Terça-feira, 20 de Março de 2007

Lord Byron - Uma carta de Portugal

Cork Convent, near Cintra (1840s).

Drawn by C. Stanfield, from a sketch by Capt. Elliot. Engraved by E. Finden.

 

   É bem conhecido o enlevo que o autor inglês Lord Byron (George Gordon Noel, 1788-1824), nutria pela região de Sintra. Os dois versos "...Lo! Cintra's glorious eden intervenes / In variegated maze of mount and glen..." (canto I, estrofe XVIII), do seu extenso poema Childe Harold's Pilgrimage (1812-1818), são frequentemente citados para ilustrar este aspecto. No entanto, o seu desdém pelos portugueses, evidente ao longo das estrofes XIV a XXXIII do mesmo canto e frequentemente referido na sua correspondência, tem sido esquecido, com excepção de algumas diatribes académicas, velhas de muitas décadas.

   A carta que se transcreve documenta eloquentemente os dois aspectos acima referidos - o elogio explícito de Sintra e a crítica  irónica aos portugueses:

 

   [Ao Sr. Hodgson]

                                                                     "Lisboa, 16 de Julho de 1809."

 

   "Até ao momento temos seguido a nossa rota, e visto todo o tipo de panorâmicas maravilhosas, palácios, conventos, &c., - o que, estando para ser contado na próxima obra, Book of Travels, do meu amigo Hobhouse, eu não anteciparei transmitindo-lhe qualquer relato de uma maneira privada e clandestina. Devo apenas observar que a vila de Cintra, na Estremadura, é talvez a mais bela do mundo.

   Sinto-me muito feliz aqui, porque adoro laranjas, e falo um latim macarrónico com os monges, que o compreendem, uma vez que é como o deles, - e frequento a sociedade (com as minhas pistolas de bolso), e nado ao longo do Tejo, e monto em burros ou mulas, e digo palavrões em Português, e sou mordido pelos mosquitos. Mas quê? Aqueles que efectuam digressões não devem esperar conforto.

   Quando os portugueses são pertinazes, eu digo 'Carracho!' - a grande praga dos fidalgos, que muito bem ocupa o lugar de 'Damme!' - e quando fico aborrecido com o meu vizinho declaro-o 'Ambra di merdo' [por 'Homem de merda' ?]. Com estas duas frases, e uma terceira, 'Avra bouro' [por 'Arre burro' ?], que significa 'Get an ass' ['Arranja um burro' ...!?!, obviamente uma tradução incorrecta.], sou universalmente reconhecido como pessoa de categoria e mestre em línguas. Quão alegremente vivemos sendo viajantes! - se tivermos comida e vestuário. Mas, em sóbria tristeza, qualquer coisa é melhor do que Inglaterra e eu estou infinitamente divertido com a minha peregrinação, até ao momento.

    Amanhã começaremos a percorrer cerca de 400 milhas até Gibraltar, onde embarcaremos para Melita [por 'Melilla' ?] e Bizâncio. Uma carta para Malta aí me encontrará, ou será reexpedida caso eu esteja ausente. Rogo-te que abraces o Drury e o Dwyer, e todos os Efésios que encontres. Escrevo com o lápis que me foi dado pelo Butler, o que torna o mau estado da minha [escrita?] mão ainda pior. Perdoa a ilegibilidade.

   Hodgson! Envia-me as novidades, e as mortes e as derrotas e crimes capitais e as desgraças dos amigos; e dá-nos conta das questões literárias, e das controvérsias e das críticas. Tudo isto será agradável - 'Suave mari magno, &c.'. A propósito, tenho andado enjoado e farto do mar. Adieu."

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 16:27
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6 comentários:
De Carlos Costa a 28 de Novembro de 2010 às 03:56
Só ironia e sarcasmo da parte de Byron. Junto com François Villon, Byron é o meu poeta favorito. Foi um homem do seu tempo. O Romantismo estava no seu auge.
De Carlos Costa a 16 de Fevereiro de 2011 às 02:50
Não admira o desprezo que Byron tinha pelos tugas. Naquela época, os tugas eram analfabetos, fanáticos religiosos e conservadores. Lê uma biografia que escrevi sobre Byron em http://carlos-costa.com/lord-byron/
De Lord Ruthven a 25 de Junho de 2013 às 21:59
Nao tem nada a ver com isso. lord Byron vinha de uma sociedade tipicamente conservadora (a inglesa), portanto nao teve nada a ver com o conservadirismo mas sim com a parolice que ja havia na altura na sociedade portuguesa, que vinha em decadencia desde o séc. 17. Tem que ler os livros de Eça de Queiros para perceber isso.
De Serico115 a 19 de Março de 2015 às 15:51
E os ingleses? Vis, rancorosos, orgulhosos. É muito triste ver a subserviência que uma certa corja de tugas teima em assumir perante quem em Portugal apenas encontrou quem os quisesse bajular e se deixar explorar.
Caminhos de Ferro, Carris, Telefones, Vinhos do Porto, para não falar do mapa-cor-de-rosa (Angola-Moçambique), e quantoas coisas mais?????
De Anónimo a 15 de Julho de 2012 às 14:56
Não é "carracho" mas sim "caralho".
De blogdaruanove a 19 de Julho de 2012 às 19:22
Qualquer leitor, adolescente ou adulto, que tenha o Português como língua materna sabe que o sinónimo deste disfemismo é esse.
Os linguistas sabem que a versão caracho (com consoante ápico-alveolar e não uvular) é um regionalismo que ainda surge nas beiras e em Trás-os-Montes.
O tradutor deste texto manteve a palavra que surge no texto inglês da edição consultada.
Quererá o anómimo comentador dizer-nos que conhece uma versão do original inglês onde surge essa palavra ou está a limitar-se a apontar aquilo que é óbvio?

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