Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007

Impressões do Outro Lado

José Rodrigues Miguéis, Léah e Outras Histórias (1958).

Capa de Bernardo Marques (1898-1962)

 

Em pleno caroço de Manhattan, dá-me a grata impressão de estar do outro lado. (Queremos sempre estar do “outro lado”...)                                    J. R. Miguéis

 

   Nunca tinha ido ao Alto de Santa Catarina. Aliás, ignorava mesmo que tal lugar existisse. Contudo, o espaço ficcional que Saramago concebeu nesse excelente romance que é O Ano da Morte de Ricardo Reis, desenvolveu em mim a necessidade pessoal e profissional de conhecer aquele recanto de Lisboa. O seu fascínio e valor simbólico não só constituem elementos essenciais do texto, como têm vindo a originar um singular roteiro onde a ficção se confunde com a realidade e que, a partir do Cais do Sodré, vem sendo apaixonadamente reconstituído e visitado pelos admiradores da obra.

   Foi assim que, um dia, decidi encaminhar-me até esse miradouro desencantado por Saramago (deveria antes dizer, encantado...), depois de ritualmente ter subido as Escadinhas do Duque. Uma vez mais, queria enganar a saudade com a imagem da Lisboa que se vê desde esse outro miradouro, o de S. Pedro de Alcântara.

   Era ainda primavera, mas o calor fazia-se já sentir como nos sufocantes dias de verão. Sob o desnecessário pretexto de  me refrescar e descansar, fiz aquilo que sempre faço quando por ali me encontro, seja qual for a época do ano, faça o tempo que fizer – demoradas visitas aos alfarrabistas que se estendem desde a D. Pedro V até à Calçada do Combro.

   Naquele dia sentia, também, a premente necessidade de, pelo menos, adquirir uma primeira edição de qualquer um dos livros de José Rodrigues Miguéis, um escritor que redescobri após a minha saída de Portugal. Autor de uma obra cujo valor e significado profundo apenas apreendi plenamente graças à distância e ao sentir de expatriado.

   Não deixo de achar curioso que dois dos maiores vultos da literatura portuguesa do século XX – Jorge de Sena e Miguéis, tenham vivido parte da sua atribulada existência nos Estados Unidos. Comparando-os, embora não menospreze a importante e volumosa obra de Sena (de entre a qual recordo, com afecto e amargura, a narrativa Os Salteadores que Abi Feijó adaptou para o cinema de animação e cuja acção decorre, também, em Chaves), sinto-me mais próximo da obra de Miguéis, que considero mais emocional, enquanto a de Sena me surge, mesmo na poesia, como obra fundamentalmente racional.

   Foi com todo este afecto, pois, que me acerquei do alfarrabista da Calçada do Combro, ali mesmo onde o elevador da Bica chega ao cimo.

  O dia compunha-se: uma primeira edição de Léah e uma segunda de Páscoa Feliz.      

   Satisfeito, saí e encaminhei-me para o tão ansiado Alto de Santa Catarina, quase ao virar de uma esquina, já próxima. Não resisti, porém, a folhear mais uma vez os volumes que tinha acabado de adquirir e parei, mesmo no meio do passeio. Uma velha caneta, de estimação, caíu-me das mãos. E mal tinha tido tempo de me baixar quando, por trás de mim, uma mão mais ágil me estendeu a caneta. Um sorridente rosto feminino estava agora à minha frente e pude ouvir: “Está intacta, não se preocupe. Pena é que utilize uma preciosidade destas no dia-a-dia...” Sorri, também, agradecendo o cuidado, não sem que me divertisse a inversão de papéis num tradicional acto de galanteio.

   Apressei-me, então, até à travessa que segue para o Alto de Santa Catarina e estaquei no seu enfiamento, antecipando, uma vez mais, o resultado do confronto entre a realidade e o espaço ficcionalmente vivido e longamente imaginado.

    “Desculpe”, ouvi, de novo, a mesma voz feminina, “não pude deixar de reparar que leva consigo uma primeira edição de Léah, provavelmente acabada de comprar ali atrás. É bibliófilo, ou gosta muito de Miguéis?” As duas coisas, pensei, mas não tive tempo de responder, pois ela continuou: “Eu gosto muito de Miguéis... considero-o, até, um dos homens da minha vida...” Dirigia-me, ao mesmo tempo, um olhar profundo, frontal e inquiridor. A ambiguidade intencional daquela frase entrecortada não escondia a insinuação. Ela olhava-me ainda, firmemente, apreciando talvez o efeito da ousadia. Eu, que havia instantes me divertira com a galanteria da caneta, sentia-me agora embaraçado, conseguindo apenas balbuciar: “Ah... Pois... Sim, é uma excelente escolha...”, enquanto tentava olhar para o relógio, que nem sequer trazia no pulso. “Está com pressa, não o retenho mais, desculpe”, foi o que ouvi como despedida. “Idiota, idiota, mil vezes idiota”, pensei para comigo. Mas já era tarde.

   Escusado será dizer que naquele dia já não tive disposição para ir ao Alto de Santa Catarina...

    E nunca, até hoje, fui ao Alto de Santa Catarina.

   Agora, sempre que sigo para aqueles lados, vou sobraçando uma edição antiga de um qualquer escritor e passo tempos infindos a subir e a descer a Calçada do Combro...

 

 

© Blog da Rua Nove

tags:
publicado por blogdaruanove às 00:11
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Fevereiro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29

.posts recentes

. Old Chap

. Le Sacré du Printemps

. Word of Mouth

. Still Skating Around...

. Volare...

. Ouranos

. Staccato

. E Va...

. E La Nave Va...

. The End

.arquivos

. Fevereiro 2012

. Fevereiro 2011

. Fevereiro 2010

. Outubro 2009

. Junho 2009

. Fevereiro 2009

. Outubro 2008

. Junho 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

.tags

. todas as tags

.Visitas

blogs SAPO

.subscrever feeds