Segunda-feira, 27 de Agosto de 2007

Macau, 1936 (XV)

 

   Sorria. Sorria ele, sorriam todos. Começou a ficar incomodado com aquela reciprocidade sorridente e continuada. Não era de muitos sorrisos. E eles sorriam, sorriam continuamente, sem saber sequer por que é que ele sorria... Pensavam eles que o estrangeiro já tinha notado a particularidade do mapa. Pensava ele que os japoneses estavam contentes com o negócio do netsuké. Mas não. Tinham parado de sorrir quando notaram que ele desviara o olhar do mapa.

   E então percebeu que deveria haver mais qualquer coisa. Olhou em volta. Não viu novas peças, nem sinais de que novas peças apareceriam. Olhou de novo para o mapa, pousado em cima da pequena mesa. Uma rosa-dos-ventos ao centro. Imediatamente acima, as ilhas dos feiticeiros. Mais a norte, Macau. A leste, as ilhas dos ladrões. Levantou o olhar para o antiquário. Ele sorria, ainda. Mas este era um sorriso diferente. De complacência. O estrangeiro ainda teria de aprender muito, afinal. Ele pareceu compreender aquele olhar. Um certo paternalismo complacente emanava daquela bonomia... Voltou a olhar para o mapa. À esquerda, uma outra ilha. Chang-chuen-chan. Sanchoão! Sim, Sanchoão! Fontes de água doce, pequenas povoações, salinas, e mais à esquerda, a norte, na costa, lá estava – a legenda que indicava o túmulo de S. Francisco Xavier.

   Sentiu-se ignorante. Recordara o seu mártir de estimação, a Legenda Aurea e os Flos Sanctorum ao ver os netsuké e agora nem sequer lhe ocorrera que S. Francisco Xavier andara por ali e ali falecera. Tinha ainda tanto sobre que reflectir, tanto que aprender...

   Deveria começar por habituar ainda mais o pensamento e o olhar a outras aproximações e outras culturas. (Talvez o fracasso do seu relacionamento com Boubouka traduzisse essa impreparação e essa inadaptação a diferentes maneiras de ser...) Ao contrário dos orientais, os ocidentais liam sempre da esquerda para a direita... Ignorara completamente o lado esquerdo do mapa. Também, a rosa-dos-ventos ali no centro não tinha ajudado...

   O japonês, conhecedor da cultura ocidental, sabia da importância que os jesuítas tinham para o imaginário católico e da importância particular que aquele santo tivera para a evangelização da Índia e do Japão... Ficara desanimado com a inesperada distração do estrangeiro.

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 23:46
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