Sexta-feira, 5 de Outubro de 2007

Macau, 1936 (XX)

 

   Antes de desembarcar em Macau estava apreensivo. Solicitara que ninguém o fosse esperar. Não tinha a certeza que respeitariam o seu desejo. Sempre gostara de discrição e temia que algum funcionário da administração, mais subserviente e menos discreto, surgisse no porto, cumprindo ordens. Mas não. Tinham respeitado o seu pedido. Os colegas mais  cínicos diriam antes que tinham obedecido às suas imposições...

   Agradava-lhe aquele liberdade de poder ser marginal à hierarquia, de poder dispensar o fato e a gravata, de poder dispensar  recepções e protocolos.

   Instalou-se no hotel, afinal familiarmente referido como Central e não como Grand, ao contrário do que pensara. Era esperado como qualquer outro hóspede que tivesse efectuado uma simples reserva telegráfica. Agradou-lhe aquela simpatia anónima e profissional. Aceitara assim não resmungar, desta vez, contra o contínuo e superficial sorriso oriental.

   Decidiu sair ao fim da tarde. O fascínio dos aromas tinha-o deixado entusiasmado com a descoberta de novas sensações. Uma refeição nas ruas parecia-lhe mais atraente do que um jantar convencional e formal no hotel. Deambulou durante algum tempo por aquele mundo surpreendente. Nunca imaginara Macau assim. Mas não se surpreendeu com aquela conclusão. Isso já ele esperava, de antemão. Os novos lugares nunca correspondem àquilo que, à distância,  fazemos deles.

   Encontrou um restaurante numa rua estreita e mal iluminada. Na viela, uma multidão barulhenta movia-se entre vapores e aromas  indescritíveis. Divertiu-se a observar inúmeros caracteres que descreviam inúmeros pratos. Fascinava-o também o facto de ignorar o significado daquele universo de pinceladas, vigorosas e ordenadas, anunciando mundos e sabores desconhecidos. Decidiu-se. Escolheu algo que desconhecia, claro. Divertiu-se quando acabou por perceber que tinha pedido lacassá. Divertiu-se ainda mais quando a massa chegou e tentou comer com fai-chis.

   Era obra! Um ocidental tentando comer com pauzinhos pela primeira vez, sem instruções nem qualquer outra ajuda. E não podia ter escolhido nada mais a não ser massa... Divertidíssimo!

   Nem queria acreditar. Sentia-se ridículo mas estava a divertir-se com a sua própria figura...

 

A colina da Penha. Macau, cerca de 1936.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 23:32
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