Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007

Macau, 1936 (XXIII)

 

   Caminhando em direcção à Praia Grande, viu dezenas de juncos e algumas sampanas com as velas desfraldadas. As velas, imóveis, de um branco sujo de pano crú, pareciam desenhar um extenso biombo. Um biombo constituído por inúmeras asas de morcegos albinos. Asas de uma palidez esquálida, de uma lividez repelente. Asas estranhamente silenciosas, anquilosadas, paralisadas. À esquerda, depois da colina, estendia-se o vasto aterro do Porto Exterior. A azáfama nas embarcações contrastava com a acalmia das velas e das águas. Águas escuras, esverdeadas, quase sem ondulação. Lembrou-se das águas cor de azeite de António Nobre. Lembrou-se do inevitável lugar-comum da literatura. Sozinho na multidão. E aquela que lhe parecera sempre uma ridícula imagem, exagerada pelos escritores, fez sentido. Só. Sentia-se só entre toda aquela gente, entre todo aquele movimento, entre todo aquele barulho.

   Virou subitamente costas ao mar, àquele triste mar cor de azeite. Não estava no Canal da Mancha, nem queria que o deixassem chorar. Dirigiu-se para os bairros que já conhecia. Preferia sentir-se só em lugares que lhe eram familiares. Sem qualquer pensamento irónico, deu por si novamente na Rua de S. Domingos. Descobriu letreiros que não tinha visto, frases que nunca pensara existirem. Coisas estranhas. Caracteres de dimensões avassaladoras inscritos em pequeníssimas tabuletas. Combinações linguísticas que pareciam saídas de manifestos e poemas modernistas. Caracteres orientais que se entreteciam com letras ocidentais, criando frases surpreendentes, realidades inesperadas. "Há mobílias de madeira sun-chi e quan-tin para vender e alugar", lia-se num pilar da carpintaria Iu-Seng e C.ª. Mergulhou de repente nos versos de Sá-Carneiro. Manucure. Sentia-se confuso com as reverberações, com os sons, com o ressoar das memórias. Vívidas imagens da rua cruzavam-se com nítidas palavras do passado, intersectando-se, rejeitando-se, amalgamando-se. Criando uma claridade ofuscante e ensurdecedora.

  "Xue! Xue!", ouviu. Era uma voz nervosa, masculina mas alquebrada, que vinha da cave de uma loja. A princípio pensou que se dirigia a si, que o estavam a enxotar por se ter encostado momentaneamente  a um pilar da loja. Depois percebeu que a voz, embora viesse de dentro, também se dirigia para dentro, para o fundo da loja. Espreitou. Parecia-se com as retrosarias ocidentais. Tecidos, acessórios de costura, linhas, botões. Ao cimo de umas escadas, na indefinida fronteira entre a claridade da rua e a penumbra da loja, um velho segurava nas mãos mostruários de fitas para debruar, enquanto chamava alguém. Ao lado, sobre uma mesinha, dezenas e dezenas de botões avulso, espalhados numa harmonia caótica, brilhavam como pequenas preciosidades.

   Por momentos, o olhar do comerciante cruzou-se com o seu. Um sorriso sucedeu ao chamamento. Foi convidado a entrar. Deixando-se envolver pela penumbra, entrou.

 

Macau, cerca de 1936.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 23:52
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