar os lameiros de Constantim, nem a sensualidade do Jeremias Manso a querer fazer da sua carne coisa de gozo."

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 22:13
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Fevereiro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29

.posts recentes

. Old Chap

. Le Sacré du Printemps

. Word of Mouth

. Still Skating Around...

. Volare...

. Ouranos

. Staccato

. E Va...

. E La Nave Va...

. The End

.arquivos

. Fevereiro 2012

. Fevereiro 2011

. Fevereiro 2010

. Outubro 2009

. Junho 2009

. Fevereiro 2009

. Outubro 2008

. Junho 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

.tags

. todas as tags

.Visitas

blogs SAPO

.subscrever feeds