Segunda-feira, 4 de Junho de 2007

Macau, 1936 (IV)

Caïro, a mesquita de Kalann. Aguarela reproduzida num postal italiano de 1917.

 

   Vagem. Há quanto tempo não lhe ocorria aquela palavra... Uma palavra que lhe recordava sempre o verde, as hortas, a sopa de legumes que detestava e o obrigavam a comer quando criança... Os tamarindos que Boubouka trouxera lembravam-lhe vagens. Estas, no entanto, eram umas vagens castanhas, de casca rija mas macia, aveludada.

   Engraçado. Durante imenso tempo, no seu entendimento inexperiente, tâmaras e tamarindos eram o mesmo. Só um dia, no souk, quando lhe mostraram as tâmaras secas, meladas e mirradas (os estrangeiros gostavam delas  inchadas, carnudas, por isso se passavam pelo vapor antes da exportação), lado a lado com a camurça castanha dos tamarindos, é que percebeu. Ao entardecer, em casa, foi a alegria da descoberta de uma nova textura e de um novo sabor. Boubouka abrira os tamarindos e dera-lhos assim, sem mais explicação. Ainda hesitou, procurando os talheres... Depois riu-se, de si próprio e dos seus preconceitos. Usar as mãos, de preferência a direita. A esquerda seria para outras tarefas e por isso menos indicada para comer, por ser mais impura.

   Não sabia que fazer com aqueles longos fios que envolviam a polpa, até que Boubouka os retirara e lhe levara bocadinhos do fruto à boca. Um sabor adocicado mas também ligeiramente ácido... Um sabor a ameixa. Sim, ameixas. Ameixas secas! Mas não cláudias ou caranguejas, antes ameixas vermelhas, ou mesmo abrunhos. Depois, a inesperada impressão dos caroços... Enormes e de formato estranho! Pareciam dentes, dentes de mogno. A polpa quase não os cobria.

   Agora segurava na mão cascas e sementes que já lhe eram familiares. Lembrou-se das crianças que vira mais tarde, na rua, brincando. Das brincadeiras simples das meninas. Num ápice, levantou-se. Lavou e secou as sementes. Fez um colar. Quando Boubouka regressou com o tamr hindi colocou-lhe o colar. Naquele pescoço de bronze o colar parecia uma jóia. Boubouka sorriu. Ele sorriu. Beijaram-se. Ele suspirou. Era feliz. Tinha mais de trinta anos e nunca havia sentido tal felicidade...

 

(http://www.flickr.com/photos/harshadsharma/)

Photo © Harshad Sharma

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 03:42
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