Quarta-feira, 21 de Novembro de 2007

Autógrafos - João de Araújo Correia

 

João de Araújo Correia (1899-1985), Os Melhores Contos de João de Araújo Correia (1960).

Capa de Victor Palla (1922-2006).

 

 

João de Araújo Correia (1899-1985).

 

   Escritor cuja temática sempre reflectiu a vivência de Trás-os-Montes e, em particular, do Alto Douro, João de Araújo Correia surge como um dos grandes contistas de temática regional do século XX.

   A sua prosa, distinta da de Aquilino Ribeiro (1885-1963), com o seu quase hermético léxico regionalista, e da de Miguel Torga (Adolfo Rocha, 1907-1995), com a sua contenção e limpidez narrativa, reflecte muitas vezes a transferência da oralidade do quotidiano para a literatura, num discurso onde também predomina, como nos autores referidos, a ruralidade ou a proximidade urbana ao mundo rural.

   Médico, João de Araújo Correia iniciou a sua carreira literária com Sem Método (1938), um conjunto de textos que o autor apelidou de "notas sertanejas". A sua consagração surgiu pouco depois com os livros Contos Bárbaros (1939) e Contos Durienses (1941), a que se seguiram vários outros títulos de ficção.

   Da antologia Os Melhores Contos de João de Araújo Correia, prefaciada por um outro escritor duriense, Guedes  de Amorim (1901-1979), transcreve-se uma breve passagem do primeiro parágrafo (que se alonga por mais de três páginas) do conto Os Livros do Diabo, originalmente publicado em Contos Bárbaros:

 

   "Amigo de saias como aquilo não houve nem no tornará a haver tão cedo cá na freguesia. Consoante o chapéu que trouxesse na cabeça, assim o procurava esta ou aquela rapariga no sítio combinado. Portanto, pode-se dizer que tinha tantos chapéus quantas amigas. Eran às dúzias... Podia montar com eles uma chapelaria abonada. Mas... que chapelaria! Porta sim, porta não, morava alguém que tinha pata com ele. Que, além no Cabo, era tudo a eito! No Cabo e nos quartéis, que ficam à beira daquele caminho negro, por onde Vossa Excelência acaba de passar para me vir ver. Era uma tempera de aço! Morreu na idade que eu tenho agora – oitenta e quatro feitos. Pois, meu caro, senhor, no próprio dia em que o deram à terra, abriu os olhos ao mundo uma menina – tão filha dele como eu sou filho de minha mãe, que Deus haja. Ó rapariga, és ou não és filha do Padre Bento? Chega-te cá. Mostra-te aqui ao senhor doutor... Anda, não tenhas vergonha! Ele tem visto muitas caras mais lindas do que a tua. O que decerto não viu, nas terras de Cristo por onde tem andado, são olhos azuis iguais aos teus. Nem rosto que pareça, como o teu, uma açucena. E, se os viu, olhos assim, olhos da cor do céu e as faces mais brancas do que a neve, foi em raparigas de cabelo loiro – nanja como tu, que tens o cabelo preto. Ó senhor doutor, repare bem. É o dia e a noite ao mesmo tempo! E, sempre que Vossa Excelência encontre disto cá na freguesia, já sabe: é sangue do Padre Bento. (...)"

 

© Blog da Rua Nove

  

publicado por blogdaruanove às 20:43
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