Sexta-feira, 19 de Outubro de 2007

Macau, 1936 (XXII)

Mapa de Macau publicado em 1955.

 

   "Ni hao!" Gostava de ouvir esta saudação pela manhã, mesmo sabendo que não era a mais respeitosa de todas e que muitas vezes estariam a pensar nele como intruso, um san-kuai, e o amaldiçoariam mentalmente como a um diabo estrangeiro.

   Era estranho, mas à medida que ia ouvindo novas palavras e começando a perceber parte do seu significado, sentia que ia deixando fugir um pouco do cativante mistério da China. Gostava de ouvir palavras desconhecidas e de se deixar levar para um mundo de fantasia pela diferente sonoridade das vozes. Um mundo de sons com significados aleatórios, ou sem outro significado que a sua própria sonoridade, uma sonoridade mágica e desconhecida. Um mundo que agora ia desaparecendo. As palavras começavam a ter significados concretos e deixavam de ser apenas sons encantatórios, passando a traduzir muitas vezes a desilusão e a monotonia de um quotidiano repetitivo.

   Acontecera-lhe, entretanto, ser surpreendido pela subtileza das sonoridades. Descobrira que os macaístas preferiam o termo jirinchá a riquexó. Menos anglicizante, diziam. Consideração que não deixava de ser curiosa numa terra onde os comerciantes aceitavam de bom grado a moeda corrente de Hong-Kong, preferindo-a muitas vezes às patacas do Ultramarino... Também não deixara de ser curioso o encontro que acabara de ter com algumas autoridades do território e alguns desses macaístas patriotas, ciosos da nacionalidade portuguesa. Achou particularmente intrigante a insistência com que lhe sugeriram uma visita às ilhas vizinhas. Lapa, D. João e Montanha. Compreendeu que teria de aceitar a sugestão. No Oriente, as insistências veementes podiam corresponder a uma ordem irrecusável, e as aquiescências sorridentes a uma negativa silenciosa, continuamente adiada. Mesmo quando o discurso vinha de portugueses. Portugueses residentes em Macau. Macaístas.

   Procurou Tai-Vong-Cam num mapa. A Ilha da Montanha. Das três, aquela que ficava mais a sul. Ocorreu-lhe a conversa que tivera momentos antes sobre Cantão. Sobre as redondezas, sobre a província, sobre aquela região da China. Lembrou-se de uma expressão. Heang-Chan. As Montanhas Perfumadas. E percebeu o seu enlevo. Ao contrário do que pensara até ali, conseguira ainda encontrar palavras misteriosas. Palavras que, mesmo depois de traduzidas, continuavam a encerrar magia. Palavras que, depois de traduzidas, acentuavam ainda mais essa magia.

   A norte, junto de Cantão, Pac-San, a Montanha Branca. A sul, Tai-Vong-Cam, a Ilha da Montanha. Heang-Chan. Estava nas terras de Heang-Chan... Estava na terra das Montanhas Perfumadas. 

 

Rede de pesca conhecida como sarambau. Macau, cerca de 1936.

 

© Blog da Rua Nove

 

publicado por blogdaruanove às 23:31
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