Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2008

Aspectos do Vidro em Portugal no Século XX

  

Pequena jarra em vidro azul transparente com o exterior tratado quimicamente (flashed glass, em Inglês) de modo a obter o efeito alaranjado e irisado popularmente conhecido como "casca de cebola". Peça provavelmente produzida na Marinha Grande. Meados do século XX.

 

   A produção de vidro moldado permitiu obter, em meados do século XX, um conjunto enorme e heterogéneo de formatos nas peças de vidro decorativo, particularmente nas jarras, formatos esses que se tornaram na imagem de marca do vidro português durante o período Art Déco da indústria vidreira nacional, o qual se iniciou na década de 20  e se estendeu até à década de 50.

   Obedecendo ao princípio conservador e  revivalista da representação portuguesa na Exposição de Sevilha de 1929 (Portugal optara por uma presença faustosa na exposição de Sevilha, em detrimento de Barcelona), a decoração a esmalte dos copos que Raul Lino (1879-1974) desenhou para esse certame focava os símbolos tradicionais de Portugal, incluindo a Cruz de Cristo. Esses copos de pequenas dimensões, em vidro soprado livremente, apresentam um formato que remete para a herança de épocas anteriores, evocando a famosa medida de um dedal (thimble glasses, em Inglês) de tradição britânica.

   Mas já no fim dessa década, o vidro soprado livremente cedeu perante o uso crescente e generalizado dos moldes, a que se veio juntar uma aplicação mais frequente e consistente de uma emulsão química no exterior das peças, de modo a obter o efeito alaranjado e irisado popularmente conhecido como "casca de cebola". Esta técnica (que originou o vidro conhecido em Inglês como carnival glass), embora já viesse do séc. XIX e tivesse sido anteriormente usada em Portugal, atingiu efectivamente o auge de produção neste período.

 

  

À esquerda, pequena jarra em vidro branco transparente decorada a esmalte, com o carimbo circular, impresso a tinta branca na base,  "Czeskoslovakia". Checoslováquia, segundo quartel do século XX. À direita, pequena jarra em vidro branco transparente com o exterior tratado quimicamente (flashed glass, em Inglês) de modo a obter o efeito alaranjado e irisado popularmente conhecido como "casca de cebola". Esta jarra foi posteriormente submetida a um tratamento a jacto de areia para obter o efeito mate que serve de fundo às flores estilizadas. Finalmente, foi ainda decorada a esmalte. Peça provavelmente produzida na Marinha Grande. Meados do século XX.

 

   Embora a reprodução de vidro em moldes permitisse a existência de peças que se podiam afirmar exclusivamente pelas suas formas e valor escultórico, verificou-se que a produção de peças sem qualquer outra decoração que não fosse a "casca de cebola" foi relativamente limitada.

   Encontram-se, de facto, peças que apresentam apenas esta decoração sobre o vidro branco transparente, ou mesmo sobre vidro colorido transparente, como o azul, procurando conceder ênfase à forma, mas a verdade é que a produção acabou por sucumbir ao eventual conservadorismo do gosto vitoriano pelas florinhas e à tradição da Boémia (nesta altura, já Checoslováquia) de pintura a esmalte.

 

Jarra em vidro branco transparente com o exterior tratado quimicamente (flashed glass, em Inglês) de modo a obter o efeito alaranjado e irisado popularmente conhecido como "casca de cebola". Esta jarra foi posteriormente decorada a esmalte. Peça provavelmente produzida na Marinha Grande. Meados do século XX.

 

 Contudo, a reprodução mais ou menos fidedigna e realista de flores e vegetação veio a coexistir com uma decoração de flores e vegetação mais estilizadas, em que flores e folhas assumem maiores dimensões relativamente à superfície total da peça. Esta representação floral passou assim a acompanhar a tendência Art Déco do formato das peças.

   Esta maior volumetria da decoração vegetal permitiu, assim, produzir peças em que a harmonia e elegância dependiam essencialmente do formato da peça e do complemento, ou do contraste, que o tratamento a jacto de areia, com o seu aspecto mate, ou a gravação à roda, com os seus sulcos, vinham trazer ao vidro. 

 

Jarra em vidro branco transparente com o exterior tratado quimicamente (flashed glass, em Inglês) de modo a obter o efeito alaranjado e irisado popularmente conhecido como "casca de cebola". Esta jarra foi posteriormente submetida a um tratamento a jacto de areia, para obter o efeito mate que serve de fundo às flores estilizadas, e gravada à roda para conseguir os cortes de efeito decorativo sobre esse fundo mate. Peça provavelmente produzida na Marinha Grande. Meados do século XX.

 

© Blog da Rua Nove  

publicado por blogdaruanove às 13:58
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Fevereiro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29

.posts recentes

. Old Chap

. Le Sacré du Printemps

. Word of Mouth

. Still Skating Around...

. Volare...

. Ouranos

. Staccato

. E Va...

. E La Nave Va...

. The End

.arquivos

. Fevereiro 2012

. Fevereiro 2011

. Fevereiro 2010

. Outubro 2009

. Junho 2009

. Fevereiro 2009

. Outubro 2008

. Junho 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

.tags

. todas as tags

.Visitas

blogs SAPO

.subscrever feeds