Quarta-feira, 9 de Maio de 2007

Autógrafos - José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira (1900-1985)

A Memória das Palavras (1965; 3.ª edição, 1972)

 

 

José Gomes Ferreira (1900-1985)

   Poeta e prosador, Gomes Ferreira começou a publicar a sua obra, em volumes, vários anos depois de exercer as funções de cônsul de Portugal em Kristiansund, na Noruega (1926-1930). O seu primeiro volume em verso, Poesia I, foi publicado em 1948, sendo o último, Poesia VI, de 1976.

   Entretanto, saíra o seu  famoso livro Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo (1963), prosa metafórica de índole liberal e contestatária, e havia sido publicada uma interessantíssima obra memorialista intitulada A Memória das Palavras (1965).

   Embora independente de movimentos literários, a formação de Gomes Ferreira e a sua obra podem ser consideradas próximas dos ideais do movimento e da revista Seara Nova. Homem de esquerda, intelectual tolerante e liberal, Gomes Ferreira não deixou, no entanto, de respeitar e conviver com homens-chave do regime Salazarista, como o embaixador Franco Nogueira (1918-1993). Aliás, na antiga biblioteca de Franco Nogueira existia um volume com dedicatória de Gomes Ferreira, em que este referia terem ambos comum admiração pela obra do ilustrador Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957), um dos porta-estandarte do Neo-Realismo. Em 1950 Ribeiro de Pavia publicou um álbum de 15 desenhos, As Líricas, dedicado ao poeta.

   Gomes Ferreira inicia o preâmbulo de A Memória das Palavras dirigindo-se a sua esposa nos seguintes termos – "Rosalia: Aqui tens o meu passado. A parte mais pura do meu passado. A única digna de ti, minha querida companheira de tantos e tantos felizes anos árduos." Dessa compilação de memórias, transcrevem-se alguns parágrafos:

 

   "E então, com a naturalidade de quem sorri, arranjei novos amigos, os meus grandes amigos dos anos de 30. Quase todos artistas. Muitos pintores, desenhadores e arquitectos: os meus compadres Ofélia e Bernardo Marques, o Carlos Botelho, o Fred Kradolfer ("o suíço que se deu ao trabalho de ser português"), a Maria e o Chico Keil, o Cottinelli Telmo, o Diogo de Macedo...

   E quem é aquele aciganado, de gravata branca, sentado na Brasileira do Chiado a conversar com o José Tagarro? (O bom desenhador gigante de mãos rudes donde, por milagre, só escorriam perfis de delicadeza de fio...) Aquele?... Eu apresento-te: Manuel Mendes... Gomes Ferreira (ainda, literàriamente, sem o José). Muito prazer.

   Sim, o Manuel Mendes, futuro autor do Bairro e do Pedro (livros da minha escolha nas horas de ir à estante reler páginas predilectas), admirador cego, como eu, de Raul Brandão, democrata como eu e camarada dos longos passeios nocturnos pela vida fora... – vamos jantar a uma taberninha? – ... talvez pela morte dentro...

   Logo no início da nossa amizade prestou-me um serviço real, publicando no Descobrimento, revista dirigida por João de Castro Osório, várias traduções de poemas operários americanos que tanto pesaram na minha busca de melodias poéticas não ouvidas. E apresentou-me em seguida a Bento de Jesus Caraça que recordo sempre com o seu sorriso de jeune fille – na inesquecível definição de Carlos Amaro.

   Sobre este homem de excepção poderia agora escrever um capítulo inteiro evocativo do mês de intimidade de férias que passámos na casa do Chico Keil em Canas de Senhorim onde os três acabámos por inventar um pudim famoso que, não sei por que fantasia inofensiva de scherzo estival, baptizámos de "pudim Presidente da Academia de Ciências".

   Mas nestas memórias em redor de coisas literárias (ou que lá vão ter) vejo-o sobretudo a rir, a rir muito durante a visita que fizemos à Metalúrgica do Tramagal quando, após a representação da habitual comédia do poeta desgostoso dos mecanismos úteis, lhe descrevi as minhas outras Fábricas sonhadas com máquinas estranhíssimas de fabricar Silêncio, de fabricar Solidão, de fabricar imagens poéticas, de fabricar Nada... Daí em diante nunca mais me cumprimentou senão com este brado de saudação que ouvira um dia a certo velhote, apostrofando um amigo no eléctrico matinal:

   – Eh! Poeta! Eh! enganador do Povo! (Devo esclarecer que ainda não tinha publicado a Poesia I.)"

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 12:25
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