Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2007

Autógrafos - António Botto

António Botto, Canções (1932).

Capa de Fred Kradolfer (1903-1968)

 

António Botto (1897-1959).

   Poeta marginal e marginalizado, em parte pela frontalidade com que assumiu a sua homossexualidade, Botto viu a primeira edição de Canções ser publicada no início da década de 1920 pela Olisipo, a efémera editora criada por Fernando Pessoa (1888-1935). Pessoa e José Régio (1901-1969), aliás, foram dois admiradores confessos da obra de Botto, tendo elaborado estudos sobre a mesma. Poeta contemporâneo do primeiro Modernismo e do movimento Orpheu, Botto desenvolveu sempre uma modernidade autónoma, criando um espaço literário peculiar que de modo algum assenta exclusivamente no declarado e óbvio conteúdo homoerótico de muitos dos seus poemas. A actualidade e modernidade da sua poesia ainda hoje são características evidentes para o leitor contemporâneo. Tendo-se auto-exilado no Brasil em 1947, aí acabou por falecer, atropelado. As suas obras mais conhecidas serão, eventualmente, As Canções de António Botto (edição completa, 1941), na poesia, e Os Contos de António Botto, para Crianças e Adultos (1942), na prosa.

   Um pequeno excerto de uma canção de António Botto, lido por José Rodrigues Miguéis (1901-1980) e gravado para a Smithsonian Institution, pode ser ouvido em:

 http://www.smithsonianglobalsound.org/trackdetail.aspx?itemid=31889

   Da edição de 1932 do volume Canções transcrevem-se abaixo três poemas, respeitando-se a grafia original.

 

Livro Terceiro, Piquenas Esculturas - Segundo Poema

Erguem-se vozes.

O clamôr, a barafunda

Vae avultando

No silencio da senzála.

E o batuque principia...

Ei-los,

- São quatro tentações de maravilha!

Bronzes

Da mais bela estatuária romana.

E o batúque

Principia

Depois de cobrirem o sexo

Com folhas de bananeira.

O luár cahe, muito quente, gorduroso,

Na areia que escalda...

Ó tropical e excitante bebedeira!

E bailam -

Cantando

Uma lenta melopeia de bruxêdo,

- Só duas notas - diabólica, tristonha.

Um,

Com olhos de prisioneiro amoroso

E dextreza de gentil gladiador,

Não me larga - olha sempre!

E a sua bôca

Entreaberta num sorriso,

Parece um fructo de lúme

Com bagos de prata.

Aos quadris

Atáram guizos,

Ferraduras, e chocalhos,

Moédas, raizes,

Ramarias em flôr,

Manipanços,

E contas de velho marfim doirado.

E o batúque não acaba...

Cáio na areia cansado...

 

Livro Terceiro, Piquenas Esculturas - Décimo Primeiro Poema

Acabemos.

E acabemos para sempre.

Continuar, para quê?

Nem uma palavra amiga,

Nem um sorriso,

Nada

Que dê conforto ou prazer...

Não, acabemos...

Ou acabar..., - ou morrer.

 

Livro Quarto, Olympiadas - Poema Segundo

Eil-a!...

Tu..., avança! - Lá váe ela!

Corre!...

- Atira-te com alma!...

Defende-a... - vamos!, - então?

E a bola, ao entrar nas redes,

Suspendeu a alegria muscular

E a juvenil vibração.

Estoiram as aclamações;

E a luz do sol enfraquece.

Mas, o jogo, novamente principia:

Os "vermelhos"

Vão envolvendo os "leões";

E o ataque

Bem marcado,

Vae revelando a victoria

Que, - desenhada e conduzida

Com rasgos da mais limpida nobreza

Atinge o seu maximo valôr:

- A bóla, rapida, cahe,

Passando

Por entre os braços erguidos

Do garboso jogador.

Palmas, delírio, - grandeza!

Alguem atira uma rosa

Para os "onze" vencedores.

E ao longe o sol agonisa

Numa bohemia de côres.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 13:39
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