Sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

Macau, 1936 (XXV)

 

Ilustração de Câmara Leme (1930-1983).

 

   A porta fechada representava um enigma que o fascinava. Deixou que o velho comerciante desempenhasse as suas funções de alfaiate e lhe tirasse as medidas, mesmo antes de ver se havia alguma fazenda que lhe agradasse. Ansiava por uma oportunidade de o questionar sobre o que estaria para além daquela porta e esperava que  ele lhe dissesse "São as nossas oficinas de alfaiataria", convidando-o a entrar e a transpôr aquele obstáculo que ele acreditava ser o acesso secreto a um mundo mágico.

   Esperava descobrir um mundo industrial, secreto, para além daquela porta, onde muitas centenas de trabalhadores manufacturariam, como que mecanicamente, sigilosamente, peças de vestuário para todo o mundo. Operários costurando e cosendo em silêncio, sustendo quaisquer diálogos, ouvindo o repetitivo e ensurdecedor barulho das máquinas, que abafaria todas as conversas. Conversas retidas nas gargantas. Conversas que nunca poderiam ser iniciadas, apesar de cuidadosamente imaginadas e completamente elaboradas.

   Descobriu um tecido riscado, de finas e discretas listas verticais, que quebrava a monotonia de todos aqueles tecidos monocromáticos. Sendo embora escuro, ganhava alguma leveza com as riscas claras. Um fato que serviria para dias de chuva. Dias que, ali, poderiam vir a ser muito mais escuros que aquela fazenda. Mas seria aquela uma escuridão passageira, caso fosse semelhante às tempestades tropicais que recordava de África.

   Depois de lhe indicar o tecido, aguardou pacientemente que o alfaiate tirasse de novo as medidas, muito devagar, e as anotasse meticulosamente, como que desenhando cada caracter. Não sabendo porquê, esperava ver sair do pequeno lápis letras e números familiares, ocidentais. Talvez porque o giz deslizara também familiarmente pelo tecido, como se conhecesse já cada curva do seu corpo e cada rebordo destinado a uma baínha ou a um recorte. No entanto, não ficou surpreendido quando viu todos aqueles caracteres estranhos gerados pelo lápis. De todos eles, só reconheceu o caracter referente a "homem". Um triângulo quase isósceles, de linhas curvas, desiguais no seu comprimento, viradas para o interior, côncavas. Um triângulo aberto, sem base. 

   Olhou para o azul e vermelho do lápis e voltou a recordar a porta. Procurou-a, novamente. A porta. Havia também um caracter que ele reconhecia, naquela porta. Um caracter inscrito a vermelho. Um rectângulo cortado a meio por um longo segmento de recta. Meio. Era isso mesmo. Meio. "Meio, porquê? Meio, de quê?" Esqueceu toda a discrição, deixando que a curiosidade tomasse conta de si. Instintivamente, deu voz às suas dúvidas. "Para onde dará aquela porta? Para que servirá?". Reparou que o velho comerciante recebera aquelas perguntas com surpresa, pensando que lhe eram dirigidas. Receou tê-lo ofendido, mas não se conseguira conter. Falara em voz alta como se estivesse sozinho.

    Notou um sorriso que lhe pareceu um sorriso de quem aguardava há muito aquela pergunta. Ouviu então dizer, suavemente, num tom de voz que parecia um convite – "Aquela porta dá para as nossas oficinas de alfaiataria..."

 

Macau, cerca de 1936.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 22:39
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