Quinta-feira, 20 de Setembro de 2007

Manuel Ribeiro de Pavia

 

Ilustrações para Calenga (1945), de Castro Soromenho (1910-1968).

 

 

 

   "Tantos de tal de 1950. Estou

       tão farto do século XX!

  

   O pintor Manuel Ribeiro de Pavia procurou-me no escritório do Tivoli com aquela solenidade de sorriso grave com que se reveste em certas ocasiões, talvez para parecer mais alto.

   – Preciso de falar consigo... – disse.

   Peguei na gabardina e saímos.

   E então, durante o pausado arrastar das sombras pelo claustro das árvores da Avenida, o Pavia assustou-me com o relatório orgulhoso da sua miséria.

   – Veja o meu fato, Zé Gomes. Está no fio. (E estava mesmo. Não era literatura.) Olhe para esta camisa rota... (bem a via.) Devo dois anos de aluguer do quarto...

   E com ferocidade inquietante:

   – Se não arranjar dinheiro, só me resta uma solução: matar-me!

   A ameaça não soava a teatro vão. Senti que ardia uma pequenina chama de terror em qualquer parte.

   Expôs-me a seguir o plano concebido:

   – Penso publicar três álbuns de desenhos, intitulados Líricas, Dramáticas e Trágicas... Posso contar consigo?... Queria que me escrevesse o texto para as Líricas... Aceita?

   Ainda mastiguei a modéstia de recusar:

   – Pouco ou nada percebo de artes plásticas... Porque não pede a colaboração de outro escritor com mais nome?

   Mas ele insistiu, impôs o seu direito de amigo e eu convenci-me, pronto para a tarefa.

   – Estou às suas ordens. Traga-me os desenhos.

   Abanou a cabeça:

   – Ainda não os fiz... Mas vou deitar mãos à obra.

   E com a barriga vazia, nas noites sem amor, pôs-se a inventar mulheres nuas no papel...

   Decorrido algum tempo (hoje dia tantos de tal) reapareceu, sombrio e alegre:

   – Já acabei os bonecos. Quer ir vê-los?

   Fui.

   – Maravilhosos! – pronunciei-me.

   – Alguns talvez devessem ser mais trabalhados... – apressou-se a criticar com argúcia, mal reparou que os meus olhos tropeçavam nos dois ou três desenhos últimos.

   – Estes dois, não?...

   – Sim. Estes dois.

   Mas de fato no fio e camisa rota (sem literatura) concluiu, suave de amargura ríspida:

   – Não. Não posso mais!

   Calei-me com vergonha triste de saciado."

 

 in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1966; 3.ª edição, 1977).

 

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Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007

Leonardo Coimbra

Coimbra. Universidade. Bilhete postal circulado em Novembro de 1925.

 

   "O cidadão Leonardo Coimbra.

 

   Aqui, nesta velha Brasileira do Rossio, em certa manhã de luz lavada dos dias posteriores à derrota dos monárquicos em Monsanto, vim encontrar Leonardo Coimbra [1883-1936] a engraxar os sapatos, rodeado da sua corte habitual do Partido Democrático.

   Acolheu-me com alegria de criança, tirada cá para fora pelo sol, criança ardente que não receou interromper o engraxador, nos últimos esmeros do brilho, para se pavonear diante de mim em exibição de elegância:

   – Hã? Que tal?

   Examinei-o e, ó Céus!, estava de fraque.

   – Que é isto? Vai a algum casamento? – perguntei, feliz por encontrar logo o lugar-comum necessário.

   E ele, radiante de vida provisória:

   – Sou ministro!... Ministro da Instrução. Vou prestar juramento ao Presidente Canto e Castro.

   E com a lhaneza franca de ministro de 1919, ali na Brasileira, com o sol a parecer mais sol:

   – Pedi o fraque emprestado...

   Todos, à uma, aplaudiram:

   – Fica-lhe como uma luva... Como uma luva!...

   Leonardo mirou-se no largo espelho cívico da Brasileira (que bom haver corpos, fraques e amigos!):

   – Como uma luva.

   E sentou-se de novo, a recomendar ao engraxador:

   – Puxe-lhe bem esse lustro, cidadão!

   – Qual é o seu programa?... – interroguei-o, tímido, quase com voz secreta.

   E ele, desvanecido com o destino, tom levemente irónico de não acreditar que pudesse reprincipiar o mundo sem serpentes nas árvores:

   – Acabar com a Universidade de Coimbra."

 

   in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1.ª edição, 1966; 3.ª edição, 1977)

 

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Manuel Ribeiro de Pavia

 

Capa para Cerromaior (1943), de Manuel da Fonseca (1911-1993).

 

   "Um salto para o passado,

    2 de Novembro de 1943.

 

   Café Portugal. Manuel da Fonseca a semear palavras de invenção poética...

   Acompanhou-me a casa e ouvi-lhe histórias pasmosas, narradas na sua voz de ironia fosca que, de vez em quando, tanto enegrece as palavras de agressividade doce-amarga... O suicídio do senhor da Torre Vã, que se atirou para o chão coberto de cacos de garrafas, depois de obrigar a mulher a dançar nua com uma candeia acesa no umbigo... O Cação, que curou o unheiro do pé com o malho do ofício... O André Algarvio, que saiu para a rua a gritar que era cabrão... Sei lá! Um mundo medonho de malteses bárbaros e inteiros...

   Depois, a conversa ensilvou-se e soube que Cerromaior, o primeiro romance do Manuel, sofreu cortes vários. Supressão de palavras tidas por indesejáveis.

   Uma tristeza de transformar as pedras em caveiras. Com dentes moles."

 

   in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1966; 3.ª edição, 1977).

 

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Segunda-feira, 10 de Setembro de 2007

Portugal, os Portugueses e os Estrangeiros

 

"Agora vem a despropósito esta história

 verdadeira de um estrangeiro parvo.

 

   'W', o estrangeiro loiraço que vive há oito dias (oito) entre nós, declarou-se perturbado com a paisagem portuguesa dos homens e das coisas.

   – Talvez não exista no mundo povo mais dinâmico e ansioso de acção – decretou, superficial. – A verdade é que só tenho encontrado gente empenhada em projectos de hotéis, casinos, fábricas, armazéns... Estou positivamente encantado.

   Para não desviar o véu, respondi-lhe com a aprovação dúbia do meu melhor sorriso, evitando cair na atitude antipatriótica de lhe revelar que todos apreciamos imenso o Movimento e o Plano, com a condição de nos deixarem em paz na nossa poltrona de sossego, a fumar um cigarrinho de acção imaginada...

   Que bom conceber cidades de pedras impossíveis! Que bom narrar romances até o esmiuçamento dos mínimos episódios e concluir com vagar espreguiçado: 'Está completamente pronto. Só falta escrevê-lo.'

   Calei-me malicioso e, como se não tivesse qualquer propósito, narrei-lhe esta história que tanto apaixonou a pintora Ofélia Marques há 30, 40, 50, 100, 200, 500 anos de nuvens!

 

   Certa noite, numa aldeia do Alentejo, eu e vários amigos de ocasião, após uma noitada de fumo, sonho e delírio, resolvemos abalar no dia seguinte para Sevilha em excursão de pândega.

  Um dos futuros viajantes, proprietário do 'monte' mais próspero dos arredores, propôs-se abater o clássico borrego para a jornada. Outro prometeu meio pipo de vinho. E eu ofertei-me para o sacrifício de comer o borrego e beber o vinho.

   Durante o serão combinámos passeatas, visitas a catedrais, borgas e touradas. Entre clamores de 'viva la gratia!' e 'olés!' percorremos, com entusiasmo de sonho barulhento, as ruas de Sevilha, a atirar cravos vermelhos para os cabelos das niñas que acorriam às grades a saudar-nos com sacudidelas de ancas...

   Ficou tudo bem assente. Não olvidámos nenhum pormenor. Fizemos contas, somámos orçamentos e fixámos a hora de partida para as 8 da manhã. Às 8 em ponto. (Acertámos os relógios, com volúpia de estabelecer horários.)

   Depois, despedimo-nos e fomos para casa, felizes e zaranzas de tanta acção passiva.

   – E então? Grande paródia em Espanha, não? – quis saber o estrangeiro, com olhos a espevitarem a sequência da história.

   Fitei-o com ironia de lhe responder assim:

   – No dia seguinte ninguém compareceu no local marcado. Nem o homem do borrego, nem o dador do pipo, nem eu. E à tarde, quando nos encontrámos na botica da terra, nenhum dos excusionistas teóricos aludiu ao projecto gorado. Não se falou mais nisso. Era como se já tivéssemos dado o passeio noutro plano...

   O senhor esguiamente estrangeiro fitou-me, púrpuro de surpresa...

   ... enquanto eu ria, ria divertidíssimo do assombro daquele zarelho, tão convencido, momentos antes, de que bastaria chegar a Portugal para compreender logo tudo.

   Palerma!"

 

   in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1.ª edição, 1966; 3.ª edição, 1977).

 

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Quarta-feira, 9 de Maio de 2007

Autógrafos - José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira (1900-1985)

A Memória das Palavras (1965; 3.ª edição, 1972)

 

 

José Gomes Ferreira (1900-1985)

   Poeta e prosador, Gomes Ferreira começou a publicar a sua obra, em volumes, vários anos depois de exercer as funções de cônsul de Portugal em Kristiansund, na Noruega (1926-1930). O seu primeiro volume em verso, Poesia I, foi publicado em 1948, sendo o último, Poesia VI, de 1976.

   Entretanto, saíra o seu  famoso livro Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo (1963), prosa metafórica de índole liberal e contestatária, e havia sido publicada uma interessantíssima obra memorialista intitulada A Memória das Palavras (1965).

   Embora independente de movimentos literários, a formação de Gomes Ferreira e a sua obra podem ser consideradas próximas dos ideais do movimento e da revista Seara Nova. Homem de esquerda, intelectual tolerante e liberal, Gomes Ferreira não deixou, no entanto, de respeitar e conviver com homens-chave do regime Salazarista, como o embaixador Franco Nogueira (1918-1993). Aliás, na antiga biblioteca de Franco Nogueira existia um volume com dedicatória de Gomes Ferreira, em que este referia terem ambos comum admiração pela obra do ilustrador Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957), um dos porta-estandarte do Neo-Realismo. Em 1950 Ribeiro de Pavia publicou um álbum de 15 desenhos, As Líricas, dedicado ao poeta.

   Gomes Ferreira inicia o preâmbulo de A Memória das Palavras dirigindo-se a sua esposa nos seguintes termos – "Rosalia: Aqui tens o meu passado. A parte mais pura do meu passado. A única digna de ti, minha querida companheira de tantos e tantos felizes anos árduos." Dessa compilação de memórias, transcrevem-se alguns parágrafos:

 

   "E então, com a naturalidade de quem sorri, arranjei novos amigos, os meus grandes amigos dos anos de 30. Quase todos artistas. Muitos pintores, desenhadores e arquitectos: os meus compadres Ofélia e Bernardo Marques, o Carlos Botelho, o Fred Kradolfer ("o suíço que se deu ao trabalho de ser português"), a Maria e o Chico Keil, o Cottinelli Telmo, o Diogo de Macedo...

   E quem é aquele aciganado, de gravata branca, sentado na Brasileira do Chiado a conversar com o José Tagarro? (O bom desenhador gigante de mãos rudes donde, por milagre, só escorriam perfis de delicadeza de fio...) Aquele?... Eu apresento-te: Manuel Mendes... Gomes Ferreira (ainda, literàriamente, sem o José). Muito prazer.

   Sim, o Manuel Mendes, futuro autor do Bairro e do Pedro (livros da minha escolha nas horas de ir à estante reler páginas predilectas), admirador cego, como eu, de Raul Brandão, democrata como eu e camarada dos longos passeios nocturnos pela vida fora... – vamos jantar a uma taberninha? – ... talvez pela morte dentro...

   Logo no início da nossa amizade prestou-me um serviço real, publicando no Descobrimento, revista dirigida por João de Castro Osório, várias traduções de poemas operários americanos que tanto pesaram na minha busca de melodias poéticas não ouvidas. E apresentou-me em seguida a Bento de Jesus Caraça que recordo sempre com o seu sorriso de jeune fille – na inesquecível definição de Carlos Amaro.

   Sobre este homem de excepção poderia agora escrever um capítulo inteiro evocativo do mês de intimidade de férias que passámos na casa do Chico Keil em Canas de Senhorim onde os três acabámos por inventar um pudim famoso que, não sei por que fantasia inofensiva de scherzo estival, baptizámos de "pudim Presidente da Academia de Ciências".

   Mas nestas memórias em redor de coisas literárias (ou que lá vão ter) vejo-o sobretudo a rir, a rir muito durante a visita que fizemos à Metalúrgica do Tramagal quando, após a representação da habitual comédia do poeta desgostoso dos mecanismos úteis, lhe descrevi as minhas outras Fábricas sonhadas com máquinas estranhíssimas de fabricar Silêncio, de fabricar Solidão, de fabricar imagens poéticas, de fabricar Nada... Daí em diante nunca mais me cumprimentou senão com este brado de saudação que ouvira um dia a certo velhote, apostrofando um amigo no eléctrico matinal:

   – Eh! Poeta! Eh! enganador do Povo! (Devo esclarecer que ainda não tinha publicado a Poesia I.)"

 

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