Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

Macau, 1936 (XXI)

Vinheta de Raymond Hull (1934).

 

   Macau não lhe pareceu uma cidade muito grande. "Mas a dimensão das cidades, à noite, é sempre outra. Como se existissem sempre duas cidades em cada cidade. E habitantes diferentes para cada uma delas...", pensou. Durante a tarde, entontecido pelos sons e pelos aromas estranhos, quase não reparara na cidade, na sua arquitectura. Agora, à noite, as ruas pareciam-lhe tão  labirínticas e enoveladas como aquele lacassá que lhe haviam servido ao jantar.

   Não estando habituado a cidades com lojas abertas até tão tarde, pareceram-lhe os sons e rumores daquelas horas ruídos estranhos. Mas não ruídos exóticos. Apenas ruídos inesperados. Ruídos que contrastavam com a memória que tinha dos silêncios nocturnos nas cidades europeias. Ruídos que contrastavam com o ligeiro aspecto ocidental de alguns prédios.

   Naquelas ruas por onde andara predominavam prédios de três e quatro pisos. Apresentando quase todos lojas no rés-do-chão, tinham estreitas varandas correndo ao longo da fachada, nos andares superiores. Ténues luzes escorriam dos seus interiores, contrastando com o vozear que se escapava de algumas casas e nada tinha de ténue. Macau não lhe pareceu uma cidade de murmúrios. "Talvez as pessoas murmurem noutras ocasiões, contrariando o ruído das manhãs ou a agitação das tardes..." Sempre pensara na discrição como característica dos povos chineses. Descobria agora que essa discrição, afinal, poderia transformar-se em vigorosa gesticulação e alta vozearia. "Questão de classes sociais, talvez..." Enquanto assim pensava, notou as gelosias de algumas casas sem varanda. A temperatura da noite e as cores daquelas ripas de madeira lembraram-lhe algumas casas do Funchal. Eram contudo diferentes, estas gelosias. A abertura na fachada era a de uma alta porta de varanda europeia, encimada por uma armação de madeira com duas ou três vidraças. As gelosias surgiam então, subdivididas horizontalmente em duas secções que chegavam até ao nível do soalho. As duas secções do meio estavam abertas de par em par na maioria dos prédios. Destas casas não pareciam sair tantas vozes...

   Parou junto de quatro colunas rematadas com capitéis. As colunas centrais prolongavam-se em dois pisos superiores. Três pesadas portas de madeira, almofadadas, surgiam quase embutidas numa fachada de nítida influência europeia. Encontrava-se numa esquina. Descobriu que estava na rua de S. Domingos.

   Não conseguiu conter uma gargalhada, lentamente diluída num sorriso irónico. Macau... E logo tinha que ir dar a um templo cristão! Virou costas e mandou parar um riquexó que passava. "Central!", disse.

   O sorriso ainda lhe marcava a face quando o riquexó arrancou, trazendo-lhe a brisa de Macau...

 

Macau, cerca de 1936.

 

© Blog  da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 04:42
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