Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008

Aspectos do Vidro em Portugal no Século XX

Prato de sobremesa em vidro prensado, fabricado na Marinha Grande. Início do século XX. Peça ilustrada no catálogo da Companhia da Nacional e Nova Fábrica de Vidros da Marinha Grande.

 

   Duas outras técnicas de produção utilizadas com frequência na Marinha Grande, e nas fábricas portuguesas em geral, durante o século XX, foram o vidro prensado e o vidro moldado. 

   O vidro prensado já tinha sido produzido em grande quantidade no século XIX, não apenas em peças de vidro branco transparente mas também em vidro de várias outras cores, essencialmente em pratos e taças. A decoração encontrava-se num molde em relevo que produzia o fundo do prato ou taça e recebia a pasta de vidro. De seguida, uma prensa espalhava a pasta por esse molde inferior e criava uma superfície lisa no topo ou no interior dessa mesma peça. As peças produzidas através desta técnica apresentam muitas vezes pequenos vestígios de excesso de pasta no rebordo.

 

Jarra em vidro branco e ametista, transparente, e vidro branco leitoso, opaco, produzida provavelmente na Marinha Grande. Meados do século XX. Esta peça foi executada num molde de quatro secções, onde recebeu a sua decoração floral em relevo, e posteriormente trabalhada livremente, a quente, no seu rebordo.

 

   O vidro moldado, ao dispensar uma segunda peça para prensar a pasta, visto que esta se expande através do ar quente no interior do molde, veio permitir a produção de inúmeros formatos inovadores.

   Tais formatos, impossíveis de reproduzir industrialmente com total exactidão em sopro e manuseamento livre, quando conjugados com um tratamento químico do vidro que lhe dava um tom alaranjado e irisado, popularmente conhecido como "casca de cebola", vieram constituir uma das imagens de marca do vidro português entre as décadas de 1920 e 1950, décadas que corresponderam ao período Art Déco na indústria vidreira portuguesa.

 

  

Pequena cesta em vidro verde transparente e vidro branco leitoso, opaco, com a marca "CIP" (Companhia Industrial Portuguesa), fabricada na Marinha Grande. Meados do século XX. Esta peça apresenta a parte inferior e a asa em vidro prensado, que depois foi manipulado a quente para receber as curvaturas e unir as duas partes.

 

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Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

Aspectos do Vidro em Portugal no Século XX

  

 

Jarra em vidro branco leitoso, opaco, decorada a esmalte e ouro e assinada "CIP" (Companhia Industrial Portuguesa) e "G.", produzida na Marinha Grande. Década de 1940.

  

   A produção vidreira da Marinha Grande durante o período Art Déco apresentou um grande ecletismo no tipo de vidro produzido e nas técnicas decorativas, mantendo a criação de peças que apelavam ao gosto mais conservador.

   Assim, a produção do vidro branco, leitoso e opaco, evocando a porcelana, permitia apresentar um corpo que acentuava a riqueza do trabalho a ouro e propiciava a execução de desenhos inspirados na decoração de séculos anteriores.

   O vidro opalino, branco e translúcido, característico de alguma produção da primeira metade do século XIX, não foi, contudo, uma das opções das fábricas da Marinha Grande durante o século XX, provavelmente devido às características morosas e onerosas da produção dessa pasta de vidro.

 

 

Pequena jarra em vidro branco leitoso, opaco, decorada a esmalte, possivelmente produzida na Marinha Grande. Década de 1940.

 

   A apresentação de formatos que evocavam as tradicionais formas das peças em majólica e porcelana, como as jarras cilíndricas designadas por "canudos", serviu também para suavizar uma eventual modernidade da decoração, satisfazendo deste modo o potencial conservadorismo do mercado.

   A inexistência de decoração a ouro, porém, tornava a produção das peças menos morosa e onerosa, apelando assim uma classe média que estaria mais aberta a uma inovação decorativa aliada a um custo menos elevado da peça.

 

 

Copo em vidro branco leitoso, cristalino e opalino, decorado a esmalte e ouro, de provável produção francesa. Primeira metade do século XIX. O vidro opalino, um vidro branco leitoso e translúcido, produzido no início do século XIX através da inclusão de cálcio (habitualmente obtido a partir de ossos calcinados), apresenta cintilações de fogo quando mantido contra a luz. Posteriormente, em França, ainda no século XIX, o vidro opalino foi aperfeiçoado com uma nova tonalidade, denominada Gorge de Pigeon, que apresenta fulgurações cor de rosa.

 

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Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2008

Aspectos do Vidro em Portugal no Século XX

 

Taça, pintada a esmalte e assinada "Vera" (provavelmente o nome da decoradora vidreira), produzida na Marinha Grande. Década de 1940.

 

 

 

 

   Seguindo de perto as técnicas de decoração preponderantes nas fábricas da Boémia, que posteriormente à I Grande Guerra passaram a integrar maioritariamente o território correspondente à Checoslováquia, as fábricas portuguesas adoptaram uma enorme variedade de esmaltes coloridos na decoração das suas peças a partir da década de 1940.

   Surgiram então, de acordo com a policromática e exuberante gramática decorativa Art Déco, inúmeras peças apresentando predominantemente o laranja e o amarelo, cores que eram conjugadas com inúmeras e inovadoras tonalidades de verde e azul.

 

 

Copo para criança, pintado a esmalte, produzido na Marinha Grande. Assinado "cip" (Companhia Industrial Portuguesa). Década de 1940.

 

 

 

   Acompanhando uma tendência para a reprodução e recriação de motivos portugueses, que já vinha sendo desenvolvida por Stuart Carvalhais (1887-1961) e Jorge Barradas (1894-1971) desde o final da década de 1910 e início da década de 1920 (como se pode constatar, por exemplo, em muitas das capas produzidas pelos mesmos para a revista ABC), e um reforço dessa tendência através da obra gráfica de Raquel Roque Gameiro (1889-1970) e Laura Costa (activa em 1920-1950), entre muitos outros artistas, a decoração do vidro pintado a esmalte produzido na Marinha Grande durante as décadas de 1940 e 1950 reflectiu precisamente essas temáticas, evocando tradições regionais e nacionais através de aspectos do artesano e do folclore de Portugal.

   Obviamente, a esta tendência não terá sido também alheia, directa ou indirectamente, a acção de um organismo oficial do Estado Novo, o Secretariado da Propaganda Nacional, criado em 1933.

    As fábricas que maioritariamente promoviam esta decoração na Marinha Grande, a Nova Fábrica de Vidros e a Companhia Industrial Portuguesa, não foram contudo insensíveis à procura do mercado e às tendências estrangeiras produzindo também desenhos que evocavam êxitos internacionais, como aqueles que eram protagonizados pelas personagens criadas por  Walt Disney (1901-1966).

 

 

Conjunto de copos para criança, fabricados na Marinha Grande, reproduzindo personagens criadas por Walt Disney. Década de 1940.

 

 

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Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007

Aspectos do Vidro em Portugal no Século XX

Copo com decoração do tipo "Mary Gregory", de provável manufactura estrangeira. Finais do século XIX.

 

   A decoração de vidro conhecida como "Mary Gregory" deve o seu nome à suposição de esta técnica ter sido iniciada nos Estados Unidos  por uma decoradora vidreira com este nome. Tal pressuposto veio a ser contestado posteriormente, havendo inúmeros exemplos que provam ter sido esta técnica comum a vários países, a partir do último quartel do século XIX, embora a maioria da produção seja atribuída à Boémia. 

   A decoração "Mary Gregory" caracteriza-se por apresentar desenhos a esmalte branco, com acentuado relevo,  representando essencialmente crianças mas também algumas personagens adultas. Muitas das peças apresentam-se em vidro colorido, embora se considere que os modelos primitivos terão sido provavelmente executados em vidro branco, transparente. É provável, pois, que esta decoração derive de uma imitação menos dispendiosa do vidro gravado e lapidado com retratos em camafeu, técnica que em Portugal foi executada no segundo quartel do século XIX pela fábrica da Vista Alegre.

   O reduzido grupo de especialistas que em Portugal se dedica ao estudo do vidro apresenta-se dividido quanto à existência desta técnica em Portugal, embora o Museu do Vidro da Marinha Grande exponha uma peça que os responsáveis do museu consideram ter sido executada em Portugal.

   A peça que abaixo se reproduz, provavelmente executada em Portugal, apresenta uma característica comum ao exemplar do Museu do Vidro da Marinha Grande – o facto de a decoração não ser executada totalmente a branco, apresentando o rosto colorido. Esta variante poderá ser, assim, uma característica específica da produção "Mary Gregory" portuguesa, se efectivamente ela existiu. Como é óbvio, esta peça vem consubstanciar a hipótese de tal técnica ter sido, de facto, executada em Portugal.

   Consulte algumas informações sobre o Museu do Vidro da Marinha Grande em http://www.visitportugal.com/NR/exeres/753C1B20-6C94-4A34-914B-9C315AABF8A1,frameless.htm e obtenha informações mais desenvolvidas sobre o vidro e o espólio do museu em http://br.geocities.com/omnco/.

 

Copo com decoração do tipo "Mary Gregory", de provável manufactura portuguesa, com a inscrição a dourado "Lembrança da Primeira Commúnhao". Princípios do século XX.

 

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