Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

Macau, 1936 (XXXIII)

 

   Nunca entendera muito bem aqueles súbitos impulsos para deambular pelas ruas e comprar objectos de que não necessitava verdadeiramente. Alguns amigos achavam que era apenas uma maneira de compensar a solidão, o vazio da vida. Não compreendiam que os impulsos passavam também pela sua necessidade de encontrar continuamente coisas novas, de descobrir diferentes mundos. Pequenos mundos que encerravam sempre surpresas e satisfaziam a sua vontade de se sentir incompleto, desejoso de uma busca contínua, interminável.  

     Era já lusco-fusco quando saíra da loja. Lusco-fusco. Quão esquisita lhe pareceu aquela palavra depois de passar meses a ouvir outras línguas. Aquela, como muitas outras palavras. O Português parecia-lhe já uma língua alheia, onde descobria sonoridades inesperadas, tropeçando em palavras que nunca julgara poderem soar de maneira tão estranha.

   Só então se apercebeu que falara muito pouco desde que chegara  a Macau. De Português, apenas o indispensável para manter o protocolo com os serviços. Falava cordialmente, sugerindo uma afabilidade de trato que escondia a sua aversão pela burocracia e pelas reuniões sociais. Nessas ocasiões sorria, também. Sorria mais para que o deixassem sozinho consigo mesmo e com a sua liberdade do que para evitar que pensassem nele como um pária esquisito e intratável. De Cantonês ou Mandarim apenas aquilo que as circunstâncias exigiam, gesticulando mais do que falando. Sorriu para si mesmo, quando aquele pensamento lhe ocorreu... A gesticulação acabava por ser extremamente útil. Era também uma das linguagens favoritas de muitos chineses.

    Nas ruas a agitação aparentava ser maior do que a habitual. Preparava-se a tradicional inumação das efígies de Tsao Wang, o Deus da Cozinha. À meia-noite cumprir-se-ia o ritual. Cheiros espessos, adocicados e quase enjoativos, cercavam todos os ruídos de cada edifício, envolvendo-os, enovelando-os, deixando-os como pegajosas nuvens de algodão em rama. Andar por andar, janela por janela, pessoa por pessoa, palavra por palavra, até que quase nada se conseguisse dizer. Assim o exigia a tradição. Doces bolos de mel. Era o aroma dos doces que se preparavam em honra de Tsao Wang, para que nos céus não falasse demasiado mal da família que o acolhera durante um ano. Dez dias, apenas. Faltava muito pouco para que chegasse o seu primeiro ano novo chinês.

 

  

Macau, cerca de 1936.

 

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 23:56
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