Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

A Capa da Revista Klaxon e o Modernismo

Cottinelli Telmo (1897-1948), capa para o livro Mais Um (1931), de Augusto Cunha (1894-1947).

 

   O título da revista Klaxon reflecte claramente princípios do movimento futurista proclamado pelo escritor italiano Marinetti (1876-1944) no seu Manifesto Futurista, publicado em 1909 pelo jornal francês Le Figaro. As evocações do som da buzina, do automóvel e da velocidade no título da publicação não deixam de remeter para uma das mais famosas frases do manifesto, aquela que corresponde ao ponto quatro – "Um carro de corrida (...) é mais bonito que a Vitória de Samotrácia."

   Mas esta capa evoca ainda, claramente, outras influências. O valor estético dos números e das letras remete para o valor destes elementos na gramática da pintura e das gravuras orientais, naquela que pode ter sido uma influência remota, indirecta e raramente admitida no modernismo europeu do início do século XX.

 

Reprodução da capa da 2.ª reedição (1979) do número 2 da revista Orpheu (1915). Uma capa com "um simples e normal aspecto tipográfico", de acordo com os responsáveis pela publicação, que sucedeu à capa artística do número 1, desenhada por José Pacheco (1885-1934).

 

   Interpelando certa vez a escritora americana Gertrude Stein (1874-1946), Picasso (1881-1973) menosprezou a colecção de estampas de seu irmão, Leo Stein (1872-1947), dizendo-lhe que os seus interesses pictóricos, estéticos e artísticos estavam muito para além dessa arte. É certo, também, que muitos historiadores de arte apontam influências da arte africana no Cubismo, ignorando ou menosprezando qualquer influência das estampas japonesas neste movimento modernista. Não podemos ignorar, contudo, que tal atitude pode radicar no grande enlevo que representantes de movimentos anteriores, como o Impressionismo e o Pós-Impressionismo, manisfestaram por esta arte oriental. E no inevitável sentimento de repulsa que os novos artistas manisfestavam pelos velhos movimentos e por tudo que eles exaltassem.

   O facto é que o Cubismo, iniciado em 1907,  acabou por integrar letras, frases e números nas pinturas e nas colagens, não deixando de sugerir valências estéticas semelhantes às que se poderiam observar na arte oriental.

 

Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918), Caixa Registadora, detalhe (c. 1917).

© CAMJAP - Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

 

   Esta utilização estética e conceptual das letras (particularmente aquelas cujo formato  evocava a tipografia) e dos números acabou por surgir em várias outras correntes artísticas das décadas de 1910 e 1920, como o Orfismo, o Dadaísmo, o Construtivismo e o Surrealismo, tendo sido exaltada com frequência em vários textos modernistas, como o poema Manucure (1915), de Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), publicado no número 2 da revista Orpheu.

 

Excerto do poema Manucure, de Mário de Sá-Carneiro.

 

© Blog da Rua Nove 

publicado por blogdaruanove às 22:09
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