Segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2007

Florbela Espanca

Desejos Vãos

 

Eu queria ser o Mar de altivo porte

Que ri e canta, a vastidão imensa!

Eu queria ser a Pedra que não pensa,

A pedra do caminho, rude e forte!

 

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,

O bem do que é humilde e não tem sorte!

Eu queria ser a árvore tosca e densa

Que ri do mundo vão e até da morte!

 

Mas o Mar também chora de tristeza...

As árvores também, como quem reza,

Abrem, aos Céus, braços, como um crente!

 

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,

Tem lágrimas de sangue na agonia!

E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...

 

Florbela Espanca (1894-1930)

in Livro de Mágoas (1919)

publicado por blogdaruanove às 22:09
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Sugestão para Filme do Mês

 

 

   Travellers and Magicians (2003). Belíssimo filme do Butão, realizado por Khyentse Norbu, líder espiritual daquele reino. Apresenta hipnotizante fotografia de paisagens e personagens, enquadrando uma história atemporal, mágica e intrigante, numa bem-humorada narrativa do Butão actual. Imagens de um reino aparentemente dividido entre os valores ancestrais e os valores da sociedade ocidental. Consulte mais detalhes em www.imdb.com, onde também poderá obter ligações para alguns videoclips de promoção na Europa. Não deixe de fazer uma visita ao site oficial criado pelos distribuidores em www.travellersandmagicians.com. Aí poderá ouvir cinco músicas da banda sonora original e pesquisar vários outros aspectos relacionados com a estreia, o lançamento, os bastidores e a distribuição do filme.

 

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publicado por blogdaruanove às 04:00
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Pedra de Toque

Sei de uma bela mulher que colecciona pedras. Nada mais.

Os amantes, seguros de si, acham que só as preciosas servem.

Os candidatos a amantes, esperançados, oferecem-lhe exóticas

ágatas-musgo do Nepal, raros minerais do Ártico e pequenas

rochas de Ko Tapu, na baía de Phangnga.

As amigas levam-lhe simples pedras da calçada e ela sorri, murmurando:

"Somos as únicas a ler Florbela Espanca e William Blake..."

"To see a world in a grain of sand..."

Um seixo rolado... Quantos mundos poderá ele conter?

 

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publicado por blogdaruanove às 03:28
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O Nome da Rosa

 

Manhattan.

Ao contrário de muitos dos meus amigos, nunca considerei Nova Iorque o vértice supremo e inultrapassável do cosmopolitismo. A vida na cidade levou-me a dissipar preconceitos imaginários e a desdenhar de artificiais lendas urbanas. O quotidiano foi gerindo os meus espaços e gerando os meus afectos. A Rua Nove. A Rua Nove e as proximidades da Sexta Avenida, da Greenwich Avenue e da Christopher Street. Mas também a proximidade dos bares gay, onde a alegria, apesar de muitas vezes artificial, parece ser eterna. E a proximidade da Rua Onze, com o seu pequeno retalho oitocentista do Segundo Cemitério Judeu Hispano-Português. E a proximidade da Washington Square, onde os estudantes da NYU se juntam, e os espectáculos de rua se sucedem e os polícias e passadores de droga jogam um jogo que parece um interminável filme cómico do cinema mudo. E a memória da boémia do início do século XX. E a memória de Frances Loring e Florence Wyle, The Girls, as escultoras que já tinha encontrado em Toronto. E a parada do Halloween, em Outubro. E a parada do Orgulho Gay, em Julho. E as ambulâncias que passam sem cessar para o hospital da Sétima Avenida. E os bombeiros sempre alerta e em contínuo movimento. E o ruído que não nos deixa adormecer, nunca. E o William Carlos Williams e o Charles Demuth e o Robert Indiana, com as suas versões da Figure Five in Gold, todas únicas e diferentes na sua clonagem criativa. E este edifício que já foi prisão de mulheres no século XIX e agora é biblioteca. E os fantasmas que os leitores conjuram da biblioteca do Umberto Eco, que antes foi do Jorge Luis Borges. E a poeira do 11 de Setembro, the necrotic dust dos pesadelos dos nova-iorquinos. E o cheiro acre das cablagens subterrâneas, inalado durante meses sem fim. E o memorial de azulejos avulsos, presos no gradeamento da esquina da Greenwich Avenue com a Sétima Avenida. E o uivo das sirenes. E o silêncio da cidade, que não se ouve. Nunca!

...Este é o blog da Rua Nove.

 

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publicado por blogdaruanove às 02:04
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