Quarta-feira, 21 de Março de 2007

Autógrafos - Manuel Mendes

Manuel Mendes, Terceiro Livro do Bairro (1960).

Capa de João Abel Manta (n. 1928)

 

 

Manuel Mendes (1906-1969).

   Manuel Mendes foi essencialmente crítico de literatura e arte, tendo publicado biografias de vários artistas. A sua produção literária, que engloba contos e romances, está particularmente marcada pela trilogia Bairro, iniciada em 1945 com o livro homónimo e concluída em 1960. Este conjunto de textos, vagueando entre a ficção, a memória e a crónica, aproxima o autor do neo-realismo e sublinha o seu interesse em perscrutar e registar aspectos da vida urbana e dos detalhes da vida de bairro. Curiosamente, através de uma memória da adolescência e juventude ligada aos bairros tradicionais de Lisboa, já que o autor passou a habitar nos bairros novos da zona do Restelo a partir de meados do século. Este seu registo urbano de Lisboa tem um certo paralelismo com a obra do pintor Carlos Botelho (1899-1982), o qual ilustrou a capa do segundo volume da trilogia.

   Entre 1927 e 1940, Manuel Mendes manteve correspondência com o escritor, e antigo presidente da República, Manuel Teixeira Gomes (1860-1941). Tendo renunciado à presidência em Dezembro de 1925, Teixeira Gomes exilou-se voluntariamente nesse mesmo mês, inicialmente em Tunis, na Tunísia, e posteriormente em Bejaïa (Bougie), na Argélia, onde veio a falecer.

   Grande parte do espólio de Manuel Mendes encontra-se depositado nos arquivos da Fundação Mário Soares, em Lisboa (http://www.fundacao-mario-soares.pt/).

   Da crónica "São Miguel de Seide", publicada no volume Terceiro Livro do Bairro, transcrevem-se os dois parágrafos iniciais:

 

   "Volto à casa de Camilo, em São Miguel de Seide. Sempre que passo por estas bandas - vá a Famalicão, ou vá a Guimarães -, não resisto à habitual visita, a esta devota caminhada de romeiro. O lugar atrai-me, exerce sobre mim, irresistivelmente, o mesmo estranho poder de fascinação, e gosto de ficar aqui o meu bocado pasmado, a cismar no drama terrível deste homem e no acto alucinado em que acabou, com o crâneo vasado por uma bala. Em minha imaginação figuro tudo, desde o levantar, até ao cair do pano.

   É uma cova tristonha, entre pinhais, que no Inverno se enche de sombras - nesses Invernos caliginosos do Minho, em que a humidade repassa o granito e regela os corpos transidos. Dir-se-ia que continuamente chove do céu e chove da terra, numa poeira fina e densa de água que tudo envolve e torna os montes e os milheirais verdejantes, cobre de musgo as pedras, empapa a terra dos caminhos. Neste lugar, porém, o que abunda é o verde sombrio dos pinheiros, que quando o vento os agita rumorejam e parece que gemem pela noite fora. Na solidão e no silêncio, este desterro sombrio infunde respeito, inspira não se sabe que instintivo medo."

 

Manuel Mendes, Segundo Livro do Bairro (1958)

Capa de Carlos Botelho (1899-1982)

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 21:53
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