Segunda-feira, 20 de Agosto de 2007

Miguel Torga (VII)

Contos da Montanha, 2.ª edição, Irmãos Pongetti, Rio de Janeiro, Brasil, 1955.

 

   A colectânea Montanha saíu pela primeira vez em 1941, tendo sido imediatamente alvo da censura do regime. Fora do mercado durante vários anos, teve a sua segunda e terceira edições, já com o título Contos da Montanha, em 1955 e 1962, no Brasil.

   É nesta colectânea que Torga apresenta uma personagem inesquecível – Maria Lionça. Uma mater dolorosa que remete inequivocamente para a Pietà, quando transporta nos braços o cadáver do filho, de regresso à terra natal.

   Surgem ainda contos com um humor peculiar, como Um Roubo, e contos de temática ligada ao sobrenatural, como O Bruxedo.

   Mas é nesta colectânea, como já foi referido, que surge também um conto de temática neo-realista – Minério. Publicado ainda na segunda edição do Brasil, de 1955, foi retirado já na edição seguinte, a de 1962, verificando-se nesta nova edição o aparecimento de um novo conto, O Desamparo de S. Frutuoso.

 

Contos da Montanha, 3.ª edição, Irmãos Pongetti, Rio de Janeiro , Brasil, 1962.

  

   Transcrevem-se seguidamente alguns parágrafos de Minério (2.ª edição, 1955):

 

   "E foi assim que a montanha se perdeu. Açulada pela necessidade, tôda a gente começou a saquear o senhor Williams. O minério não é sagrado. As serras, desde que o mundo é mundo, pertencem a cada povo. E lá diz o ditado: Quem rouba ladrão...

   Ora, o senhor Williams sabe da vida. E como a Guarda Republicana não se fez para outra coisa, aí vem ela de carabina aperrada pela serra acima.

   Os da montanha são do seu natural pacíficos. Criam-se com muito leite. À ponta de aguilhão é que se fazem lobos. A autoridade revista tudo, mete o nariz em tudo. As casas e as pessoas são esquadrinhadas como os montes. E por causa disso há tiros e mortes a toda a hora.

   Dantes, ao escurecer, quando os rebanhos voltavam do pastoreio, acabava o dia. Comia-se o caldo, davam-se as graças, apagava-se a candeia, e até amanhã. Agora a noite é a grande companheira de todos. Quanto mais negra, melhor. Untam-se com sabão os eixos dos carros, e o minério desce silenciosamente dos altos em direcção à Régua."

 

© Blog  da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 16:55
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