Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008

Autógrafos - Graça Pina de Morais

 

Graça Pina de Morais (1927-1992), Na Luz do Fim (1961).

Ilustração da capa de R. Pires de Oliveira (datas desconhecidas). 

 

 

Graça Pina de Morais (1927-1992)

 

   Graça Pina de Morais entronca num veio comum a vários autores dos séculos XIX e XX – médica de profissão, dedicou às letras muita da sua vivência. Contudo, ao contrário do que acontece com alguns outros médicos, como Júlio Dinis (pseudónimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, 1839-1871), Miguel Torga (pseudónimo de Adolfo Rocha, 1907-1995) ou Fernando Namora (1919-1989), a sua obra encontra-se hoje em dia praticamente esquecida.

    No entanto, a autora teve uma estreia romancística aclamada pela crítica, com A Origem (1958) e veio a ser galardoada em 1969 com o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências – para a melhor obra de ficção do ano – e o Grande Prémio Nacional de Novelística pelo romance Jerónimo e Eulália (1969).

   Graça Pina de Morais tivera a sua estreia literária absoluta em 1953, com os contos Sala de Aula e Os Semi-Deuses, publicados em Mosaico sob o pseudónimo Bárbara Gomes. Publicou posteriormente uma colectânea de contos, O Pobre de Santiago (1955), O Medo (1964) e alguns outros contos em colectâneas, das quais se deve salientar As Três Virtudes Teologais: Fé, Esperança, Caridade (1966), obra que integrou contos da autora, de  Manuel Mendes (1906-1969) e de Urbano Rodrigues (1888-1971), com ilustrações do pintor Nikias Skapinakis (n. 1931). A sua última obra, publicada postumamente, foi o conto A Mulher do Chapéu de Palha (2000).

   Do conto Os Incomunicáveis, publicado em Na Luz do Fim, transcreve-se um parágrafo:

 

   "Antes de se deitar, parou em frente do espelho do guarda-vestidos e ficou a olhar-se com estranheza. Há alguns meses que se sentia desligado da sua própria imagem como se esta realmente não lhe pertencesse. Essa impressão causava-lhe um sentimento angustioso, tão acabrunhante que pensava no suicídio cada vez com mais frequência. Na sua fisionomia sentia-se, mais do que se via, a proximidade da devastação. A sua cara era talvez a de todos os dias; mas as pálpebras fatigadas caíam sobre o olhar mole e doente dum desconhecido. Os cabelos tornavam-se cada vez mais raros nas fontes e a sua face cavada adquiria um desenho longuilíneo [sic], exangue e triste. Na sua infância havia um rosto que sempre lhe despertara uma inconfessável repugnância. Era uma aversão de ordem estética, tanto mais que estimava sinceramente o seu possuidor. Agora via no espelho o rosto longo, frio e tumular do seu avô. Quantas vezes se retraíra ao ser beijado por ele! Seria que o destino se encarregava de punir o pecado infantil? Aproximou-se do leito e sentou-se pesadamente. Não... Estava demasiado cansado para poder pensar em despir-se. A sua irmã Inês ainda não recolhera ao quarto. Ao entrar, vira a luz do living acesa e esgueirara-se pela escada acima, pensando que a mais familiar das conversas seria exaustiva."

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 23:19
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