Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2007

Autógrafos - Maria Ondina Braga

 

Maria Ondina Braga, Nocturno em Macau (1991).

 

 

Maria Ondina Braga (1932-2003).

   Com longas estadias no Oriente, Maria Ondina Braga dá seguimento a uma tradição do imaginário asiático na literatura portuguesa do início do século XX, exemplificada por autores como Wenceslau de Moraes (1854-1929), o qual, depois de ter vivido alguns anos em Macau, se radicou inicialmente em Kobe e posteriormente em Tokushima, no Japão, e Camilo Pessanha (1867-1926), que viveu durante muitos anos em Macau.

 

   Habitualmente conotada com espaços de acção orientais, a sua obra começou com um livro de crónicas, Eu Vim Para Ver a Terra (1965), sendo Estátua de Sal (1969) e Nocturno em Macau dois dos seus títulos mais conhecidos. Foi, no entanto, com o livro de contos Amor e Morte (1970) que recebeu o prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa. As suas crónicas sobre Angola em Eu Vim para Ver a Terra são pedaços magníficos de prosa ritmada, leve, deslumbrada e cheia de alegria. Contrastando no mesmo volume, curiosamente, com as imagens sombrias e repassadas de desânimo das primeiras crónicas sobre Macau. Cidade que, paradoxalmente, parece ter causado na autora um impacto inicial pouco entusiasmante. A narrativa desenvolta e cativante de Estátua de Sal retrata-nos de forma sincopadamente fascinante  a experiência da autora em Inglaterra e Macau, entretecida com as suas memórias da infância e adolescência em Braga, sua terra natal.

 

   De Nocturno em Macau, uma obra publicada nos anos  noventa mas que reflecte uma vivência dos anos sessenta (de acordo com a narradora, a acção passa-se no ano do Cavalo, do calendário chinês, ano correspondente a 1966) transcreve-se abaixo um dos parágrafos iniciais:

 

   "Veio Ester a desencantá-la a um canto do claustro mergulhada na releitura da carta. Andava à sua procura, já sei que teve notícias. E, sem mais nem menos, um par de braços a cingi-la, uma cabeça pousando-lhe no ombro. Por instantes supôs, Ester, que a amiga chorava, mas não, antes ria. Se fôssemos amanhã lanchar fora? Que diz? Pois então! Faz anos amanhã? Não, é que ainda não conhecia os restaurantes chineses. Um cochicho a sua voz. Aquele corpo colado ao dela e convulso. Desapertando a blusa, guardava a carta no seio, distraída, metade do seio à mostra. Ao saírem, contudo, para a luz directa do jardim, como se despertasse, Dhora: Por favor não fale nisto a ninguém. Terra de mexericos, Macau, a sua senhoria a toda a hora xe-xe-xe. E uma carta sempre era uma carta, um compromisso. Ester sossegou-a: Sou um túmulo. Mas... e a irmã Trinidad? Ah, essa já falara com ela, já lhe prometera segredo. Enfiava-lhe o braço: Onde vamos? Ao Lago-de-Jade, por exemplo, tem muito bom chá. Combinado o encontro à porta do Correio Geral, a goesa apertou os lábios com as pontas dos dedos, o sobrolho arqueado. Ester a pensar no segredo de polichinelo da da portaria. Como se estivesse a ouvi-la. Ah, pobrecita de la maestra indiana!... Meses a fio à espera da carta, la maestra. Não era bem freira, Trinidad, apenas irmã conversa e por acaso grande conversadeira. Ao receber a carta até a beijara, la maestra! Gabando-se, a porteira, de haver contribuído para o milagre as suas rezas, os seus rogos, o responso que tinha rezado a Santo Expedito."

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 16:15
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