Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008

Autógrafos - Hugo Santos

 

Hugo Santos (datas desconhecidas), A Morte do Professor (1998).

 

 

   Hugo Santos (datas desconhecidas).

   Tendo realizado todo o percurso da sua carreira profissional como professor, Hugo dos Santos desde cedo começou a escrever, mantendo esta actividade literária em constante paralelismo com o exercício da docência.

   Publicou os seus primeiros livros, de poesia, Caminho na Sombra e O Menino Parado, em 1957 e desde então tem repartido a sua atenção literária entre o conto, o romance e a poesia, dedicando-se também à tradução. As sua obras mais recentes são A Mulher de Neruda (2006) e Ode a Nossa Senhora do Homem (2007).

   De A Morte do Professor, uma obra que o próprio autor considera divergente das linhas narrativas de textos anteriores, devido à sua trama de inspiração policial, trancreve-se um parágrafo:

 

   "O mesmo disse Olga, a mulher, ante a incisiva mirada de Carranca. Está sentada na cama desse quarto alugado de Lourenço Marques (ele vê-a agora, daqui enquanto dispõe sobre a escrivaninha alguns livros e papéis que, horas antes, tinha arrumado já numa das malas), absorta, tentando perceber ("Já disse tudo de mim, tu sabes") o alcance do desejo assim expresso. pelo companheiro. Explicaria Fontes, o sapateiro do Largo, que é mais ad natureza do bicho humano (homem ou mulher) ocultar-se que mostrar-se.E acrescentaria que, sendo ele em todos os tempos do mundo mais caçado que caçador, lhe cumpre precaver-se, guardar-se, prover-se duma intimidade que é refúgio e autodefesa (não diria exactamente assim, por estas palavras) e usar das artes da omissão e do silenciamento (ou do nem-sim-nem-não-antes-pelo-contrário) que lhe permita destapar o que é passível de ser visto e encobrir o que, mais desnudo, a outros não cabe olhar. Reflexão, aliás, que bem poderia ser feita pelo padre Januário ou pelo sargento Aires que, por ofício de escutadores, ainda que de teor diverso, sabem que ficam sempre as borras no fundo do azeite das confidências e que é nelas que às vezes se esconde a parte da verdade que mais gratificante lhes seria ouvir. Há, no baú das memórias e dos sentires de qualquer vivente, fechada a sete-chaves, a caixinha inviolável, de segredos e mistérios, que só ao portador dela diz respeito. Pede-se autorização à consciência e, excepcionalmente, deixa-se a outrem a possibilidade de espreitar pelo buraco da fechadura. Mas não mais que isso. A caixa dos pirolitos de qualquer fabiano, já o asseverou Fontes a alguns companheiros de ocasião, é como labirinto em covaria de muito láparo. Aguarda-se daqui, mas o que se espera acaba por sair (ou não sair) pelo lado contrário."

 

© Blog da Rua Nove

  

publicado por blogdaruanove às 23:26
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