Quarta-feira, 14 de Novembro de 2007

Autógrafos - Garibaldino de Andrade

 

Garibaldino de Andrade (1914-1970), Sete Espigas Vazias (c. 1955).

Ilustrações de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957)

 

 

   Garibaldino de Andrade (1914-1970).

   Tendo escrito na década de 1940 os livros de contos Vila Branca (1944) e O Sol e a Nuvem (1949), obras que traduzem a sua vivência do Alentejo e se aproximam do Neo-Realismo, Garibaldino de Andrade deslocou-se na década de 1950 para África.

   Aí, em conjunto com Leonel Cosme (n. 1934), fundou e dirigiu, a partir de Angola, a famosa colecção Imbondeiro, que promoveu durante duas décadas a diversidade da literatura africana de expressão portuguesa.

   Do livro Sete Espigas Vazias, um grande romance sobre o Alentejo, um romance injustamente esquecido de um autor injustamente esquecido, transcrevem-se três parágrafos:

 

   "Desde a guerra de Espanha que Joaquim atravessava a fronteira. Era a hora dos negócios pingues. Nas feiras, os marchantes não tinham mãos a medir. Lavradores de carteira farta compravam gado a olhos fechados. Terras que deviam andar a pão, ficavam para pastos. De noite, horas mortas, os cascos entrapados, os animais transpunham a linha convencional que separa os dois países. Ali, vendiam-se maços de cigarros e pães de trigo duvidoso por um punhado de pesetas. Homens famintos, olhos ardendo em febre, atravessavam o Chança e o Guadiana e metiam-se às estradas, esmolando e roubando. Vilas quietas, adormecidas na planície, foram invadidas por chusmas de engraxadores e vendilhões de tuta e meia. Mulheres e raparigas, algumas quase crianças, entregavam-se a quem lhes enganasse a fome. Contrabandistas, pela calada da noite, pelo pinto do meio-dia, a toda a hora, rindo-se dos guardas-fiscais e iludindo os carabineiros, carreavam víveres, roupas, tralha de toda a espécie. Às vezes soavam tiros e caíam homens mortos. Mas isso não importava. Nos caminhos sinuosos ao longo da raia, agitava-se uma humanidade inquieta, que perdera a fé, a lei e a esperança, que é o rumo do futuro."

 

  

 

   "O velho Nogueira vendera a Filada e Vila Branca estava morrendo. Deitando cálculos à vida, Antoninho da Loja viu as estantes desguarnecidas e o livro das contas cheio de cães de todas as raças... Que ia ser dele, da mulher e do filho? A loja era a sua enxada. Cerradas as portas, de que se iam governar? Matutando nisto, fugira-lhe o sono. Errava pelos cantos, aos suspiros fundos, escondendo dos seus a realidade triste. Uma vez, não pôde mais. Aproximava-se o prazo da reforma de uma letra: quinze dias para desencantar três contos. Onde?, onde? todos os caminhos bloqueados: os que lhe deviam, não pagavam; os que tinham dinheiro, chamavam-lhe seu; e, na gaveta, outrora próspera, apenas o chocalho e um punhado de moedas...

   Desabou sobre o caixote das sonecas, e, numa crise de choro, ali o fora surpreender o filho. Aos brados deste, acudira a mãe. Naquela hora de desânimo, Antoninho da Loja contou-lhes o engano em que viviam. Por três contos, não seriam mais donos de coisa nenhuma: levariam o balcão, as estantes, os míseros trapos que ainda as enfeitavam..."

 

 

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Quarta-feira, 7 de Novembro de 2007

Uma Leitura da Obra de Margarida Rebelo Pinto

 

 

    A contestação ao conteúdo, forma e valor literário da obra de Margarida Rebelo Pinto (n. 1965) atingiu o seu clímax em 2006 com a publicação de Couves & Alforrecas: Os Segredos da Escrita de Margarida Rebelo Pinto. Ostentando na contracapa o seguinte destaque – "Um aviso, desde logo: o texto que segue é embaraçoso para a escritora e penoso para os leitores em geral. Margarida Rebelo Pinto repete-se imoderadamente, copia frases de uns para outros livros, tem deslizes de ortografia e comete erros gramaticais.", este opúsculo de João Pedro George (n. 1972), com cerca de cinquenta páginas, analisa de forma demolidora a produção literária da autora, como o aviso deixa bem claro.

   Um "texto penoso" que merece ser lido por quem se interessa pelas idiossincracias da escrita de Margarida Rebelo Pinto e por algumas das opiniões, também peculiares, do autor. Até pelos seus deslizes... Através de uma nota, na página 17, João Pedro George garante-nos que, ao contrário do que muitas pessoas poderiam pensar, na frase "ela enroscada como um bicho-de-conta, eu a adormecê-la" encontramos uma metáfora e não uma comparação...

 

 

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Autógrafos - Margarida Rebelo Pinto

  

 

Margarida Rebelo Pinto (n. 1965), Nazarenas e Matrioskas (2004).

 

 

 

Margarida Rebelo Pinto (n. 1965).

   Tendo iniciado a sua carreira com o romance Sei Lá (1999), Margarida Rebelo Pinto tem pontuado o seu percurso com múltiplos sucessos de vendas, através de uma literatura que se tem apresentado homogénea e coerente. Homogeneidade e coerência que têm suscitado comentários irónicos sobre a originalidade da sua escrita, comentários esses que sublinham ainda a redundância desta escrita e a tentação de um  discurso que tende ao autoplagiarismo.

   A autora, aliás, tem sublinhado em algumas das suas entrevistas a marginalização a que a sua obra tem sido sujeita pelo establishment da crítica literária, mas esse facto não deve fazer-nos esquecer que as suas obras continuam a apresentar uma tiragem média superior à maioria da ficção nacional.

   Aliás, romances como Não Há Coincidências (2000) e I'm in Love with a Pop Star (2003) continuarão certamente a ser leitura predilecta de adolescentes durante algum tempo mais, garantindo à autora o êxito de vendas que a crítica intelectual sempre tem ignorado.

   Do conjunto de pequenos textos reunidos sob o título Nazarenas e Matrioskas, transcrevem-se três parágrafos de "E de Repente":

 

   "Os amigos não se fazem, reconhecem-se, disse o poeta que escreveu e de repente, não mais que de repente... de repente, tudo pode acontecer, basta um instante, as pessoas cruzam-se por acaso para nunca mais se separarem, e é então que percebemos que nada é por acaso, que afinal estar naquele sítio àquela hora era apenas a forma de nos aproximarmos e ficarmos mais ricos, mais cheios, melhores.

   Tu já sabias que ia ser asssim, tens o olhar dos adivinhos e a intuição dos grandes sábios, mas eu não fazia ideia nenhuma e por isso vou saboreando o presente como este presente que a vida me deu, a tua amizade, o teu tempo, a tua atenção, a tua discrição, a tua lealdade, a tua estima e preocupação, o teu bem-querer, o teu conforto, pensando que a vida é grata e atenta e nos vai dando o que precisamos, basta estar atento aos sinais e saber segui-los com cuidado e humildade, aceitando os desvios e enfrentando os inevitáveis precipícios, descansando sempre que é preciso, sem nunca parar, sem nunca desistir, sem entregar as armas nem o coração.

   Daqui a dez ou vinte ou trinta anos, terás perdido o cheiro a leite da pele, eu terei rugas e uma cabeça coroada de cabelos brancos, mas quero que saibas que, quando não tiveres força para estar com mais ninguém, podes sempre vir ter comigo e descansar nas minhas histórias que te fazem rir e me fazem pensar que ainda tenho alguma graça, mesmo que o tempo me esbata os sonhos e me roube os ideais. E quero que venhas sempre, com esse olhar de gato e esse andar de menino, ensinar-me coisas novas e descobrir comigo livros, discos, filmes, frases, e viagens ao sul, saboreando o presente que a vida nos deu um ao outro quando nos cruzámos e decidimos que seria bom morar no coração um do outro!"

 

 

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Quarta-feira, 31 de Outubro de 2007

Autógrafos - João Aguiar

 

João Aguiar (n. 1943), O Canto dos Fantasmas (1990).

 

 

João Aguiar (n. 1943).

   Tendo atingido enorme sucesso com o seu livro de estreia, A Voz dos Deuses (1984), que já ultrapassou há muito a décima edição, João Aguiar tem vindo a desenvolver uma ficção de fundo histórico como sua imagem de marca.

   O romance que se seguiu a O Canto dos Fantasmas, Os Comedores de Pérolas (1992), revelou-se também um grande sucesso, que consolidou ainda mais a posição de destaque de João Aguiar na literatura portuguesa contemporânea.

   De O Canto dos Fantasmas transcrevem-se três parágrafos:

 

 

   "A sala estava fresca, as portadas das janelas, ainda encostadas, faziam uma penumbra agradável. André considerou longamente as portadas. Recordava o trabalho que tivera para convencer o mestre de obras de que não queria "estores modenos" e ainda menos caixilhos de alumínio ("mais limpos, mais baratos", insistira o homem; e, com o seu sentido estético ofendido: "mais bonitos, também; é outra coisa!").

   Aprendera muito durante as obras de restauro da casa – obras grandes e caras, porque a Tia Henriqueta deixara a degradação avançar à medida que perdia o seu impulso vital e, com ele, o interesse por tudo o que a rodeava. Só ao lançar mãos ao restauro André compreendera quanto os tempos haviam mudado, não desde a juventude da tia, mas desde a sua própria juventude. A invasão do alumínio e do mármore polido (para as soleiras e parapeitos; um horror) fora mais devastadora do que ele julgara. Era complicado e caro arranjar madeira, pedra – e gente para trabalhar a madeira e a pedra. Além do incómodo imediato, da inconveniência pessoal, inquietava-o saber que de ano a ano se tornava mais difícil encontrar um carpinteiro disposto e sabedor para fazer, por exemplo, portadas de madeira. Ou qualquer outra peça. A era do alumínio, o império da maison. Estremecia ao imaginar como seria Portugal dentro de, vamos lá, vinte anos. Ou menos.

   No quarto ao lado, tiniu a campainha do telefone. André não se mexeu, apesar do forte pressentimento; podia ser engano, podia ser a filha da Dona Angelina a braços com um problema doméstico. Deixou a campainha tocar até que Dona Angelina veio da cozinha e atendeu – berrando, porque, embora familiarizada com as maravilhas do progresso, algo ainda lhe dizia, no íntimo, que quando se fala para longe é preciso gritar."

 

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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007

Autógrafos - Júlio de Sousa

 

Júlio de Sousa (1906-1966), Beijei a Lua (1965). Capa e ilustrações do autor.

 

 

Júlio de Sousa (1906-1966). 

   Mais conhecido como pintor, escultor, ilustrador e caricaturista (veja-se a sua notável caricatura de Josephine Baker em http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/216312.html), Júlio de Sousa havia publicado anteriormente três outros livros – dois de poesia, Jogo Perdido (1956) e História da Menina Triste (1963) e um de canções, Saudade, Vai-te Embora ! (1963).

   A quase ignorada dedicação de Júlio de Sousa ao fado acabou por ser condensada na famosa canção homónima do título deste último livro – Saudade, Vai-te Embora!, um fado que, hoje em dia,  poucos associam a este artista que vai caindo no esquecimento.

   De Beijei a Lua transcrevem-se dois poemas, sem título:

 

"O poema que ainda não escrevi

é este.

É este o que mais sinto,

porque não falo de amor, de nuvens,

e de fado, e não minto...

Que todos me detestem

porque não visto

as roupas que outros vestem.

Não obrigo ninguém

a ser como eu,

mas não me obriguem

a descer do meu céu,

ou do inferno em que vivo...

Para ser cúmplice

de indesejáveis.

ninguém passou por mim

como os cães pelas árvores

dos "passeios públicos".

Que todos me detestem

porque não visto

as roupas que eles vestem,

e pareço, o que Sou.

Deus sabe

que não uso "gravata"

porque nenhuma me encantou..."

 

Capa do catálogo da exposição póstuma realizada em 1967, no SNI.

 

"Eu queria ser Domingo,

Amor,

Preguiça,

Flor

num livro de missa

e rosário

nas mãos duma criança,

bandeira verde

na janela da esperança

e campanário...

Eu ueria ser Domingo,

passear ao sol

contigo,

e beijar a Cidade

rua a rua,

e ser alegre como a Liberdade

que me prende a ti...

Eu queria ser Domingo

à sexta-feira,

a esta sexta-feira

em que nasci..."

 

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Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

Manuel Ribeiro de Pavia

 

Ilustração para a capa de Filhos do Diabo (1954), de Manuela de Azevedo (n. 1911).

 

   "(...) Heróico Pavia!, companheiro de poetas, ilustrador de poetas, apaixonado leitor ideal de poetas que, à hora da morte, com a simplicidade de bem morrer sem bravatas, ainda pediu  a um poeta que lhe ensinasse a saída do labirinto, agarrado a um fio de poesia para não se enganar na porta escura.

   – Tantas vezes o ouvi citar esses versos! – observou o Carlos de Oliveira.

   São os do "Poema Final" de Camilo Pessanha que li agora mesmo, sem tropeços de lágrimas, os olhos bem secos (sim, bem secos e nítidos), para compreender bem, para apreender bem:

 

   Abortos que pendeis as frontes cor de cidra

   Tão graves de cismar, nos bocais dos museus,

   E escutando o correr da água na clepsidra,

   Vagamente sorris, resignados e ateus,

   Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.

   ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

   Adormecei. Não suspireis. Não respireis. "

 

in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1966; 3.ª edição, 1977).

 

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Quarta-feira, 17 de Outubro de 2007

Autógrafos - Baptista-Bastos

 

Baptista-Bastos (n. 1934 ), Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura (1.ª edição, 1981; 3.ª edição, 1987).

 

 

Baptista-Bastos (n. 1934).

   Jornalista, ensaísta e romancista, Baptista-Bastos começou por publicar dois ensaios sobre cinema – O Cinema na Polémica do Tempo (1959) e O Filme e o Realismo (1962). Entre outros textos, compilou posteriormente um festejado conjunto de crónicas sobre Lisboa, intitulado Cidade Diária (1972), mas havia sido já com O Secreto Adeus (1963) que o autor atingira notoriedade e consagração.

   Aclamado publicamente por vários escritores, entre os quais  José Gomes Ferreira (1900-1985) e José Rodrigues Miguéis (1901-1980), o livro foi ligeiramente modificado nas sucessivas edições, sendo a 5.ª edição (1985) aquela que passou a apresentar a versão integral e definitiva.

   O livro mais recente do autor é No Interior da Tua Ausência (2002).

   De Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura, transcreve-se um parágrafo:

 

   "A cantoria sem nexo dos bêbados em grupo perdeu-se na distância. Já não estou ali embora saiba que as minhas raízes mergulham em coisa nenhuma, porque tudo o que caracteriza a condição humana é precário ou provisório. Vejo vivendas que descem a vertente da colina e se aglomeram quase junto ao rio; o largo da Boa Hora, onde nas tardes de domingo operários vestindo fatos de ganga conversavam serenos e graves; as iscas nas tabernas, fritas em banha escura e viscosa, o suor dos cozinheiros que escorria dos seus rostos corados e frequentemente tombava nas frigideiras, misturando-se com o molho odoroso. Vejo faces novas, jovens, que atraem a curiosidade das mulheres velhas, sentadas nos poiais, e as observam com olhares revertidos: animais espontâneos movendo-se com graça e subtileza. Vejo aqueles dias em que todos esperávamos uma tempestade, o Tejo estava espesso, os bojos dos barcos erguidos, observávamos as rémoras alapadas nos cascos, o céu de nuvens, baixo e imundo; isso foi nos anos em que bebíamos o vento, e o vento era fresco e suave. Ouço-o e volto-me para o escutar melhor, dali; mas não é dali que ele sopra, já não sei. Sei, isso sim, que vou descer a encosta amena, um turbilhão de gaivotas erguer-se-á para o ar num alarido alucinado, escorrego em calhaus azuis e em manchas de óleo, gomos de alcatrão colam-se-me às solas dos sapatos, leivas minúsculas no baldio, que criaturas pobres e engenhosas lavram, a fim de não desperdiçarem nenhum pedaço de terra."

 

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Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

Manuel Ribeiro de Pavia

 

Ilustração para a capa de O Pecado Invisível (1955), de Patrícia Joyce (pseudónimo; n. 1913).

 

   " (...) Subimos todos. Ciciar de antecâmara de moribundo. Grupinhos severos em que até os mais íntimos apertam as mãos com gravidade de cerimónia ante a morte eminente. Esvaíram-se as derradeiras probabilidades de salvação, parece. O Fernando Fonseca considera-o [a Pavia] perdido. Com uma pneumonia hipertóxica – segreda-me não sei quem.

   (Atear de pânico surdo de boca em boca. Mas então então os antibióticos nem ao menos curam uma pneumonia?)

   E enquanto alguém se põe a repetir com insipidez de lamentação pendular: " A doença apanhou-o débil de mais. Apanhou-o sem reservas", o bom do Mário Monteiro, com o seu sorriso doce de amargura, esclarece: "Não reagiu a nenhum antibiótico. Era como se ingerisse água fervida..."

   Entretanto, no quarto ao lado, em contraste com este sussurro de azáfama, continua a representação em voz alta de um simulacro qualquer de vida para aturdir de ilusão o homem que vai morrer.

   Volta e meia saem de lá de dentro mensageiros com notícias de desgraça na voz inquieta. Primeiro, o Armando Vieira Santos, que passou abnegadamente a noite em claro ao pé do amigo em perigo. Agora, o Manuel Vieira, escalonado para velar esta noite...

   – Então?

   – Delira, suponho... Há pouco, depois de falar do último poema da Clepsidra (vocês lembram-se do que diz esse poema?), exclamou: "É assim que deve morrer um racionalista!" (...)"

 

in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1966; 3.ª edição, 1977). 

 

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Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

Autógrafos - José Riço Direitinho

 

José Riço Direitinho (n. 1965), A Casa do Fim (1992).

 

   

 

   José Riço Direitinho (n. 1965).

   Tendo publicado o seu primeiro livro em 1992 (A Casa do Fim; existe uma edição do conto homónimo realizada pela A.E.F.C. da Universidade do Porto, em 1988), Riço Direitinho revelou-se de imediato um escritor com uma visão renovadora, imbuindo, embora, muitos do seus contos de um ambiente rural que já há algum tempo não surgia na corrente principal da literatura portuguesa do século XX .

   Recebendo logo de início críticas muito positivas sobre a sua escrita, entre as quais a de Agustina Bessa-Luís (n. 1922), publicou posteriormente Breviário das Más Inclinações (1994), O Relógio do Cárcere (1997) e Histórias com Cidades (2001). Contribuiu ainda para várias antologias ao longo da década de 1990.

   Com obras traduzidas em várias línguas, viveu durante algum tempo em Berlim e Nova Iorque, disfrutando de bolsas literárias. Dessas estadias resultou a publicação do seu livro mais recente, Histórias com Cidades.

   Do conto O Amieiro (in A Casa do Fim), transcrevem-se os três primeiros parágrafos:

 

   "Jurava que um anjo se tinha metido de permeio, partindo um a um todos os ramos da árvore a que ele ia tentando atar a corda. Era inevitável estar agora vivo, três dias depois de ter adormecido sob o amieiro e sonhado com a sua morte atroz.

   Desde essa manhã não mais conseguira tornar a fechar os olhos, com medo que a morte lhe visitasse outra vez os sonhos; mantinha-se alerta para afastar com um pau todos os pássaros que se aproximassem. Ao caminhar pelas ruas ia tão atordoado pelo sono de três dias, que não encontrava discernimento para escolher  o lado da rua em que a sombra o protegeria daquele calor de Agosto, quase siderúrgico. Encostava-se aos portados ou abancava nos poiais, para recuperar o fôlego e logo depois continuar a andar, com o mesmo olhar atento dos animais perseguidos.

   "Durante os três dias não saiu da vila, para não ter que atravessar as terras de milho ou chegar-se perto dos canteiros de arroz", contou-me o pai no dia do funeral, "é onde os cabrões dos pássaros passam todo o tempo, neste mês de merda!"

 

 

O Relógio do Cárcere (1997).

 

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Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

Autógrafos - João Palma Ferreira

 

João Palma-Ferreira (1931-1989), Os Crânioclastas (1972). Ilustração para a capa e desenhos de Catherine Labey (n. 1945).

 

 

   João Palma-Ferreira (1931-1989).

   Palma-Ferreira foi essencialmente ensaísta e investigador, tendo publicado obras como Do Pícaro na Literatura Portuguesa (1981) e prefaciado e anotado antologias como Naufrágios, Viagens, Fantasias e Batalhas (1980).

   Editorialmente, a sua produção ficcional iniciou-se com um conjunto de novelas publicadas em 1968 – Três Semanas em Maio. Posteriormente publicou várias outras obras, como o romance A Viagem (1971), legando-nos também um Diário, em dois volumes (1972 e 1977).

   Palma-Ferreira exerceu ainda os cargos de conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Madrid, depois de ter leccionado na Universidade de Salamanca, director da Biblioteca Nacional e presidente da RTP.

    De Os Crânioclastas, "prosa elíptica inteiramente escrita na diáspora castelhana" como refere o autor, transcrevem-se alguns parágrafos:

 

   "Foi quando nós entrámos. A luz abafada do fogo que morria pintava sombras na sala de frio.

   Mas volto-me e vejo-o ainda sentado nos degraus do Monumento. O padre, de bronze, faz um aceno qualquer que ninguém decifrará, o gesto da estatuária inútil, a mesma que anda por aí há séculos abandonada em livros de antiquário. Vejo-o confusamente, como na sala do casino, como na praia nos vemos ou sob a amplidão fora do vidro fosco que sufoca ou abafa o nosso hálito. Curva-se interiormente no meu cérebro acompanhando a exacta concavidade dos ossos. Tento, em desespero, neste dormir opaco, tocá-lo, leve que seja, para lhe dizer como as palavras são necessárias entre os homens. Mas ele apenas se inclina com maior gravidade, recosta-se no cadeirão para escutar as frases estrangeiras que cavam túneis de horror pelo silêncio. Sinto, nos olhos, a prisão do tecto e do zimbório que cresce, de vidro, na torre em funil por onde as frases se escoam; logo, reflectidas, regressam à obsessão de que partiram.

   Fujo. Voo pelo descampado até à praia. Sigo uma onda de viés, nos folhos da espuma, mar que varre toda a costa mais rápido do que eu. Em liberdade, grito-lhe palavras de júbilo (não há crima ainda) e projecto o som por entre nuvens, ecos em rosas de jardim ou murmúrios em memórias do quintal; falo da humidade nos recantos da casa e do silêncio cortado pelo pingar da água. No pano verde de todos os prados lanço, em glória, o prazer das apostas, reis e valetes, ases e espadas, copas e oiros. Desfecho, na serra, pela boca fria da espingarda, as dez balas de chumbo que retinem perdidas pelas fragas.

   É quando chego, fatigado, a altas horas da noite. É a mesma porta, sempre. Os batentes castanhos. É quando rodo a chave. É quando entro. Aqui. É quando subo a rampa ao encontro da mulher de fogo e ácido que me espera, no chão varrido de neve, atrás do laranjal."

 

 

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