Sexta-feira, 24 de Agosto de 2007

Documentos - Conhecimento de Embarque de 1899

 

   Conhecimento de embarque de mercadorias no vapor Ambaca, ancorado no porto de Moçâmedes, com destino a São Tomé. Documento datado de 6 de Abril de 1899.

   A carga despachada por Viúva Bastos & Filhos para Joaquim Seixas constava de 40 malas com peixe.

 

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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2007

Documentos - Conhecimento de Embarque de 1893

 

  Conhecimento de embarque de mercadorias no vapor Ambaca, ancorado no porto de Novo Redondo, com destino a São Tomé. Documento datado de 11 de Março de 1893.

   A carga despachada por Ferreira Marques & Fonseca para Ricardo Spengler constava de 20 sacos de fubá, com um peso bruto de 1.438 quilos, e 10 sacos de feijão, com um peso bruto de 832 quilos.

 

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Segunda-feira, 13 de Agosto de 2007

Documentos - Conhecimento de Embarque de 1892

 

  Conhecimento de embarque de mercadorias no vapor S. Thomé, ancorado no porto de Novo Redondo, com destino a São Tomé. Documento datado de 16 de Janeiro de 1892.

   A carga despachada por José Alexandre da Costa para Ricardo Spengler constava de 30 sacos com mantimentos.

 

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Sexta-feira, 10 de Agosto de 2007

Documentos - Conhecimento de Embarque de 1888

 

Conhecimento de embarque de mercadorias no vapor Angola, ancorado no porto de Novo Redondo, com destino a São Tomé. Documento datado de 10 de Julho de 1888.

   A carga despachada por Guimarães & Irmão para R. Spengler constava de 20 sacos com feijão; 20 sacos com fubá e 2 pipas com aguardente.

 

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Segunda-feira, 6 de Agosto de 2007

Aspectos do Comércio entre Angola e S. Tomé e Príncipe

Mapa de S. Tomé e Príncipe publicado em 1955.

 

   Os 23 conhecimentos de embarque da Empresa Nacional de Navegação consultados, referentes ao período entre 1885 e 1905, incluem 12 documentos de exportação de Angola para S. Tomé – 1 de Porto Alexandre [Tombua], 6 de Moçâmedes [Namibe], 1 de Benguela e 4 de Novo Redondo [Sumbe].

   As exportações de Angola eram constituídas pelo seguinte – de Porto Alexandre, peixe seco; de Moçâmedes, bois, peixe (sem indicação de qualquer tratamento) e peixe seco; de Benguela, carne, fubá e tabaco; e de Novo Redondo, aguardente, feijão, fubá e mantimentos não especificados.

   As exportações de Porto Alexandre foram efectuadas pela Companhia de Moçâmedes; as de Moçâmedes por Manuel José Alves Bastos, posteriormente (pelo menos a partir de 1897), pela Viúva Bastos & Filhos, e por Torres & Irmão; as de Benguela por Francisco José Freitas; e as de Novo Redondo por Alexandre da Costa, Guimarães & Irmão, e Ferreira Marques e Fonseca.

   Em S. Tomé, os destinatários da mercadoria eram C. Palanque (peixe seco de Moçâmedes), Mateus de Bono Paula, administrador da Roça Monte Café (peixe seco de Porto Alexandre e peixe de Moçâmedes), Ricardo Spengler, e Joaquim Seixas (peixe de Moçâmedes).

   Até 10 de Julho de 1888, o imposto de selo pago na alfândega de S. Tomé, para produtos vindos de Angola, era de 60 reis, estando documentado um aumento para 80 reis a partir de 16 de Janeiro de1892.

 

Ilha do Príncipe - Roça Esperança: A ida para um pic-nic. Postal circulado em Fevereiro de 1922.

 

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Documentos - Conhecimento de Embarque de 1886

 

  Conhecimento de embarque de mercadorias no vapor Cabo Verde, ancorado no porto de Moçâmedes, com destino a São Tomé. Documento datado de 6 de Abril de 1886.

   A carga despachada por Manuel José Alves Bastos para R. Spengler constava de 50 amarrados com cem arrobas de peixe seco.

 

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Sexta-feira, 3 de Agosto de 2007

Navios e Rotas da Empresa Nacional de Navegação, 1885-1905

Detalhe de um mapa de Angola publicado em 1955.

 

   A Empresa Nacional de Navegação, fundada no início da década de 1880 e antecessora da Companhia Nacional de Navegação (extinta pelo decreto-lei 138/85 de 3 de Maio, cujo termo de liquidação, após sucessivas prorrogações, foi fixado em 30 de Abril de 2001, pelo decreto-lei 119/2001 de 17 de Abril), explorou durante o final do século XIX e o princípio do século XX a rota a vapor da África Ocidental (Portuguesa).

   Entre 1885 e 1905, de acordo com os vários conhecimentos de embarque consultados, que obviamente representam apenas uma amostra do movimento portuário na época, a empresa utilizou, pelo menos, os seguintes navios – Ambaca, Angola, Benguela, Cabo Verde, Cazengo, Loanda, Portugal e S. Thomé.

   A rota destes navios a vapor estabelecia ligação entre Angola (partindo do sul, escalava os portos de Porto Alexandre [actual Tombua], Moçâmedes [actual Namibe], Benguela e Novo Redondo [actual Sumbe]), São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Portugal (Lisboa).

   Excepcionalmente, alguns destes navios efectuavam viagens não regulares para outros destinos, havendo notícia da chegada do vapor Loanda a Lourenço Marques, Moçambique, em 10 de Novembro de 1894, e da chegada do Cazengo dois dias depois. Estas viagens serviram para transportar tropas de Angola, que vieram reforçar as unidades moçambicanas durante o conflito que então se desenvolvia com os Vátuas. 

 

Recordação de Benguella - Ponte sobre o rio Catumbella. Postal do início do século XX.

 

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Segunda-feira, 9 de Julho de 2007

Macau, 1936 (IX)

Bilhete postal circulado em 1918, de Singapura para o Brasil.

 

   Três dias depois estava em Singapura. O calor recordou-lhe Angola. Mas aqui a humidade era maior. Deambulou pela cidade, como sempre fazia, de máquina fotográfica a tiracolo. Ia sorrindo. Saudava sempre os novos lugares com um sorriso. Ainda que fosse um sorriso melancólico, como este.

   Aquela cidade tropical parecia o modelo perfeito da organização colonial inglesa. A Companhia Britânica da Índia Oriental tinha desempenhado bem o seu trabalho no século XIX. E o governo da rainha Victoria não aproveitara menos bem o enorme potencial da região quando a coroa assumra a administração do território, décadas mais tarde... Em pouco mais de cem anos Singapura passara a ser uma próspera e exemplar cidade colonial... Continuou a sorrir, desta vez com ironia... Sob a administração da coroa, quem teria passado a lucrar com o tráfico de ópio?

   O artificial aspecto britânico da colónia mal escondia, porém, toda a vivacidade e originalidade das terras asiáticas. Os britânicos administravam e dominavam. À superfície. Bem lá no fundo, nos bairros dos arredores, afastados da hierarquia ocidental, predominavam outras hieraquias e outros costumes.  

   Encontrou um laboratório fotográfico numa rua próxima da Cavanagh Bridge. A troco de umas moedas conseguiu a revelação para o mesmo dia. Aquelas casas estavam habituadas a turistas endinheirados e passageiros apressados. O trabalho de dois ou três dias fazia-se em poucas horas, desde que bem pago. No Oriente, como em todo os lados, o dinheiro abria quase todas as portas.

   Tinha de admitir que era um fotógrafo inveterado. Amador, mas inveterado. Um maníaco das imagens. Por isso queria as películas logo reveladas. Sabia que a humidade não era grande coisa. Nem para europeus, nem para máquinas fotográficas, nem para películas...

   Jantava-se cedo nos trópicos. Pouco depois de o sol se pôr levantou-se da mesa e foi recolher as fotografias. Não conferiu nem abriu o pacote. Levou-o de imediato para o Sibajak e depositou-o na mesinha do camarote.

   Na manhã seguinte, já ao largo, encontrou as fotografias espalhadas pelo camarote. A única fotografia em que ele aparecia, tirada por um prestável e sorridente ciclista, um fotógrafo ocasional convencido através de aturada gesticulação, tinha a sua imagem completamente riscada. A tinta verde. Uma tinta que ele muito bem conhecia.

 

 

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Quarta-feira, 4 de Julho de 2007

Autógrafos - Reis Ventura

 

Reis Ventura (1910-1988), A Grei (1941)

Capa de Rui Vieira da Costa (datas desconhecidas)

 

 

Reis Ventura (1910-1988).

   Reis Ventura esteve involuntariamente envolvido em 1934 numa célebre polémica sobre galardões literários, quando o seu livro A Romaria (que assinou como Vasco Reis) obteve o prémio Antero de Quental do SPN. Inicialmente, a obra de um outro escritor tinha sido preterida e, aparentemente, só a intervenção pessoal do director do SPN, António Ferro (1895-1956), apaziguou o clima de contestação que se gerou – através da sua intervenção, nesse ano foram concedidos, excepcionalmente, dois galardões ex-aequo. O livro preterido tinha sido Mensagem, de Fernando Pessoa (1888-1935).

   Tendo abandonado a vocação sacerdotal na década de 1930, Reis Ventura fixou-se em Luanda, Angola, onde veio a publicar o seu segundo livro, A Grei (cuja edição refundida receberia em 1964 o título Soldado que Vais à Guerra). Embora nas suas obras iniciais tenha evidenciado preferência pela poesia e pela realidade portuguesa da então metrópole, Reis Ventura notabilizou-se pela escrita em prosa que retratou a realidade angolana da época, nomeadamente através da colectânea de narrativas Sangue no Capim (1962 e 1963), da colectânea de contos Cidade e Muceque (1970), e dos romances Quatro Contos por Mês (1955), Fazenda Abandonada (1965), Caminhos (1965) e Engrenagens Malditas (1965), entre outros. Publicou também um romance de ficção científica, Um Homem de Outro Mundo (1968), em que o protagonista, Thull, um ser do planeta Mil, efectua um périplo pela Terra depois de aterrar nos arredores de Luanda.

   Escritor cuja produção foi sempre conotada com a defesa do Estado Novo e do regime colonial, Reis Ventura é actualmente um autor marginalizado e esquecido, tanto em Angola como em Portugal. De A Grei, uma elegia ao povo, como o título deixa transparecer, transcrevem-se as três primeiras estrofes:

 

   "Primeira Parte – Friso de Almas

 

    O Ti-Zé

 

    Os seus olhos são olhos portugueses,

    duma clara viveza e formosura;

    olhar firme e leal, de tam afeito

    a olhar sempre a direito

    a vida

    tantas vezes

    batida

    pelas vagas da amargura...

 

    Olhos de português – olhos de artista,

    de terem sempre à vista

    essa beleza

    da Virgem-Natureza,

    suave, e doce, e meiga como a lua;

    essa carne da terra

    que, no seu ventre, encerra,

    a vida forte e  bela, verdadeira e nua;

    e, em frémitos de amor,

    é bondade que alegra

    a face duma pedra

    e o cálix perfumado duma flor...

 

    – Olhos de português... as mãos bem calejadas,

    feridas ao contacto das enxadas,

    são as mais dignas, preciosas, mãos

    de todos nós, irmãos

    pela alma imortal, dentro do ser

    da nossa humanidade;

    são as mãos do trabalho, as virgens da bondade,

    as mais puras e dignas de viver..."

 

Capa de Neves de Sousa [sic; provavelmente, Albano Neves e Sousa, 1921-1995]

 

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Sexta-feira, 16 de Março de 2007

Macau, 1936 (I)

 

   A escala em Port Saïd trazia-lhe à memória a estadia em Angola. Quatro anos. S. José do Lubango e Luanda. A frescura do planalto e a brisa marítima do litoral. Uma vida calma. Mais dois filhos. E um troféu da carreira de tiro de Luanda. Belo troféu. Um caçador em trajo da Baviera, penacho no chapéu, colocando cartuchos na caçadeira. O seu orgulho. Todos os outros atiradores haviam ficado de olho nele... Devia ter sido isso que lhes distraíra a pontaria.

   Mas o Egipto era bem diferente de Angola! África, sim, mas outra África. Não tivesse ele navegado brevemente ao longo das margens do Nilo,  enquanto o navio escalava as proximidades do Caïro, e diria que o país não era um país. Antes um extenso deserto. Um outro calor. Mais seco, mesmo à beira-mar. 

   As mulheres, no entanto, misteriosas e atraentes. Em todas adivinhava as coxas roliças, as ancas generosas, a estreita cintura de bailarinas. Sob as vestes, todas ensaiavam uma lenta e sedutora dança do ventre. Sob o véu, todas pronunciavam ternas palavras... Palavras cheias de encanto, numa língua desconhecida... Na medina, jovens passeavam recatadas, junto das mães. As vestes deixando uma fragância adocicada, logo absorvida por pequenos botões de resina aromática. Os ramos de noiva expostos nos ourives. Incenso e coral. O coral dos ramos de prata reflectindo-se na cor de alguns brincos. O incenso regressando à rua. As vozes misturando-se com risos de alegria. Todo aquele movimento parecendo uma irresistível dança colectiva, convidando-o a descobrir a cidade. E as promessas da madrugada.

   Antes de a noite acabar, envolto pelos braços e pelas consoantes ciciadas de Boubouka, tinha já tomado uma decisão. As coxas longas e tépidas da dançarina prendiam-no. O serpenteante umbigo  hipnotizava-o. O longo cabelo perfumado cegava-o. Deixaria partir o Sibajak. Seguiria no próximo avião.

 

 

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