Quinta-feira, 8 de Março de 2007

To.

Sculpture © Michael Snow (1989)

Photo © Dittwald Collection

 

   Nos meus anos de Toronto, era o Bata Shoe Museum. Uma provocação audaciosa, embora de pequenas dimensões. Poucos depois, o edifício da UofT, na Spadina. Uma ostensiva mega-demarcação de território. Agora, a renovação do Royal Ontario Museum, da autoria do arquitecto Daniel Libeskind, e o Michael Lee-Chin Crystal. Uma explosão.

   Comento com os torontonians meus amigos e eles ficam perplexos com as minhas observações. "No pasa nada..." Como assim?

   Cheguei a Toronto sabendo muito pouco sobre a cidade. Por uma atracção que na altura parecia quase inexplicável, comecei, imediata e quotidianamente, a frequentar aquele que haveria de ser um dos meus espaços predilectos. O troço da Bloor, entre a St. George e a Bathurst, onde estes prédios se encontram.

   No entanto, quando me ausentava não era apenas com esse espaço que sonhava. Os meus pensamentos vagueavam entre os bailados do Queen's Quay e o bulício da Queen St. e da Dundas, que me seduz muito mais que o da King. Atravessavam o Don Valley para os bairros gregos e indianos. Alimentavam-se nos pequenos restaurantes japoneses. Passeavam pelas imediações da Bloor. Paravam naquelas exóticas lagartixas ou salamandras alaranjadas, pintadas nuns pilares azuis (Que variante escolher? Ceruleam, denim, indigo, navy, persian, sapphire, ultramarine blue? Se eram tantas as tonalidades do azul...) de uma casa da Howland Ave., e seguiam para junto das Girls, no parkette da St. Clair.

   Ultimamente, sempre que venho a Toronto, levo comigo estas questões intrigantes. Por que é que aqueles edifícios estão a desafiar a tradicional e conservadora volumetria vertical desta delineação urbana? Por que é que aquelas fachadas explodem em direcção à rua? Mais importante ainda. Por que é que para muitos torontonians "no pasa nada"? "Si que pasa. Y mucho!" O facto é que muito está a acontecer, mesmo, e estes edifícios são apenas um reflexo dessas mudanças...

   Hoje, nos meus sonhos, os espectadores do Michael Snow deitam-me a língua de fora e fazem-me caretas (excepto aquela senhora lá de cima que, indiferente, continua a apontar para a CN Tower...) dizendo: "Bem feito! Agora já não estás aqui todos os dias para participar destas mudanças..." E eu acordo, a rir, respondendo: "Claro que estou! Estarei sempre aqui..."

 

Sculpture © Florence Wyle (1938)

Photo © Dittwald Collection

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 02:43
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