Quarta-feira, 17 de Outubro de 2007

Autógrafos - Baptista-Bastos

 

Baptista-Bastos (n. 1934 ), Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura (1.ª edição, 1981; 3.ª edição, 1987).

 

 

Baptista-Bastos (n. 1934).

   Jornalista, ensaísta e romancista, Baptista-Bastos começou por publicar dois ensaios sobre cinema – O Cinema na Polémica do Tempo (1959) e O Filme e o Realismo (1962). Entre outros textos, compilou posteriormente um festejado conjunto de crónicas sobre Lisboa, intitulado Cidade Diária (1972), mas havia sido já com O Secreto Adeus (1963) que o autor atingira notoriedade e consagração.

   Aclamado publicamente por vários escritores, entre os quais  José Gomes Ferreira (1900-1985) e José Rodrigues Miguéis (1901-1980), o livro foi ligeiramente modificado nas sucessivas edições, sendo a 5.ª edição (1985) aquela que passou a apresentar a versão integral e definitiva.

   O livro mais recente do autor é No Interior da Tua Ausência (2002).

   De Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura, transcreve-se um parágrafo:

 

   "A cantoria sem nexo dos bêbados em grupo perdeu-se na distância. Já não estou ali embora saiba que as minhas raízes mergulham em coisa nenhuma, porque tudo o que caracteriza a condição humana é precário ou provisório. Vejo vivendas que descem a vertente da colina e se aglomeram quase junto ao rio; o largo da Boa Hora, onde nas tardes de domingo operários vestindo fatos de ganga conversavam serenos e graves; as iscas nas tabernas, fritas em banha escura e viscosa, o suor dos cozinheiros que escorria dos seus rostos corados e frequentemente tombava nas frigideiras, misturando-se com o molho odoroso. Vejo faces novas, jovens, que atraem a curiosidade das mulheres velhas, sentadas nos poiais, e as observam com olhares revertidos: animais espontâneos movendo-se com graça e subtileza. Vejo aqueles dias em que todos esperávamos uma tempestade, o Tejo estava espesso, os bojos dos barcos erguidos, observávamos as rémoras alapadas nos cascos, o céu de nuvens, baixo e imundo; isso foi nos anos em que bebíamos o vento, e o vento era fresco e suave. Ouço-o e volto-me para o escutar melhor, dali; mas não é dali que ele sopra, já não sei. Sei, isso sim, que vou descer a encosta amena, um turbilhão de gaivotas erguer-se-á para o ar num alarido alucinado, escorrego em calhaus azuis e em manchas de óleo, gomos de alcatrão colam-se-me às solas dos sapatos, leivas minúsculas no baldio, que criaturas pobres e engenhosas lavram, a fim de não desperdiçarem nenhum pedaço de terra."

 

© Blog da Rua Nove 

publicado por blogdaruanove às 12:25
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