Quarta-feira, 30 de Maio de 2007

Autógrafos - Armando Ferreira

 

Armando Ferreira (1893-1968), Beco do Alegrete (1959)

Capa de Stuart Carvalhais (1887-1961)

 

 

Armando Ferreira (1893-1968)

   Autor de mais de duas dezenas de best-sellers, numa linha que herdou influências dos textos humorísticos sobre o quotidiano lisboeta como os de Gervásio Lobato (1850-1895), de quem evoca o livro mais famoso, Lisboa em Camisa (1890), na sua obra Lisboa Sem Camisa (1934), e André Brun (1881-1926), Armando Ferreira é hoje praticamente um escritor esquecido. Os seus textos leves e o seu humor ligeiro afastam-no, aliás, da obra dos seus contemporâneos Santos Fernando e, particularmente, Mário Henrique Leiria (1923-1980), um escritor de culto até há poucos anos.

   Transcrevem-se, de seguida, alguns parágrafos de Beco do Alegrete:

   "O Generoso vivia com uma sobrinha, a menina Lurdes, "tilógrafa", empregada num grémio, muito moderna, tão moderna exteriormente, que o Graciano, o proprietário do "imóvel", a comparava a uma construção de dez andares, sem redondezas nem curvas, chata à frente e atrás, como uma caixa de fósforos, posta ao alto; ela porém, que era muito dada às "linhas" de hoje, não se ralava nada, e ao Rosalino, que já lhe propusera namoro várias vezes, durante a escolha dos discos para os bailes de domingo, explicara muito fisiològicamente convicta:

   – Está muito mais perto o coração, quando o peito é chato...

   A verdadeira razão de ela não ceder às investigações do esticadinho do Rosalino era outra; a influência do olhar perturbador do Chico, filho da senhora Andreza, galinheira, com lugar no Chão do Loureiro, um tipo muito "giro", artista fotográfico, que todos os dias ia para a Baixa, com a máquina, e já teria tirado mais de 5 mil retratos, se não usasse aquela táctica do faz que tira, mas não tira. A perturbação no coração da Ludrezinha, vinha de uma divergência de pontos de vista dos olhos do Chico; enquanto o direito lhe admirava o rosto, o esquerdo estava à espreita de quem se aproximava; aquela extravagância, impressionava-a eròticamente e por isso o Chico do "olho torto" tinha grande número de foxes açambarcados com a Lurdes, aos Sábados, no baile do quintal da Normanda – com grande arrelia do Rosalino."

    

   

Armando Ferreira, Os Meus Fantoches (1943)

 

© Blog da Rua Nove

  

publicado por blogdaruanove às 11:24
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8 comentários:
De Carlos Bolacha a 14 de Junho de 2007 às 17:45
Boa tarde
Temos procurado vários livros de Armando Ferreira que na realidade é um primor de descrições da sociedade portuguesa, lisboeta, da sua época, mas infelizmente a Guimarães deixou de os publicar
Da Lisboa sem camisa falta-nos o Baile do Bastinhos será que há por aí por algum alfarrabista que conheça
Muito Obrigado
De blogdaruanove a 14 de Junho de 2007 às 21:07
Agradeço a sua questão.
Os exemplares que possuo foram adquiridos há já bastantes anos na Antiquária do Calhariz, nos alfarrabistas das Escadinhas do Duque e na Barateira, em Lisboa. A primeira casa mencionada efectua leilões periodicamente, tendo realizado o último nos finais de Maio.
De Ana Paula Carreira a 17 de Dezembro de 2013 às 13:19
Olá tenho alguns livros deste escritor entre eles o "Baile dos Bastinhos". Foram livros que li em menina e que têm estado guardados em casa de meus pais. Estão muito velhinhos e no caso deste livro a capa está muito estragada.
De blogdaruanove a 22 de Fevereiro de 2014 às 12:37
Boa tarde, Ana Paula Carreira.

Um excerto de O Baile dos Bastinhos, acompanhado da reprodução da capa, foi publicado aqui: http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/28861.html.

Saudações.
De T a 7 de Agosto de 2009 às 11:47
Comprei vários na Feira do Livro no Martinho e alguns na Anchieta. Delicioso escritor e belo post este.
De blogdaruanove a 15 de Agosto de 2009 às 13:44
Grato pela visita e pelo comentário.
De facto, ultimamente têm aparecido com maior frequência nos alfarrabistas algumas obras deste autor.
De T a 15 de Agosto de 2009 às 14:09
Eu venho muitas vezes aqui. Para tirar dúvidas e aprender.

Quanto ao Armando Ferreira: já viram que na revista Ilustração, digitalizada recentemente pela Hemeroteca Municipal e disponibilizada online, tem imensos verbetes sobre as obras dele?
De blogdaruanove a 15 de Agosto de 2009 às 14:41
A Hemeroteca tem estado a fazer um trabalho absolutamente fundamental com essa digitalização.

Eu próprio, embora possua diversos exemplares avulsos e encadernados de inúmeras publicações periódicas, que me permitem cómoda consulta doméstica, não dispenso a consulta semanal dos arquivos que vão sendo integralmente disponibilizados no ciberespaço. Acaba por ser uma consulta muito mais expedita.

Esperemos que a Hemeroteca disponibilize, em breve e integralmente, outras publicações paradigmáticas do melhor design português.

Pena é que a Hemeroteca não tenha recursos para colocar alguns funcionários a criar pequenas entradas com texto e imagem para a Wikipedia... Embora os artigos em Português ultrapassem já os 500.000, temos vindo a perder posições nos últimos meses e, a continuar assim, em breve deixaremos de estar em destaque nos Dez Mais da primeira página...

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