Segunda-feira, 12 de Novembro de 2007

Macau, 1936 (XXVI)

 

   Estranho. Era tudo muito estranho, embora tivesse acontecido naturalmente. O inacabado passeio pela marginal. O  inevitável regresso à Rua de S. Domingos. A entrada naquela loja. Nada fazia sentido, mas tudo parecia encaixar-se. Veio-lhe à memória a imagem da caixa de segredo japonesa. Era isso mesmo. Tudo parecia encaixar-se, agora que o velho comerciante ("Tchang, chamo-me Tchang...") decidira convidá-lo a ver o que estava para além da porta do meio.

   Entrou. O barulho que imaginara quase não existia. A luz, escapando-se envergonhadamente de três ou quatro pequenas lâmpadas, iluminava uma dúzia de corpos dobrados sobre velhas máquinas de costura. Um espaço minúsculo. Mulheres idosas, de costas curvas, levantaram estranhamente as cabeças, criando imagens retorcidas, cheias de rugas e traços curvilíneos que pareciam gritar silenciosamente.

   As sombras davam uma ar deprimente a todo aquele cenário. Já nada fazia sentido, afinal. Tudo parecia um intrigante labirinto. Um labirinto disfarçado por um eclipse, súbito,  que ameaçava eternizar-se. Da penumbra surgiu então um quarto crescente. Um quarto crescente negro. Negro de azeviche. E desse negro absoluto, desse negro indizível, surgiu uma radiante lua cheia. Uma lua cheia alva de neve e sorridente. "Liang, a minha sobrinha-neta", disse Tchang. "O meu outro sobrinho anda pela Europa, com um jornalista belga e um velho marinheiro. Uns aventureiros que o desencaminharam..."

   Liang sorria, olhando para o chão. O  recorte do seu cabelo descaído, negro de azeviche, lançava-se para a frente, desenhando duas curvas que quase se tocavam. Estranho coração, aquele... "Podes ir, Liang...", disse Tchang. "Subimos, senhor?"

   Encontrou-se de novo na loja, sem se ter apercebido dos degraus ou da subida. "Quererá escolher alguns botões-de-punho para o fato?" Botões-de-punho? Claro... Aquela loja também teria botões-de-punho... De gavetas que pareciam não existir surgiram vários tabuleiros aveludados. A prata e o ouro refulgiam entre outros metais. Escolheu um par de botões japoneses que lhe recordavam o ouro embutido de Toledo. Uma vista do Fuji. Uma paisagem solitária. Sem pessoas. 

   Teve novamente consciência da sua solidão. Uma solidão agora banhada de luar. Recordou-se uma vez mais de Reis, em quem quase não pensara desde Port Saïd, e de alguns dos seus versos. "Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio. / Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos / Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas." Não trocara uma única palavra com Liang, nem sequer lhe sorrira. Imaginou Boubouka com o sorriso tímido de Liang, e imaginou-se a enlaçar as mãos com uma Lídia que parecia Boubouka. Imaginação. Tudo era imaginação. "Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos". Mas seria que apesar das coincidências nada fazia sentido, afinal?

   Olhou mais uma vez  para os botões-de-punho. Vendo o Fuji, pensou no casal japonês que conhecera no Sibajak, e no que estes haviam dito quando lhe ofereceram a caixa de segredo – "É preciso tempo e paciência para se aprender a abrir uma destas caixas..."


Macau, cerca de 1936.

 

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Sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

Macau, 1936 (XXV)

 

Ilustração de Câmara Leme (1930-1983).

 

   A porta fechada representava um enigma que o fascinava. Deixou que o velho comerciante desempenhasse as suas funções de alfaiate e lhe tirasse as medidas, mesmo antes de ver se havia alguma fazenda que lhe agradasse. Ansiava por uma oportunidade de o questionar sobre o que estaria para além daquela porta e esperava que  ele lhe dissesse "São as nossas oficinas de alfaiataria", convidando-o a entrar e a transpôr aquele obstáculo que ele acreditava ser o acesso secreto a um mundo mágico.

   Esperava descobrir um mundo industrial, secreto, para além daquela porta, onde muitas centenas de trabalhadores manufacturariam, como que mecanicamente, sigilosamente, peças de vestuário para todo o mundo. Operários costurando e cosendo em silêncio, sustendo quaisquer diálogos, ouvindo o repetitivo e ensurdecedor barulho das máquinas, que abafaria todas as conversas. Conversas retidas nas gargantas. Conversas que nunca poderiam ser iniciadas, apesar de cuidadosamente imaginadas e completamente elaboradas.

   Descobriu um tecido riscado, de finas e discretas listas verticais, que quebrava a monotonia de todos aqueles tecidos monocromáticos. Sendo embora escuro, ganhava alguma leveza com as riscas claras. Um fato que serviria para dias de chuva. Dias que, ali, poderiam vir a ser muito mais escuros que aquela fazenda. Mas seria aquela uma escuridão passageira, caso fosse semelhante às tempestades tropicais que recordava de África.

   Depois de lhe indicar o tecido, aguardou pacientemente que o alfaiate tirasse de novo as medidas, muito devagar, e as anotasse meticulosamente, como que desenhando cada caracter. Não sabendo porquê, esperava ver sair do pequeno lápis letras e números familiares, ocidentais. Talvez porque o giz deslizara também familiarmente pelo tecido, como se conhecesse já cada curva do seu corpo e cada rebordo destinado a uma baínha ou a um recorte. No entanto, não ficou surpreendido quando viu todos aqueles caracteres estranhos gerados pelo lápis. De todos eles, só reconheceu o caracter referente a "homem". Um triângulo quase isósceles, de linhas curvas, desiguais no seu comprimento, viradas para o interior, côncavas. Um triângulo aberto, sem base. 

   Olhou para o azul e vermelho do lápis e voltou a recordar a porta. Procurou-a, novamente. A porta. Havia também um caracter que ele reconhecia, naquela porta. Um caracter inscrito a vermelho. Um rectângulo cortado a meio por um longo segmento de recta. Meio. Era isso mesmo. Meio. "Meio, porquê? Meio, de quê?" Esqueceu toda a discrição, deixando que a curiosidade tomasse conta de si. Instintivamente, deu voz às suas dúvidas. "Para onde dará aquela porta? Para que servirá?". Reparou que o velho comerciante recebera aquelas perguntas com surpresa, pensando que lhe eram dirigidas. Receou tê-lo ofendido, mas não se conseguira conter. Falara em voz alta como se estivesse sozinho.

    Notou um sorriso que lhe pareceu um sorriso de quem aguardava há muito aquela pergunta. Ouviu então dizer, suavemente, num tom de voz que parecia um convite – "Aquela porta dá para as nossas oficinas de alfaiataria..."

 

Macau, cerca de 1936.

 

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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Macau, 1936 (XXIV)

 

   Entrou, não sabendo por que entrava. O seu olhar continuava fascinado pelos múltiplos brilhos daqueles inúmeros botões. Botões de madrepérola, de osso, de marfim. Botões de metal, de vidro, de madeira. Botões de plástico e baquelite. Botões de massa e de pedra. Jade e malaquite. Ónix e olho de tigre. Azeviche. Um mundo caótico e heterogéneo, alternando brilhos ofuscantes com pequenas sombras, que sugeriam discretos segredos.

   Uns dedos de unhas largas e achatadas, de mãos lembrando a lisura do pergaminho, afastaram da sua vista, lentamente, o brilho hipnótico daquelas minúsculas preciosidades. Parecendo despertar de longo encantamento, tentou compreender o que fazia ali, naquela pequena loja, que cada vez parecia mais sombria. Olhou à sua volta. Fazendas e fitilhos. Tudo harmoniosamente empilhado em prateleiras, exibindo cores gritantes, decorações exuberantes. Tecidos alegremente femininos e orientais na sua opulência colorida. Aproximou-se de algumas peças, deslizando lentamente os dedos por aquelas cores inacreditáveis. Sentiu a espessura lenta dos veludos, a velocidade deslizante das sedas.   O que é que fazia ali, afinal?

   "Talvez lhe interesse um fato por medida?", ouviu, numa voz que, tendo pronunciado apenas um único "r", lhe pareceu trocar os "rr" pelos "ll"... O velho comerciante falava Português. Com um sotaque muito próprio, é claro. "Desculpe todos estes botões espalhados. São peças preciosas, sabe... O luxo das cabaias também depende destes detalhes..." (Ahá! Desta vez iria jurar que o "r" tinha saído enrolado, mesmo, tornando "pleciosas" as peças...) Esquecendo a fantasia daquele preconceito disparatado, pensou no ridículo da oferta. "Um fato por medida, com aqueles padrões?"

   O comerciante pareceu adivinhar a sua perplexidade. "Se tiver a bondade de descer por além, poderá ver tecidos mais discretos, para homem." Desceram para a cave. Escura. Parecia estar ali o depósito de toda a sóbria discrição dos fatos ocidentais. Um armazém da moda masculina europeia e do seu conservadorismo, em tons de castanho, cinzento e preto. Mas ao fundo, como que brilhando entre toda aquela monotonia, surgia o resplendor claro do linho e do algodão.

   Havia também uma pequena porta. Fechada. Para além dela, o que parecia ser o ruído da cidade. E o ruído da multidão nas ruas da cidade. E o ruído de milhares de motores e  milhares de máquinas. O ruído das fábricas que pareciam não existir naquela cidade. 

 

Macau, cerca de 1936.

 

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Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007

Macau, 1936 (XXIII)

 

   Caminhando em direcção à Praia Grande, viu dezenas de juncos e algumas sampanas com as velas desfraldadas. As velas, imóveis, de um branco sujo de pano crú, pareciam desenhar um extenso biombo. Um biombo constituído por inúmeras asas de morcegos albinos. Asas de uma palidez esquálida, de uma lividez repelente. Asas estranhamente silenciosas, anquilosadas, paralisadas. À esquerda, depois da colina, estendia-se o vasto aterro do Porto Exterior. A azáfama nas embarcações contrastava com a acalmia das velas e das águas. Águas escuras, esverdeadas, quase sem ondulação. Lembrou-se das águas cor de azeite de António Nobre. Lembrou-se do inevitável lugar-comum da literatura. Sozinho na multidão. E aquela que lhe parecera sempre uma ridícula imagem, exagerada pelos escritores, fez sentido. Só. Sentia-se só entre toda aquela gente, entre todo aquele movimento, entre todo aquele barulho.

   Virou subitamente costas ao mar, àquele triste mar cor de azeite. Não estava no Canal da Mancha, nem queria que o deixassem chorar. Dirigiu-se para os bairros que já conhecia. Preferia sentir-se só em lugares que lhe eram familiares. Sem qualquer pensamento irónico, deu por si novamente na Rua de S. Domingos. Descobriu letreiros que não tinha visto, frases que nunca pensara existirem. Coisas estranhas. Caracteres de dimensões avassaladoras inscritos em pequeníssimas tabuletas. Combinações linguísticas que pareciam saídas de manifestos e poemas modernistas. Caracteres orientais que se entreteciam com letras ocidentais, criando frases surpreendentes, realidades inesperadas. "Há mobílias de madeira sun-chi e quan-tin para vender e alugar", lia-se num pilar da carpintaria Iu-Seng e C.ª. Mergulhou de repente nos versos de Sá-Carneiro. Manucure. Sentia-se confuso com as reverberações, com os sons, com o ressoar das memórias. Vívidas imagens da rua cruzavam-se com nítidas palavras do passado, intersectando-se, rejeitando-se, amalgamando-se. Criando uma claridade ofuscante e ensurdecedora.

  "Xue! Xue!", ouviu. Era uma voz nervosa, masculina mas alquebrada, que vinha da cave de uma loja. A princípio pensou que se dirigia a si, que o estavam a enxotar por se ter encostado momentaneamente  a um pilar da loja. Depois percebeu que a voz, embora viesse de dentro, também se dirigia para dentro, para o fundo da loja. Espreitou. Parecia-se com as retrosarias ocidentais. Tecidos, acessórios de costura, linhas, botões. Ao cimo de umas escadas, na indefinida fronteira entre a claridade da rua e a penumbra da loja, um velho segurava nas mãos mostruários de fitas para debruar, enquanto chamava alguém. Ao lado, sobre uma mesinha, dezenas e dezenas de botões avulso, espalhados numa harmonia caótica, brilhavam como pequenas preciosidades.

   Por momentos, o olhar do comerciante cruzou-se com o seu. Um sorriso sucedeu ao chamamento. Foi convidado a entrar. Deixando-se envolver pela penumbra, entrou.

 

Macau, cerca de 1936.

 

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Sexta-feira, 19 de Outubro de 2007

Macau, 1936 (XXII)

Mapa de Macau publicado em 1955.

 

   "Ni hao!" Gostava de ouvir esta saudação pela manhã, mesmo sabendo que não era a mais respeitosa de todas e que muitas vezes estariam a pensar nele como intruso, um san-kuai, e o amaldiçoariam mentalmente como a um diabo estrangeiro.

   Era estranho, mas à medida que ia ouvindo novas palavras e começando a perceber parte do seu significado, sentia que ia deixando fugir um pouco do cativante mistério da China. Gostava de ouvir palavras desconhecidas e de se deixar levar para um mundo de fantasia pela diferente sonoridade das vozes. Um mundo de sons com significados aleatórios, ou sem outro significado que a sua própria sonoridade, uma sonoridade mágica e desconhecida. Um mundo que agora ia desaparecendo. As palavras começavam a ter significados concretos e deixavam de ser apenas sons encantatórios, passando a traduzir muitas vezes a desilusão e a monotonia de um quotidiano repetitivo.

   Acontecera-lhe, entretanto, ser surpreendido pela subtileza das sonoridades. Descobrira que os macaístas preferiam o termo jirinchá a riquexó. Menos anglicizante, diziam. Consideração que não deixava de ser curiosa numa terra onde os comerciantes aceitavam de bom grado a moeda corrente de Hong-Kong, preferindo-a muitas vezes às patacas do Ultramarino... Também não deixara de ser curioso o encontro que acabara de ter com algumas autoridades do território e alguns desses macaístas patriotas, ciosos da nacionalidade portuguesa. Achou particularmente intrigante a insistência com que lhe sugeriram uma visita às ilhas vizinhas. Lapa, D. João e Montanha. Compreendeu que teria de aceitar a sugestão. No Oriente, as insistências veementes podiam corresponder a uma ordem irrecusável, e as aquiescências sorridentes a uma negativa silenciosa, continuamente adiada. Mesmo quando o discurso vinha de portugueses. Portugueses residentes em Macau. Macaístas.

   Procurou Tai-Vong-Cam num mapa. A Ilha da Montanha. Das três, aquela que ficava mais a sul. Ocorreu-lhe a conversa que tivera momentos antes sobre Cantão. Sobre as redondezas, sobre a província, sobre aquela região da China. Lembrou-se de uma expressão. Heang-Chan. As Montanhas Perfumadas. E percebeu o seu enlevo. Ao contrário do que pensara até ali, conseguira ainda encontrar palavras misteriosas. Palavras que, mesmo depois de traduzidas, continuavam a encerrar magia. Palavras que, depois de traduzidas, acentuavam ainda mais essa magia.

   A norte, junto de Cantão, Pac-San, a Montanha Branca. A sul, Tai-Vong-Cam, a Ilha da Montanha. Heang-Chan. Estava nas terras de Heang-Chan... Estava na terra das Montanhas Perfumadas. 

 

Rede de pesca conhecida como sarambau. Macau, cerca de 1936.

 

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Quarta-feira, 17 de Outubro de 2007

Eternidade Silenciosa

© Shannon Hourigan (http://www.flickr.com/photos/sugarcut/1565481416/

 

   Esquece as palavras que não disseste e os sentimentos que não sentiste. Esquece os vôos que não voaste e as paisagens que não sobrevoaste. Agora, nada mais importa, a não ser essa eternidade. Intocável e inquestionável. Uma eternidade sagrada, conservada em tons de sépia e sigilosamente guardada. Guardada numa memória quase etérea, mas indelével.

   É essa, no entanto,  uma eternidade frágil. Que se pode rasgar facilmente. Que se pode apagar rapidamente. Que se pode esquecer de repente. Uma eternidade que pode ser esquecida por toda a gente. 

   Um esquecimento, esse, que te deixa contente.  A eternidade será assim toda tua. O silêncio será todo teu. E o segredo, esse, será também teu. Só teu.

 

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Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

Macau, 1936 (XXI)

Vinheta de Raymond Hull (1934).

 

   Macau não lhe pareceu uma cidade muito grande. "Mas a dimensão das cidades, à noite, é sempre outra. Como se existissem sempre duas cidades em cada cidade. E habitantes diferentes para cada uma delas...", pensou. Durante a tarde, entontecido pelos sons e pelos aromas estranhos, quase não reparara na cidade, na sua arquitectura. Agora, à noite, as ruas pareciam-lhe tão  labirínticas e enoveladas como aquele lacassá que lhe haviam servido ao jantar.

   Não estando habituado a cidades com lojas abertas até tão tarde, pareceram-lhe os sons e rumores daquelas horas ruídos estranhos. Mas não ruídos exóticos. Apenas ruídos inesperados. Ruídos que contrastavam com a memória que tinha dos silêncios nocturnos nas cidades europeias. Ruídos que contrastavam com o ligeiro aspecto ocidental de alguns prédios.

   Naquelas ruas por onde andara predominavam prédios de três e quatro pisos. Apresentando quase todos lojas no rés-do-chão, tinham estreitas varandas correndo ao longo da fachada, nos andares superiores. Ténues luzes escorriam dos seus interiores, contrastando com o vozear que se escapava de algumas casas e nada tinha de ténue. Macau não lhe pareceu uma cidade de murmúrios. "Talvez as pessoas murmurem noutras ocasiões, contrariando o ruído das manhãs ou a agitação das tardes..." Sempre pensara na discrição como característica dos povos chineses. Descobria agora que essa discrição, afinal, poderia transformar-se em vigorosa gesticulação e alta vozearia. "Questão de classes sociais, talvez..." Enquanto assim pensava, notou as gelosias de algumas casas sem varanda. A temperatura da noite e as cores daquelas ripas de madeira lembraram-lhe algumas casas do Funchal. Eram contudo diferentes, estas gelosias. A abertura na fachada era a de uma alta porta de varanda europeia, encimada por uma armação de madeira com duas ou três vidraças. As gelosias surgiam então, subdivididas horizontalmente em duas secções que chegavam até ao nível do soalho. As duas secções do meio estavam abertas de par em par na maioria dos prédios. Destas casas não pareciam sair tantas vozes...

   Parou junto de quatro colunas rematadas com capitéis. As colunas centrais prolongavam-se em dois pisos superiores. Três pesadas portas de madeira, almofadadas, surgiam quase embutidas numa fachada de nítida influência europeia. Encontrava-se numa esquina. Descobriu que estava na rua de S. Domingos.

   Não conseguiu conter uma gargalhada, lentamente diluída num sorriso irónico. Macau... E logo tinha que ir dar a um templo cristão! Virou costas e mandou parar um riquexó que passava. "Central!", disse.

   O sorriso ainda lhe marcava a face quando o riquexó arrancou, trazendo-lhe a brisa de Macau...

 

Macau, cerca de 1936.

 

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Sexta-feira, 12 de Outubro de 2007

Desolação

 

    Vão-se fechando as janelas da tua memória. Cansado do azul, do sol, do céu e das manhãs quentes de neblina, queres esquecer. Esquecer o cheiro da relva cortada e da terra molhada pelas chuvas de verão. Esquecer os gatos sonolentos e preguiçosos que se aninham em si próprios, esquecidos do latido acorrentado dos cães próximos e dos vôos intrincados dos moscardos. Esquecer o zumbido dos carros, dos camiões, dos autocarros, rodando na estrada, sem parar, todas as manhãs, todas as tardes, todas a noites. Esquecer as estradas que vão para todo o lado e vêm de todo o lado, sem sair do lugar. Esquecer a velocidade dos comboios expresso, passando sem parar, e a lentidão dos regionais, sempre a parar, sempre com gente a sair ou a entrar. Esquecer a multidão. Esquecer as pessoas, que sabem para onde vão e de onde vêm, mas não sabem por que ali estão nem sequer quem são. Esquecer a solidão. Esquecer a maldição do lugar-comum, que não nos deixa ir a lugar nenhum. Esquecer a tua presença e a tua própria existência. Em vão.

   Desiste. Não te incomodes. Deixa-te estar. Hás-de descobrir um dia que nem sequer vale a pena acordar. E aí, sim, hás-de querer recordar.

 

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Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

Sob a Magnólia

 

   Sob a magnólia solitária, cerras as pálpebras, recordando o futuro. Sorris ao imaginar um sorriso cálido e leve, flutuando ao entardecer.

   Reclinas-te langorosamente na brancura calcária do banco, acariciando a ideia de essa brancura vir a ser, na sua rugosidade suave e morna, a tua perfeita e definitiva pedra tumular.

   Alheio ao ruído cavernoso do metro que se afasta, descerras lentamente as pálpebras vendo as magnólias no azul outonal do céu. Mas as vibrações subterrâneas sobem até ti, entranhando-se como verme em movimento. E tu, em uníssono, vibras também. Vibras até esquecer o futuro.

   Projectado para um outro universo, o teu olhar sobe para a árvore, misturando-se com o inebriante aroma colorido das magnólias. Rodopia  e vibra, esse olhar, ascendendo e levando-te para o sol.

   Dá-se uma explosão espantosa de intensa alegria e as tuas cinzas descem então, carinhosamente, sobre a brancura rugosa do calcário, envolvendo-o e deixando ali, serenamente, o teu epitáfio.

 

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Sexta-feira, 5 de Outubro de 2007

Macau, 1936 (XX)

 

   Antes de desembarcar em Macau estava apreensivo. Solicitara que ninguém o fosse esperar. Não tinha a certeza que respeitariam o seu desejo. Sempre gostara de discrição e temia que algum funcionário da administração, mais subserviente e menos discreto, surgisse no porto, cumprindo ordens. Mas não. Tinham respeitado o seu pedido. Os colegas mais  cínicos diriam antes que tinham obedecido às suas imposições...

   Agradava-lhe aquele liberdade de poder ser marginal à hierarquia, de poder dispensar o fato e a gravata, de poder dispensar  recepções e protocolos.

   Instalou-se no hotel, afinal familiarmente referido como Central e não como Grand, ao contrário do que pensara. Era esperado como qualquer outro hóspede que tivesse efectuado uma simples reserva telegráfica. Agradou-lhe aquela simpatia anónima e profissional. Aceitara assim não resmungar, desta vez, contra o contínuo e superficial sorriso oriental.

   Decidiu sair ao fim da tarde. O fascínio dos aromas tinha-o deixado entusiasmado com a descoberta de novas sensações. Uma refeição nas ruas parecia-lhe mais atraente do que um jantar convencional e formal no hotel. Deambulou durante algum tempo por aquele mundo surpreendente. Nunca imaginara Macau assim. Mas não se surpreendeu com aquela conclusão. Isso já ele esperava, de antemão. Os novos lugares nunca correspondem àquilo que, à distância,  fazemos deles.

   Encontrou um restaurante numa rua estreita e mal iluminada. Na viela, uma multidão barulhenta movia-se entre vapores e aromas  indescritíveis. Divertiu-se a observar inúmeros caracteres que descreviam inúmeros pratos. Fascinava-o também o facto de ignorar o significado daquele universo de pinceladas, vigorosas e ordenadas, anunciando mundos e sabores desconhecidos. Decidiu-se. Escolheu algo que desconhecia, claro. Divertiu-se quando acabou por perceber que tinha pedido lacassá. Divertiu-se ainda mais quando a massa chegou e tentou comer com fai-chis.

   Era obra! Um ocidental tentando comer com pauzinhos pela primeira vez, sem instruções nem qualquer outra ajuda. E não podia ter escolhido nada mais a não ser massa... Divertidíssimo!

   Nem queria acreditar. Sentia-se ridículo mas estava a divertir-se com a sua própria figura...

 

A colina da Penha. Macau, cerca de 1936.

 

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