Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

Macau, 1936 (XXXII)

 

   Entrara pela primeira vez na loja de Veng Seng Long algumas semanas antes, num fim de tarde de nuvens baixas e chuva inesperada. Lembrara-lhe logo os bazares do souk do Caïro, onde costumava ir sem Boubouka para se poder perder sozinho nas imagens, nos sons e nos aromas. Acima de tudo, gostava de se perder no tempo. Perdendo-se no tempo, perdia-se a si próprio, perdia a solidão.
   Talvez fosse esse o sentimento que então o levara àquela loja. Um desafio ao tempo, mas também um desafio aos seus avatares. Ainda se lembrava das imagens que havia pouco tempo o tinham atormentado durante a noite, no hotel.
   Esta loja era muito diferente da de Tchang. Não que fosse muito mais iluminada, mas alguma da soturnidade misteriosa que envolvia os recantos do pequeno estabelecimento de Tchang desaparecia aqui perante o brilho dos metais e os relevos das estatuetas. Aqui, exaltava-se a beleza dos objectos, disfarçando muitas vezes a sua inutilidade com os detalhes da harmonia e da elegância do corte ou do desenho. Lá, desdenhava-se o supérfluo, fazendo-se o elogio singelo dos simples botões que mantinham a decência, ou antecipadamente sugeriam o seu desaparecimento em momentos mais íntimos.
   O mistério, aqui, perpassava entre o fulgor dos bronzes polidos e o brilho, suave, tangível, do castanho-alaranjado dos cobres, pairando sobre o salão principal. Sob esta claridade misteriosa, ali e além, pequenas estátuas de metal e madeiras aromáticas pontuavam aqueles brilhos, como faróis que mantivessem a noção de terra firme. A casa era célebre pelo seu bronze decorado e pelo acabamento perfeito das peças. Não sendo uma loja de luxo, mantinha uma invejada aura de prestígio. Dizia-se que a própria família do comendador Lu-Lim-Ioc, um dos grandes senhores de Macau e Cantão, falecido havia quase dez anos mas ainda largamente lembrado e venerado, costumava abastecer-se no estabelecimento.
   Depois de algumas deambulações lentas, escolheu um conjunto de travessas cinzeladas com motivos vegetais e inscrições alusivas à sorte e à felicidade. Na hora de pagar recordou a conversa que tivera na visita anterior, quando perguntara se eventualmente também venderiam peças antigas. Dissera-lhe o dono que para antiguidades seria melhor procurar em Hong-Kong. Os ingleses tinham hábitos de colecção mais arreigados que os portugueses e em Hong-Kong havia inclusive uma casa de antiguidades que fornecia os grandes coleccionadores da Europa e da América – a casa Komor & Komor, na Ice House Street.
   Sorrira. A casa Komor & Komor… Provavelmente não teria dinheiro nem para comprar a mais insignificante das peças que ali estaria à venda. Mas agora que a sua viagem às ilhas e a Hong-Kong se tornava imperiosa e cada vez mais inadiável havia recordado o casal japonês do Sibajak. Sempre poderia visitar a Komor & Komor e depois adquirir alguma peça na loja dos seus antigos companheiros de viagem.


Macau, cerca de 1936.

© Blog da Rua Nove
publicado por blogdaruanove às 23:11
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