Quarta-feira, 28 de Março de 2007

Autógrafos - António Ferro

António Ferro (1895-1956), A Idade do Jazz-Band (1924).

Capa de Bernardo Marques (1898-1962)

 

 

 

António Ferro (1895-1956)

   Destacando-se inicialmente como escritor e jornalista, António Ferro veio a adquirir posição preponderante na política cultural do Estado Novo quando, em 1933, Oliveira Salazar (1889-1970) criou o Secretariado da Propaganda Nacional e nomeou Ferro para o dirigir. Apesar da importância e da influência do cargo, Salazar apenas atribuiu a este posto a categoria de chefe de repartição. Somente na década seguinte, já com o organismo rebaptizado como Serviço Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (a partir de 1944), viria o cargo de Ferro a ostentar a categoria de director-geral. A acção subjacente à expressão "Política do Espírito", slogan a que Ferro pretendeu dar um sentido prático, foi uma das imagens de marca deste organismo.   

   A acção de Ferro à frente do SPN/SNI estendeu-se às belas-artes, ao teatro, ao cinema, ao folclore e ao turismo, datando da década de 1940 a fundação das pousadas de Portugal. Embora a acção de Ferro tenha sido relativamente reduzida na Exposição Colonial do Porto de 1934, toda a encenação da Exposição do Mundo Português de 1940 reflecte a magnitude da acção propagandista e ideológica dos serviços que dirigia. Aliás, encenações similares haviam já sido ensaiadas nas representações de Portugal na exposição de Paris de 1937 e nas exposições de S. Francisco e, particularmente, Nova Iorque no ano de 1939.

   Ligado ao primeiro modernismo português desde a sua participação como editor na revista Orpheu (1915), Ferro manteve ao longo da sua vida e da sua carreira oficial relações privilegiadas, e de mútuo respeito, com a arte e os artistas. A sua acção à frente do SPN deixou, pois, uma marca indelével na cultura popular e intelectual das décadas de 1930 e 1940. A sua nomeação para embaixador de Portugal em Berna, na Suíça, no final da década de 1940, e posteriormente em Roma, na Itália, é entendida por muitos como o exílio dourado de uma personalidade que já não servia os fins do regime.

   Da obra A Idade do Jazz-Band, uma conferência que apresentou em várias cidades do Brasil em 1922 e 1923, transcreve-se um pequeno excerto que ilustra as preocupações modernistas, e futuristas, do autor: 

 

   "O jazz-band, natural da América, emigrou para a Europa, como já tinha emigrado o Tango. O que a Europa tem, actualmente, de mais europeu, é, portanto americano.

   E, entretanto, é curioso: A América, que vibra toda no ritmo do jazz-band, quasi não dá pelo jazz-band. A Europa envelheceu, teve um abaixamento de voz com as emoções da guerra. A Europa lembrava um soprano lírico em decadência.

   Foi a América que lhe valeu, que lhe injectou, nas veias murchas, a vida artificial do jazz-band. Por sua vez a Europa, ensinou à América as virtudes desse remédio, deu-lhe relevo, aperfeiçoou-o. A América, minhas Senhoras e meus Senhores, é o momento da Europa. Simplesmente, o que na América é vulgar, natural, quotidiano, na Europa é artificial, escandaloso, apoteótico... Na América, o jazz-band tem um ritmo de marcha. Na Europa é um hino. A Europa desmoralizou, admiravelmente, o jazz-band: pôs febre onde havia saúde. O jazz-band enlouqueceu na Europa, como - valha a verdade! - o Tango tomou juízo... A Europa, assustada pela siréne lúgubre, no pavor dos aviões inimigos, viveu na treva, durante a guerra. O jazz-band foi a siréne da paz. A América, minhas Senhoras e meus Senhores, é, neste momento, a luz eléctrica do Mundo!

   O jazz-band é o arco voltaico do Universo. As ruas tumultuosas, estrídulas, dissonantes, são os jazz-bands das cidades. As cidades são os jazz-bands das nações. As nações são os jazz-bands do mundo. O mundo é o jazz-band do Criador. O jazz-band é o dogma da nossa Hora. Nós vivemos em jazz-band. Sofremos em jazz-band. Amamos em jazz-band.

   Nas almas, nos corpos, nos livros, nas estátuas, nas casas, nas telas - há negros em batuque, suados e furiosos, negros em vermelho, negros em labareda. O momento é um negro. O jazz-band é o xadrez da Hora. Jazz-branco; band-negro. Corpos alvos - bailando; corpos de ébano - tocando. O jazz-band é o ex-libris do Século. Que as vossas almas bailem, ao ritmo deste jazz-band de brancos mascarrados pelo carvão das minhas palavras... [discurso interrompido por uma banda de jazz]"

 

Ferro e o actor Douglas Fairbanks (1883-1939)

Hollywood, estúdios da United Artists, 1927.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 11:52
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