Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007

Autógrafos - Papiniano Carlos

 

Papiniano Carlos (n. 1918), Terra com Sede (1946; 2.ª edição, 1969).

Capa reproduzindo um detalhe de um óleo de Armando Alves (n. 1935).

 

 

Papiniano Carlos (n. 1918).

 

   Tendo publicado Esboço - Poemas em 1942, a que se seguiu o volume Estrada Nova - Caderno de Poemas (1946), Papiniano Carlos teve o seu nome associado desde início a uma vertente poética e chegou a  ser responsável pela secção de crítica e poesia da revista Vértice.

   Publicou posteriormente vários contos e conjugou a prosa com a poesia no volume As Florestas e os Ventos - Contos e Poemas (1952).

   Foi, contudo, na literatura infantil que atingiu o seu maior êxito, com A Menina Gotinha de Água (1962), um livro que tem tido inúmeras reedições desde então.

   Do conto Aldeia Longínqua, publicado em Terra com Sede, transcrevem-se três parágrafos:

 

   "É no abraço espantoso de montanhas bravias que fica aquele buraco. E no fundo a aldeia. Assim, Bustelo é mesmo uma aldeia do fim do mundo.

   E o que a distancia verdadeiramente no cabo do mundo é o isolamento que a tolhe ali entre montanhas bravias e um céu inexoràvelmente baixo – a que os homens chegam erguendo súplicas de braços e de mãos. Solte um berro qualquer boca e logo tornará devolvido por aquela natureza hostil. O horizonte fecha-se em volta – ali é mesmo o cabo do mundo. E uma vida sempre igual e primitiva, bárbara e vazia, que viera do fundo dos tempos como os fraguedos que coroam as montanhas derredor e a tristeza infinita daquele céu excessivamente baixo. Às vezes bandos de pombos bravos riscam aquele céu - e deixam no ar um mensagem insolúvel. E os olhares parados voltam-se de novo para o chão e o pasmo continua.

   No Inverno, as noites cobrem a aldeia com uma negra manta de farrapos, cheia de rasgões, por onde entram as guiarras inclementes e vêm espreitar as estrelas que guiam o destino das gentes. E todo o povoado tirita, enquanto os lobos, ao longe, nas cumieiras, uivam dolorosamente chamando-se uns aos outros pelos seus nomes – que é de estarrecer animais e gentes. E as noites de Inverno são em Bustelo extremamente longas, com os balidos gementes do gado medroso, nas cortes, e os amplexos fecundos com que os homens tornam a encher os ventres das mulheres ao fim de cada parto."

 

A Menina Gotinha de Água (1962; 3.ª edição, 1987).

Ilustrações de João Nunes (n. 1951).

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 20:56
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1 comentário:
De Anónimo a 2 de Julho de 2008 às 11:47
"Terra com Sede" que livro magnífico. Uma prosa plena de poesia e emoção, onde a nossa Língua ganha outra dimensão. Embora tardio - os livros têm sempre o seu tempo para aparecer - este livro está a ser uma descoberta e este autor uma enorme revelação. Parabéns por ter aqui também estas referências a este magnífico escritor português. Que saudades da boa literatura portuguesa...

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