Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007

Macau, 1936 (XIX)

Ilustração de Câmara Leme (1930-1983).

 

   Era estranho. Aproximavam-se do delta do Rio das Pérolas. De Macau e de Hong-Kong. Mas parecia que para os passageiros só existia Macau. Algo de misterioso, quase proibido, parecia envolver o imaginário daquela pequena península e daquelas pequenas ilhas. Macau. O jogo, as pérolas, o ópio, as sedas, não bastavam só por si para explicar a aura e as brumas deste nome. Macau...

   Despediu-se cerimoniosamente do casal Yoshitaki, reafirmando-lhes a sua gratidão pelas ofertas e pela amizade. Eles lembraram-lhe que Hong-Kong ficava mesmo ao lado, deixando o convite para uma visita. Acedeu, com um sorriso e um aceno silencioso.

   Espraiou então a vista pela linha do horizonte. Identificou ao longe pequenos pontos que conhecia de fotografias. Imaginou, mais do que viu, pormenores da Guia, da Penha, das muralhas do Monte. Em baixo alongar-se-ia, como referiam várias descrições da região, a curva graciosa da Praia Grande.

   A chegada a terra surpreendeu-o. Tinha-se preparado para todas as diferenças. Mas não para aquelas. Aquelas eram demasiado diferentes. Sentiu-se abalado no mais íntimo de si. Teve que fechar os olhos.  Uma coisa de cada vez. Começaria pelos sons, passando lentamente ao olfacto. Mas os cheiros tomaram conta das suas narinas e das suas entranhas. De uma forma avassaladora.

   A maresia das semanas anteriores desvaneceu-se com a inesperada explosão de todos aqueles cheiros inacreditáveis. Eram os aromas, mas também o bulício e o burburinho. Um enjôo jamais experimentado em alto mar. A tontura do movimento constante, dos sons continuados. O aparente caos dos riquexós, os gritos dos condutores, a multidão caminhando apressada e parecendo traçar caminhos alternativos, construindo as suas próprias ruas. Tudo aquilo contrastando com a inabalável placidez dos passageiros dos riquexós e a ondulada calma azul do fumo do tabaco. Um tabaco que se confundia com as longas barbas de alguns velhos comerciantes chineses, sentados à entrada de pequenas lojas. 

  Tinham-lhe dito que poderia escolher o alojamento. Estaria pago durante as primeiras semanas da sua estadia. Inicialmente deixara-se seduzir pelo glamour do Hotel Bela Vista. Considerou depois que esse glamour e a própria localização do hotel o manteriam afastado do movimento da cidade. Como alternativa, tinha o Grand Central e o Hotel Riviera, quase lado a lado, na mesma rua. Soubera que no início da década o antigo President mudara de nome, era agora o Grand, e de proprietários, eram agora chineses.

   Telegrafara de bordo, havia já várias semanas, fazendo a reserva. Ficaria no Grand.

 

 

Macau, cerca de 1936.

 

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 23:54
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Fevereiro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29

.posts recentes

. Old Chap

. Le Sacré du Printemps

. Word of Mouth

. Still Skating Around...

. Volare...

. Ouranos

. Staccato

. E Va...

. E La Nave Va...

. The End

.arquivos

. Fevereiro 2012

. Fevereiro 2011

. Fevereiro 2010

. Outubro 2009

. Junho 2009

. Fevereiro 2009

. Outubro 2008

. Junho 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

.tags

. todas as tags

.Visitas

blogs SAPO

.subscrever feeds