Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008

Há Dias Assim...

 

   Gosto de trabalhar desafiando o silêncio da noite. Sempre que posso, acordo ao fim da manhã, começando tarde os dias. Hoje não me deitei, acabando por caminhar bem desperto pela Almirante Reis e pela Alameda, manhã cedinho.

   Ouvi a manhã como há muito a não ouvia. Passos de pessoas lestas a caminho do mercado, passos de pessoas apressadas, bocejando, entrando e saindo do metro, passos de pessoas madrugadoras e despreocupadas, assistindo apenas ao despertar, lento e soalheiro, da cidade. Vindas de viés, da Actor Isidoro, chegavam-me entretanto outras sonoridades, há muito esquecidas. Melodias quase repetitivas, modeladas apenas pelo fôlego incerto do tocador. Um amolador... Só podia ser um amolador! Ansioso, espreitei para norte, ao longo da rua, procurando uma geringonça, procurando um velho artesão, procurando alguém que já não podia existir. Mas existia. Lá estava o velho, sentado no passeio, a meio da rua. O movimento das bochechas acompanhando a alegria do olhar, o som derramando-se por entre o labirinto da cidade e a indiferença das pessoas.

   Os vizinhos passavam e acenavam a cabeça, consternados. "Velho tonto! De que lhe serve a melodia sem o carrinho? " Era uma estranha visão, de facto. Passava a gaita sorridente pelos beiços ágeis como se chamasse fregueses. As facas, as tesouras, os guarda-chuvas, os fregueses, tudo, tudo poderia aparecer. Mas a roda de amolador não estava lá, os instrumentos não estavam lá, o carrinho não estava lá. Apenas o homem, a gaita e o sorriso. Um sorriso patriarcal, bíblico, fascinante... "O meu reino não é deste mundo..."

   Encarou-me também durante algum tempo, sempre com um olhar sorridente. Por fim disse-me, sem que eu nada tivesse perguntado, "Fui amolador, mas agora já ninguém precisa de nós...  Estou velho, tenho o direito de fazer aquilo que me apetece, mesmo que me achem louco... Nem que esta seja a última vez..." Retribuí o sorriso, afastando-me lentamente ao som daquela melodia impossível.

   Não consegui esquecer aquelas palavras durante o resto da manhã. À hora de almoço, o calor aconchegante do sol,  o céu azul-anilado, a suavidade do ar, fizeram-me ter saudades da vida, recear que aquele pudesse ser o meu último dia. Esquecendo as horas que já trabalhara, demiti-me de todas as obrigações e meti folga para o dia inteiro. Comi sashimi no Campo Pequeno, corri para o Jardim das Amoreiras, cirandei pelo Príncipe Real, extasiei-me em São Pedro de Alcântara, alongando o olhar pela cidade e pelo rio. Apanhei o barco para a outra margem, passeei pelo Cais do Ginjal, acabei o dia em Almada, bem lá em cima.

   A melodia continuava dentro de mim. Afinal, aquele não tinha sido o último dia da minha vida e eu acabara de descobrir que a primavera podia chegar em Janeiro. Há dias assim...

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 23:56
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1 comentário:
De Fer.Ribeiro a 26 de Janeiro de 2008 às 03:44
Eu diria antes que há noites assim! Como amante da noite, invejo a tua noite.

Só um apontamento. Cá pela terrinha, tem aparecido ultimanente um amolador (à antiga), infelizmente, escapou sempre à fotografia!

Abraço.

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