Quarta-feira, 14 de Novembro de 2007

Autógrafos - Garibaldino de Andrade

 

Garibaldino de Andrade (1914-1970), Sete Espigas Vazias (c. 1955).

Ilustrações de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957)

 

 

   Garibaldino de Andrade (1914-1970).

   Tendo escrito na década de 1940 os livros de contos Vila Branca (1944) e O Sol e a Nuvem (1949), obras que traduzem a sua vivência do Alentejo e se aproximam do Neo-Realismo, Garibaldino de Andrade deslocou-se na década de 1950 para África.

   Aí, em conjunto com Leonel Cosme (n. 1934), fundou e dirigiu, a partir de Angola, a famosa colecção Imbondeiro, que promoveu durante duas décadas a diversidade da literatura africana de expressão portuguesa.

   Do livro Sete Espigas Vazias, um grande romance sobre o Alentejo, um romance injustamente esquecido de um autor injustamente esquecido, transcrevem-se três parágrafos:

 

   "Desde a guerra de Espanha que Joaquim atravessava a fronteira. Era a hora dos negócios pingues. Nas feiras, os marchantes não tinham mãos a medir. Lavradores de carteira farta compravam gado a olhos fechados. Terras que deviam andar a pão, ficavam para pastos. De noite, horas mortas, os cascos entrapados, os animais transpunham a linha convencional que separa os dois países. Ali, vendiam-se maços de cigarros e pães de trigo duvidoso por um punhado de pesetas. Homens famintos, olhos ardendo em febre, atravessavam o Chança e o Guadiana e metiam-se às estradas, esmolando e roubando. Vilas quietas, adormecidas na planície, foram invadidas por chusmas de engraxadores e vendilhões de tuta e meia. Mulheres e raparigas, algumas quase crianças, entregavam-se a quem lhes enganasse a fome. Contrabandistas, pela calada da noite, pelo pinto do meio-dia, a toda a hora, rindo-se dos guardas-fiscais e iludindo os carabineiros, carreavam víveres, roupas, tralha de toda a espécie. Às vezes soavam tiros e caíam homens mortos. Mas isso não importava. Nos caminhos sinuosos ao longo da raia, agitava-se uma humanidade inquieta, que perdera a fé, a lei e a esperança, que é o rumo do futuro."

 

  

 

   "O velho Nogueira vendera a Filada e Vila Branca estava morrendo. Deitando cálculos à vida, Antoninho da Loja viu as estantes desguarnecidas e o livro das contas cheio de cães de todas as raças... Que ia ser dele, da mulher e do filho? A loja era a sua enxada. Cerradas as portas, de que se iam governar? Matutando nisto, fugira-lhe o sono. Errava pelos cantos, aos suspiros fundos, escondendo dos seus a realidade triste. Uma vez, não pôde mais. Aproximava-se o prazo da reforma de uma letra: quinze dias para desencantar três contos. Onde?, onde? todos os caminhos bloqueados: os que lhe deviam, não pagavam; os que tinham dinheiro, chamavam-lhe seu; e, na gaveta, outrora próspera, apenas o chocalho e um punhado de moedas...

   Desabou sobre o caixote das sonecas, e, numa crise de choro, ali o fora surpreender o filho. Aos brados deste, acudira a mãe. Naquela hora de desânimo, Antoninho da Loja contou-lhes o engano em que viviam. Por três contos, não seriam mais donos de coisa nenhuma: levariam o balcão, as estantes, os míseros trapos que ainda as enfeitavam..."

 

 

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Quarta-feira, 7 de Novembro de 2007

Autógrafos - Margarida Rebelo Pinto

  

 

Margarida Rebelo Pinto (n. 1965), Nazarenas e Matrioskas (2004).

 

 

 

Margarida Rebelo Pinto (n. 1965).

   Tendo iniciado a sua carreira com o romance Sei Lá (1999), Margarida Rebelo Pinto tem pontuado o seu percurso com múltiplos sucessos de vendas, através de uma literatura que se tem apresentado homogénea e coerente. Homogeneidade e coerência que têm suscitado comentários irónicos sobre a originalidade da sua escrita, comentários esses que sublinham ainda a redundância desta escrita e a tentação de um  discurso que tende ao autoplagiarismo.

   A autora, aliás, tem sublinhado em algumas das suas entrevistas a marginalização a que a sua obra tem sido sujeita pelo establishment da crítica literária, mas esse facto não deve fazer-nos esquecer que as suas obras continuam a apresentar uma tiragem média superior à maioria da ficção nacional.

   Aliás, romances como Não Há Coincidências (2000) e I'm in Love with a Pop Star (2003) continuarão certamente a ser leitura predilecta de adolescentes durante algum tempo mais, garantindo à autora o êxito de vendas que a crítica intelectual sempre tem ignorado.

   Do conjunto de pequenos textos reunidos sob o título Nazarenas e Matrioskas, transcrevem-se três parágrafos de "E de Repente":

 

   "Os amigos não se fazem, reconhecem-se, disse o poeta que escreveu e de repente, não mais que de repente... de repente, tudo pode acontecer, basta um instante, as pessoas cruzam-se por acaso para nunca mais se separarem, e é então que percebemos que nada é por acaso, que afinal estar naquele sítio àquela hora era apenas a forma de nos aproximarmos e ficarmos mais ricos, mais cheios, melhores.

   Tu já sabias que ia ser asssim, tens o olhar dos adivinhos e a intuição dos grandes sábios, mas eu não fazia ideia nenhuma e por isso vou saboreando o presente como este presente que a vida me deu, a tua amizade, o teu tempo, a tua atenção, a tua discrição, a tua lealdade, a tua estima e preocupação, o teu bem-querer, o teu conforto, pensando que a vida é grata e atenta e nos vai dando o que precisamos, basta estar atento aos sinais e saber segui-los com cuidado e humildade, aceitando os desvios e enfrentando os inevitáveis precipícios, descansando sempre que é preciso, sem nunca parar, sem nunca desistir, sem entregar as armas nem o coração.

   Daqui a dez ou vinte ou trinta anos, terás perdido o cheiro a leite da pele, eu terei rugas e uma cabeça coroada de cabelos brancos, mas quero que saibas que, quando não tiveres força para estar com mais ninguém, podes sempre vir ter comigo e descansar nas minhas histórias que te fazem rir e me fazem pensar que ainda tenho alguma graça, mesmo que o tempo me esbata os sonhos e me roube os ideais. E quero que venhas sempre, com esse olhar de gato e esse andar de menino, ensinar-me coisas novas e descobrir comigo livros, discos, filmes, frases, e viagens ao sul, saboreando o presente que a vida nos deu um ao outro quando nos cruzámos e decidimos que seria bom morar no coração um do outro!"

 

 

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Quarta-feira, 31 de Outubro de 2007

Autógrafos - João Aguiar

 

João Aguiar (n. 1943), O Canto dos Fantasmas (1990).

 

 

João Aguiar (n. 1943).

   Tendo atingido enorme sucesso com o seu livro de estreia, A Voz dos Deuses (1984), que já ultrapassou há muito a décima edição, João Aguiar tem vindo a desenvolver uma ficção de fundo histórico como sua imagem de marca.

   O romance que se seguiu a O Canto dos Fantasmas, Os Comedores de Pérolas (1992), revelou-se também um grande sucesso, que consolidou ainda mais a posição de destaque de João Aguiar na literatura portuguesa contemporânea.

   De O Canto dos Fantasmas transcrevem-se três parágrafos:

 

 

   "A sala estava fresca, as portadas das janelas, ainda encostadas, faziam uma penumbra agradável. André considerou longamente as portadas. Recordava o trabalho que tivera para convencer o mestre de obras de que não queria "estores modenos" e ainda menos caixilhos de alumínio ("mais limpos, mais baratos", insistira o homem; e, com o seu sentido estético ofendido: "mais bonitos, também; é outra coisa!").

   Aprendera muito durante as obras de restauro da casa – obras grandes e caras, porque a Tia Henriqueta deixara a degradação avançar à medida que perdia o seu impulso vital e, com ele, o interesse por tudo o que a rodeava. Só ao lançar mãos ao restauro André compreendera quanto os tempos haviam mudado, não desde a juventude da tia, mas desde a sua própria juventude. A invasão do alumínio e do mármore polido (para as soleiras e parapeitos; um horror) fora mais devastadora do que ele julgara. Era complicado e caro arranjar madeira, pedra – e gente para trabalhar a madeira e a pedra. Além do incómodo imediato, da inconveniência pessoal, inquietava-o saber que de ano a ano se tornava mais difícil encontrar um carpinteiro disposto e sabedor para fazer, por exemplo, portadas de madeira. Ou qualquer outra peça. A era do alumínio, o império da maison. Estremecia ao imaginar como seria Portugal dentro de, vamos lá, vinte anos. Ou menos.

   No quarto ao lado, tiniu a campainha do telefone. André não se mexeu, apesar do forte pressentimento; podia ser engano, podia ser a filha da Dona Angelina a braços com um problema doméstico. Deixou a campainha tocar até que Dona Angelina veio da cozinha e atendeu – berrando, porque, embora familiarizada com as maravilhas do progresso, algo ainda lhe dizia, no íntimo, que quando se fala para longe é preciso gritar."

 

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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007

Autógrafos - Júlio de Sousa

 

Júlio de Sousa (1906-1966), Beijei a Lua (1965). Capa e ilustrações do autor.

 

 

Júlio de Sousa (1906-1966). 

   Mais conhecido como pintor, escultor, ilustrador e caricaturista (veja-se a sua notável caricatura de Josephine Baker em http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/216312.html), Júlio de Sousa havia publicado anteriormente três outros livros – dois de poesia, Jogo Perdido (1956) e História da Menina Triste (1963) e um de canções, Saudade, Vai-te Embora ! (1963).

   A quase ignorada dedicação de Júlio de Sousa ao fado acabou por ser condensada na famosa canção homónima do título deste último livro – Saudade, Vai-te Embora!, um fado que, hoje em dia,  poucos associam a este artista que vai caindo no esquecimento.

   De Beijei a Lua transcrevem-se dois poemas, sem título:

 

"O poema que ainda não escrevi

é este.

É este o que mais sinto,

porque não falo de amor, de nuvens,

e de fado, e não minto...

Que todos me detestem

porque não visto

as roupas que outros vestem.

Não obrigo ninguém

a ser como eu,

mas não me obriguem

a descer do meu céu,

ou do inferno em que vivo...

Para ser cúmplice

de indesejáveis.

ninguém passou por mim

como os cães pelas árvores

dos "passeios públicos".

Que todos me detestem

porque não visto

as roupas que eles vestem,

e pareço, o que Sou.

Deus sabe

que não uso "gravata"

porque nenhuma me encantou..."

 

Capa do catálogo da exposição póstuma realizada em 1967, no SNI.

 

"Eu queria ser Domingo,

Amor,

Preguiça,

Flor

num livro de missa

e rosário

nas mãos duma criança,

bandeira verde

na janela da esperança

e campanário...

Eu ueria ser Domingo,

passear ao sol

contigo,

e beijar a Cidade

rua a rua,

e ser alegre como a Liberdade

que me prende a ti...

Eu queria ser Domingo

à sexta-feira,

a esta sexta-feira

em que nasci..."

 

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Quarta-feira, 17 de Outubro de 2007

Autógrafos - Baptista-Bastos

 

Baptista-Bastos (n. 1934 ), Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura (1.ª edição, 1981; 3.ª edição, 1987).

 

 

Baptista-Bastos (n. 1934).

   Jornalista, ensaísta e romancista, Baptista-Bastos começou por publicar dois ensaios sobre cinema – O Cinema na Polémica do Tempo (1959) e O Filme e o Realismo (1962). Entre outros textos, compilou posteriormente um festejado conjunto de crónicas sobre Lisboa, intitulado Cidade Diária (1972), mas havia sido já com O Secreto Adeus (1963) que o autor atingira notoriedade e consagração.

   Aclamado publicamente por vários escritores, entre os quais  José Gomes Ferreira (1900-1985) e José Rodrigues Miguéis (1901-1980), o livro foi ligeiramente modificado nas sucessivas edições, sendo a 5.ª edição (1985) aquela que passou a apresentar a versão integral e definitiva.

   O livro mais recente do autor é No Interior da Tua Ausência (2002).

   De Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura, transcreve-se um parágrafo:

 

   "A cantoria sem nexo dos bêbados em grupo perdeu-se na distância. Já não estou ali embora saiba que as minhas raízes mergulham em coisa nenhuma, porque tudo o que caracteriza a condição humana é precário ou provisório. Vejo vivendas que descem a vertente da colina e se aglomeram quase junto ao rio; o largo da Boa Hora, onde nas tardes de domingo operários vestindo fatos de ganga conversavam serenos e graves; as iscas nas tabernas, fritas em banha escura e viscosa, o suor dos cozinheiros que escorria dos seus rostos corados e frequentemente tombava nas frigideiras, misturando-se com o molho odoroso. Vejo faces novas, jovens, que atraem a curiosidade das mulheres velhas, sentadas nos poiais, e as observam com olhares revertidos: animais espontâneos movendo-se com graça e subtileza. Vejo aqueles dias em que todos esperávamos uma tempestade, o Tejo estava espesso, os bojos dos barcos erguidos, observávamos as rémoras alapadas nos cascos, o céu de nuvens, baixo e imundo; isso foi nos anos em que bebíamos o vento, e o vento era fresco e suave. Ouço-o e volto-me para o escutar melhor, dali; mas não é dali que ele sopra, já não sei. Sei, isso sim, que vou descer a encosta amena, um turbilhão de gaivotas erguer-se-á para o ar num alarido alucinado, escorrego em calhaus azuis e em manchas de óleo, gomos de alcatrão colam-se-me às solas dos sapatos, leivas minúsculas no baldio, que criaturas pobres e engenhosas lavram, a fim de não desperdiçarem nenhum pedaço de terra."

 

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Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

Autógrafos - José Riço Direitinho

 

José Riço Direitinho (n. 1965), A Casa do Fim (1992).

 

   

 

   José Riço Direitinho (n. 1965).

   Tendo publicado o seu primeiro livro em 1992 (A Casa do Fim; existe uma edição do conto homónimo realizada pela A.E.F.C. da Universidade do Porto, em 1988), Riço Direitinho revelou-se de imediato um escritor com uma visão renovadora, imbuindo, embora, muitos do seus contos de um ambiente rural que já há algum tempo não surgia na corrente principal da literatura portuguesa do século XX .

   Recebendo logo de início críticas muito positivas sobre a sua escrita, entre as quais a de Agustina Bessa-Luís (n. 1922), publicou posteriormente Breviário das Más Inclinações (1994), O Relógio do Cárcere (1997) e Histórias com Cidades (2001). Contribuiu ainda para várias antologias ao longo da década de 1990.

   Com obras traduzidas em várias línguas, viveu durante algum tempo em Berlim e Nova Iorque, disfrutando de bolsas literárias. Dessas estadias resultou a publicação do seu livro mais recente, Histórias com Cidades.

   Do conto O Amieiro (in A Casa do Fim), transcrevem-se os três primeiros parágrafos:

 

   "Jurava que um anjo se tinha metido de permeio, partindo um a um todos os ramos da árvore a que ele ia tentando atar a corda. Era inevitável estar agora vivo, três dias depois de ter adormecido sob o amieiro e sonhado com a sua morte atroz.

   Desde essa manhã não mais conseguira tornar a fechar os olhos, com medo que a morte lhe visitasse outra vez os sonhos; mantinha-se alerta para afastar com um pau todos os pássaros que se aproximassem. Ao caminhar pelas ruas ia tão atordoado pelo sono de três dias, que não encontrava discernimento para escolher  o lado da rua em que a sombra o protegeria daquele calor de Agosto, quase siderúrgico. Encostava-se aos portados ou abancava nos poiais, para recuperar o fôlego e logo depois continuar a andar, com o mesmo olhar atento dos animais perseguidos.

   "Durante os três dias não saiu da vila, para não ter que atravessar as terras de milho ou chegar-se perto dos canteiros de arroz", contou-me o pai no dia do funeral, "é onde os cabrões dos pássaros passam todo o tempo, neste mês de merda!"

 

 

O Relógio do Cárcere (1997).

 

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Quarta-feira, 3 de Outubro de 2007

Autógrafos - Joaquim Paço d'Arcos

 

Joaquim Paço d'Arcos (1908-1979), Poèmes Imparfaits (1955, tradução de Armand Guibert; edição original em Português, Poemas Imperfeitos, 1952)

 

 

Joaquim Paço d'Arcos (1908-1979)

   Paço d'Arcos efectuou um trajecto literário que marcou a literatura portuguesa durante mais de quarenta anos, embora hoje a sua obra esteja praticamente esquecida e a sua literatura seja depreciativamente classificada como datada.

   Na ficção portuguesa do século XX, o carácter eclético e internacional dos seus espaços de acção talvez só tenha paralelo na obra de José Rodrigues Miguéis (1901-1980). Situando as suas personagens e a acção em locais do Oriente, da América do Sul e do Norte, da África e da Europa, Paço d'Arcos reflectiu nos seus contos, novelas e romances a vivência que experimentou pessoalmente em todas essas regiões. 

   Galardoado com o Prémio Ricardo Malheiros, da Academia, pelo seu romance Ana Paula (1938), Paço d'Arcos criou forte polémica ao recusar o prémio, contestando as reservas com que este lhe tinha sido atribuído. O romance, complementado com as obras Ansiedade (1940) e O Caminho da Culpa (1944), iniciaria uma trilogia sobre a vida lisboeta da primeira metade do século XX, em que várias personagens transitam de um romance para outro.

   O início da década de 1940 coincidiu com o período da grave doença que viria a vitimar a sua primeira esposa e parte da sua demanda terapêutica nos E. U. A. é relatada no livro de contos Neve sobre o Mar (1942).

   Tendo as suas obras traduzidas em diversas línguas, Paço d'Arcos viu dois poemas desta colectânea, Fear e Febrile City, incluídos em The Penguin Book of Modern Verse Translation (1966).

   De Poèmes Imparfaits, transcrevem- se dois poemas:

 

"LA CITÉ AUX TOURS PLUS HAUTES QUE LE CIEL

 

Le brouillard cachait les tours de ciment.

La ville dressée vers le ciel se confondait avec le ciel.

Mais elle n'avait point d'horizons.

Elle avait des annonces lumineuses mais point de lumière.

Elle avait bien des êtres mais elle n'avait pas d'âme.

 

La cité aux mille voix sans écho,

La cité sans voix, aux mille voix criardes,

La ville sans lumière, aux lumières criardes,

La ville aux aiguilles plus hautes que le ciel,

Au ciel plus bas que les hommes,

La ville s'est perdue pour toi

Parce que tu t'es perdue en elle.

 

La brume a entraîné les tours

Les bruits multiples de la ville ont étouffé les voix,

Les lumières ont noyé la lumière.

La multitude a renversé l'être humain,

A piétiné son âme.

Toi seule es restée debout dans ta peur et ta grâce:

 

Ta voix, ta lumière, ton âme.

 

New York, avril 52"

 

A Floresta de Cimento, Claridades e Sombras dos Estados Unidos (1.ª edição, 1953; 2.ª edição, 1956)

 

"PERDU DANS LA CITÉ AUX VIES INFINITES

 

Dans la rue étroite aux grands buildings,

Mes pas se sont perdus.

Dans le building aux si hauts étages,

Mes pas se sont perdus.

 

Je me suis perdu sur les asphaltes interminables,

Dans les rues toujours égales et parallèles.

Je me suis perdu dans les sentiers des parcs dénudés

Et sur les grands ponts d'acier qui traversent le fleuve.

Je me suis perdu en moi-même.

 

Je me suis cherché dans les colonnes minuscules des pages d'annonces

Des grands journaux.

Je me suis cherché dans les voix criardes de la radio,

Dans les galeries de musée,

Au drug-store,

Dans les caves du sub-way,

Dans les ruelles de China-town,

Dans les lumières de Broadway

Et sur l'étendue des grandes routes

Qui passent par-dessus la ville

Et par dessus les fleuves.

 

Je me suis cherché en vain.

 

Perdu dans la cité aux vies infinies,

Quand je désespérais de me retrouver

Je t'ai rencontrée,

Dans ce petit restaurant de Battery,

A l'extrémité de l' île.

 

La radio nous apportait une chanson étrange,

Tes yeux avaient une lumière si étrange,

Et dans le fond le plus profond de tes yeux

Je me suis retrouvé.

 

New-York, 41"

 

Autógrafo e dedicatória de Maria da Graça Paço d'Arcos, segunda esposa do autor, num exemplar da segunda edição de A Floresta de Cimento. Paço d'Arcos inscreveu a seguinte dedicatória no frontispício deste livro – "Maria da Graça: nós, neste livro, somos tu e eu. Foi nosso o caminho, como foi nossa a vida. Assim continue suave, a teu lado, o caminho da vida."

 

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Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

Autógrafos - João Palma Ferreira

 

João Palma-Ferreira (1931-1989), Os Crânioclastas (1972). Ilustração para a capa e desenhos de Catherine Labey (n. 1945).

 

 

   João Palma-Ferreira (1931-1989).

   Palma-Ferreira foi essencialmente ensaísta e investigador, tendo publicado obras como Do Pícaro na Literatura Portuguesa (1981) e prefaciado e anotado antologias como Naufrágios, Viagens, Fantasias e Batalhas (1980).

   Editorialmente, a sua produção ficcional iniciou-se com um conjunto de novelas publicadas em 1968 – Três Semanas em Maio. Posteriormente publicou várias outras obras, como o romance A Viagem (1971), legando-nos também um Diário, em dois volumes (1972 e 1977).

   Palma-Ferreira exerceu ainda os cargos de conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Madrid, depois de ter leccionado na Universidade de Salamanca, director da Biblioteca Nacional e presidente da RTP.

    De Os Crânioclastas, "prosa elíptica inteiramente escrita na diáspora castelhana" como refere o autor, transcrevem-se alguns parágrafos:

 

   "Foi quando nós entrámos. A luz abafada do fogo que morria pintava sombras na sala de frio.

   Mas volto-me e vejo-o ainda sentado nos degraus do Monumento. O padre, de bronze, faz um aceno qualquer que ninguém decifrará, o gesto da estatuária inútil, a mesma que anda por aí há séculos abandonada em livros de antiquário. Vejo-o confusamente, como na sala do casino, como na praia nos vemos ou sob a amplidão fora do vidro fosco que sufoca ou abafa o nosso hálito. Curva-se interiormente no meu cérebro acompanhando a exacta concavidade dos ossos. Tento, em desespero, neste dormir opaco, tocá-lo, leve que seja, para lhe dizer como as palavras são necessárias entre os homens. Mas ele apenas se inclina com maior gravidade, recosta-se no cadeirão para escutar as frases estrangeiras que cavam túneis de horror pelo silêncio. Sinto, nos olhos, a prisão do tecto e do zimbório que cresce, de vidro, na torre em funil por onde as frases se escoam; logo, reflectidas, regressam à obsessão de que partiram.

   Fujo. Voo pelo descampado até à praia. Sigo uma onda de viés, nos folhos da espuma, mar que varre toda a costa mais rápido do que eu. Em liberdade, grito-lhe palavras de júbilo (não há crima ainda) e projecto o som por entre nuvens, ecos em rosas de jardim ou murmúrios em memórias do quintal; falo da humidade nos recantos da casa e do silêncio cortado pelo pingar da água. No pano verde de todos os prados lanço, em glória, o prazer das apostas, reis e valetes, ases e espadas, copas e oiros. Desfecho, na serra, pela boca fria da espingarda, as dez balas de chumbo que retinem perdidas pelas fragas.

   É quando chego, fatigado, a altas horas da noite. É a mesma porta, sempre. Os batentes castanhos. É quando rodo a chave. É quando entro. Aqui. É quando subo a rampa ao encontro da mulher de fogo e ácido que me espera, no chão varrido de neve, atrás do laranjal."

 

 

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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2007

Autógrafos - João de Barros

 

 

João de Barros (1881-1960), Humilde Plenitude (1951).

Na capa, vinheta de Raúl Lino (1879-1974) e marca de posse de Pinto Quartin (1887-1970).

 

 

João de Barros (1881-1960).

   Recordado ainda hoje pelas suas adaptações em prosa da Odisseia, de Homero (c. 850 a. C.), e de Os Lusíadas ("contados às crianças e lembrados ao povo"...), de Luís de Camões (c. 1524-1580), entre muitas outras, João de Barros fundou em 1915  a revista mensal luso-brasileira Atlântida, que co-dirigiu até 1921 com João do Rio (pseudónimo, 1881-1921). Raúl Lino criou em 1916 o famoso ex-libris oval para a capa desta revista, uma ave sobrevoando uma onda, que João de Barros viria a adoptar.

 

Detalhe da capa da revista Atlântida, número 8, de Junho de 1916, a

qual apresentou pela primeira vez o ex-libris desenhado por Raúl Lino.

 

   A sua obra poética e a sua obra literária, em geral, foram claramente ultrapassadas quer pela acção do pedagogo, através das várias adaptações literárias, quer pela do publicista. Apenas  a sua efémera acção governativa será hoje mais obscura – exerceu o cargo de ministro no final da I República (1910-1926).

   De Humilde Plenitude, transcrevem-se as primeiras cinco estrofes do longo poema Os Canais, uma das mais interessantes obras do autor:

  

OS CANAIS (Bruges)

 

a António Carneiro

 

A sonolência

A sonolência doentia dos canais,

Tem-me perdidas horas junto ao cais,

Horas perdidas,sem amor, sem violência,

Horas de cinza, agonizantes, sempre iguais,

Horas de chumbo – como a água dos canais...

 

Água parada,

Água viscosa, água soturna – água quase sem cor,

Onde a névoa adormece, onde o silêncio nada...

– Aves que passem, numa lenta revoada,

Barcos levados no balanço da remada,

São como sombras de cansaço e de torpor...

 

Miram-se as casas velhas e severas

Na água adormecida...

Olho as janelas – e não há sinal de vida...

Nunca floriram primaveras ou quimeras

Naquela paz adormecida...

 

Nunca ninguém amou ali: o nevoeiro,

O nevoeiro que arrefece,

Ia subindo, tão subtil e tão ligeiro,

Que entorpecia os lábios frios numa prece,

Que estrangulava os beiços moços, e vencia

o amor e a alegria.

 

Como ele paira sobre a água: a pouco e pouco

Enubla os longes da paisagem...

Imobiliza todo o gesto de coragem...

Se eu gritar alto – há de o meu grito sair rouco,

Tudo é vaga ilusão, tudo é miragem...

 

(...)

 

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Quarta-feira, 29 de Agosto de 2007

Autógrafos - Modesto Navarro

 

Modesto Navarro (n. 1942), Seis Mulheres na Madrugada (1995).

 

 

Modesto Navarro (n. 1942)

   Tendo iniciado a sua carreira literária nos anos 60, Modesto Navarro publicou já dezenas de títulos no campo da ficção e vários estudos e ensaios de carácter sociológico. Oriundo de Trás-os-Montes, a sua obra reflecte frequentemente uma vivência transmontana nos enredos e nos espaços de acção.

   Utilizou ainda o pseudónimo Artur Cortez para assinar os policiais Morte no Tejo (1982), A Morte dos Anjos (1983) e A Morte do Artista (1984).

   De Seis Mulheres na Madrugada transcrevem-se dois parágrafos:

 

   "Por que contava tudo isso a outro homem, um desconhecido, deitada na cama? A parede desaparecera e agora via o mar, o violento mar da costa, eles sentados no paredão, os barcos a passar em fila, petroleiros e de pesca, ali mesmo à mão; bastava estenderem o braço e furavam as vagas enormes.

   Nessa altura, ele pôs-lhe a mão no corpo; não se lembra se foi na perna, carne bastante dura, incólume depois de tantas violências. Sentiu isso, o homem, e resolveu beijá-la depois de lhe dizer o que ia fazer, e foi assim, sentindo os lábios, uma parte do seu corpo, do corpo de ambos, a mais desejada. Entre a cor dos olhos dela e a água quase não havia diferença. O mar estava particularmente triste, na tarde sobressaltada, e os círculos à volta dos olhos ficavam enquadrados na massa escura, misturando-se o verde do centro com os ténues revérberos de sol na água."

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 11:43
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