Quarta-feira, 31 de Outubro de 2007

Autógrafos - João Aguiar

 

João Aguiar (n. 1943), O Canto dos Fantasmas (1990).

 

 

João Aguiar (n. 1943).

   Tendo atingido enorme sucesso com o seu livro de estreia, A Voz dos Deuses (1984), que já ultrapassou há muito a décima edição, João Aguiar tem vindo a desenvolver uma ficção de fundo histórico como sua imagem de marca.

   O romance que se seguiu a O Canto dos Fantasmas, Os Comedores de Pérolas (1992), revelou-se também um grande sucesso, que consolidou ainda mais a posição de destaque de João Aguiar na literatura portuguesa contemporânea.

   De O Canto dos Fantasmas transcrevem-se três parágrafos:

 

 

   "A sala estava fresca, as portadas das janelas, ainda encostadas, faziam uma penumbra agradável. André considerou longamente as portadas. Recordava o trabalho que tivera para convencer o mestre de obras de que não queria "estores modenos" e ainda menos caixilhos de alumínio ("mais limpos, mais baratos", insistira o homem; e, com o seu sentido estético ofendido: "mais bonitos, também; é outra coisa!").

   Aprendera muito durante as obras de restauro da casa – obras grandes e caras, porque a Tia Henriqueta deixara a degradação avançar à medida que perdia o seu impulso vital e, com ele, o interesse por tudo o que a rodeava. Só ao lançar mãos ao restauro André compreendera quanto os tempos haviam mudado, não desde a juventude da tia, mas desde a sua própria juventude. A invasão do alumínio e do mármore polido (para as soleiras e parapeitos; um horror) fora mais devastadora do que ele julgara. Era complicado e caro arranjar madeira, pedra – e gente para trabalhar a madeira e a pedra. Além do incómodo imediato, da inconveniência pessoal, inquietava-o saber que de ano a ano se tornava mais difícil encontrar um carpinteiro disposto e sabedor para fazer, por exemplo, portadas de madeira. Ou qualquer outra peça. A era do alumínio, o império da maison. Estremecia ao imaginar como seria Portugal dentro de, vamos lá, vinte anos. Ou menos.

   No quarto ao lado, tiniu a campainha do telefone. André não se mexeu, apesar do forte pressentimento; podia ser engano, podia ser a filha da Dona Angelina a braços com um problema doméstico. Deixou a campainha tocar até que Dona Angelina veio da cozinha e atendeu – berrando, porque, embora familiarizada com as maravilhas do progresso, algo ainda lhe dizia, no íntimo, que quando se fala para longe é preciso gritar."

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 14:27
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