Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007

Autógrafos - Rita Ferro

 

Rita Ferro (n. 1955), O Vento e a Lua (1992).

 

 

   Tendo iniciado o seu percurso literário com O Nó na Garganta (1990), Rita Ferro lançou pouco depois O Vestido de Lantejoulas (1991). Até ao momento publicou mais de dez títulos, entre ficção, crónicas e obras de cariz memorialista ou biográfico.

   Filha de António Quadros (1923-1993) e neta do casal António Ferro (1895-1956) e Fernanda de Castro (1900-1994), foi co-autora de Retrato de Família: Fernanda de Castro, António Ferro e António Quadros (1999), com Mafalda Ferro (datas desconhecidas).

   De O Vento e a Lua, uma obra que, através do retrato inicial da protagonista, Pompeia, surge como um manifesto anti-conformista (note-se o subtítulo), transcrevem-se alguns parágrafos:

 

   "A seguir ao episódio de Azeitão, Pompeia engravidou mais duas vezes, respectivamente de um cabo-verdiano e de um polícia; o primeiro, que trabalhava na Câmara, por pouco não a colheu com a forquilha com que amanhava as lixeiras.

   Chovia há três dias, e toda a cidade era um pântano.

   Ao dar com ela, levantou-a em braços e meteu-a no carro para a abrigar em sua casa. O bom homem vivia sozinho e durante duas semanas tratou dela como se fosse família.

   Pompeia esteve à beira da morte e debateu-se com ela numa luta corpo a corpo: teve febres altas, transpirações geladas e delírios angustiados, chegando mesmo a vislumbrar um desconhecido afável que parecia esperá-la ao fundo de um túnel. Ressuscitou ao fim de seis dias, depois de uma canja que o gigante africano lhe foi dando às colheres, com franciscana paciência.

   E nem uma vez abusou dela, aquele negro solitário que podia não ter dinheiro, nem mulher, nem filhos, nem mesmo um trabalho limpo, mas que tinha algo muito mais raro de encontrar: grandeza.

   Restabelecida, Pompeia deixou-se ficar por um mês a embelezara a casa que a acolhera para que esta se parecesse mais com a índole do inquilino, sem que nunca por nunca este a tivesse sondado para os fins habituais. Pelo contrário: respeitava-a como se respeita uma irmã e defendia-a como um pastor alemão.

    Na véspera de partir, Pompeia entrou no quarto dele e, sem abrir a luz, disse-lhe:

   – Você não merece estar sozinho.

   E deixou-se propositadamente fecundar para, no fim da gravidez, voltar ali e oferecer-lhe família."

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 17:22
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