Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

Literatura Colonial Portuguesa

 

Orlando de Albuquerque (n. 1925), Cidade do Índico (1963).

   Nascido em Moçambique, Orlando de Albuquerque formou-se em Medicina na Universidade Coimbra e radicou-se posteriormente em Angola.

   Tendo publicado até 1963 dois livros de poemas, Batuque Negro (1947) e Estrela Perdida e Outros Poemas (1962), Orlando de Albuquerque escreveu posteriormente vários livros de contos e romances, muitos deles editados ou reeditados na década de 1990, sendo também co-autor de História da Literatura em Moçambique (1998).

   Antes de 1974, para além de alguma poesia, publicara ainda o romance O Homem que Tinha a Chuva (1968) e o livro de contos De Manhã Cai o Cacimbo (1969).

   O livro Cidade do Índico foi dedicado à memória de Alda [Lara, (1930-1962)], cuja obra poética completa foi editada em 1997, com notas biográficas e introdução de Orlando de Albuquerque.

   Em Cidade do Índico o autor revisita à distância a sua vida em Moçambique, recordando o seu quotidiano e as suas emoções em Lourenço Marques (actual Maputo), cidade do Índico, através de memórias enternecidas e belos textos. Poemas como Preta Felismina, Comboio de Marracuene, Canção Triste para Embalar um Menino Negro, Canção do Negrinho Perdido, Recordação e Regresso deixam-nos a imagem de um poeta com uma profunda sensibilidade africana, um poeta atento à doçura e à amargura da vida nesse continente.

   Cidade do Índico é ainda particularmente notável pelo inclusão, eficaz e pertinente, de várias expressões dos dialectos moçambicanos, criando um discurso inovador e uma atmosfera poética rara até então.

 

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Segunda-feira, 8 de Outubro de 2007

Literatura Colonial Portuguesa

 

Gabriel Mariano (1928-2002), O Rapaz Doente (1963).

    As publicações Imbondeiro, com sede em Sá da Bandeira (actual Lubango), Angola, constituíram um marco particularmente importante na edição da literatura colonial – revelaram uma diversidade espantosa de novos autores e publicaram as suas obras independentemente de serem, ou não, afectas ao regime. A 1.ª Canção do Mar e Duas Histórias de Pequenos Burgueses, de Luandino Vieira (pseudónimo de  José Vieira Mateus da Graça, n. 1935), foram publicadas na colecção Imbondeiro, dirigida por Garibaldino de Andrade (1914-1970; será referido em breve na secção autógrafos) e Leonel Cosme (n. 1934).

   Esta colecção com dezenas de títulos, apesar de coordenada a partir de Angola, divulgava autores de todas as colónias portuguesas em África. A mesma editora publicava também as colecções Dendela (contos para crianças), Imbondeiro Gigante (contos de autores africanos, brasileiros e portugueses da metrópole), Livro de Bolso Imbondeiro, Mákua (poesia) e Primavera (cadernos didácticos).

   Gabriel Mariano, um autor de Cabo Verde formado em Direito na Universidade de Lisboa, já tinha publicado na revista Claridade e na colecção de poesia Mákua quando este conto foi lançado. Posteriormente, surgiram 12 Poemas de Circunstância (1965), Louvação da Claridade (1986) e Ladeira Grande – Antologia Poética (1993). Na ficção, publicou Capitão Ambrósio (1975) e Vida e Morte de João Cabafume (1976).

   O Rapaz Doente é um conto que relata um episódio na vida de Júlio, rapaz da Praia, que se desloca a S. Vicente a fim de obter cura para a sua doença. Abordando retrospectivamente as condições quase esclavagistas a que os trabalhadores de S. Tomé (onde a personagem diz ter começado a sua doença) eram submetidos, o conto evolui para a solidão e abandono a que os doentes pobres acabavam por ser entregues.

   Uma narrativa centrada na tristeza, na impotência e na aceitação resignada e fatalista do destino. Um destino que parecia emsombrar toda a vida dos pobres em Cabo Verde.

 

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Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007

Literatura Colonial Portuguesa

Capa de Moura (datas desconhecidas) e ilustrações de Ilberino dos Santos (datas desconhecidas).

 

Henrique Galvão (1895-1970), Kurika (1944).

   Africanista convicto desde a década de 1920, Henrique Galvão colaborou inicialmente com a política do Estado Novo, tendo coordenado a Exposição Colonial do Porto, realizada nos terrenos do Palácio de Cristal, em 1934.

   Posteriormente, afastou-se da política do regime, vindo a protagonizar o sequestro do paquete Santa Maria em 1961, acto  que, por coincidência ou talvez não, ocorreu poucos anos depois da frustrada tentativa de candidatura do general Humberto Delgado (1906-1965) à presidência da República, em 1958.

   Ao contrário da maioria dos autores referidos até ao momento, Henrique Galvão assume na sua lista bibliográfica a designação "literatura colonial" para os ensaios, crónicas e ficções relacionadas com África. Publicou em 1929 um conjunto de crónicas intituladas Em Terra de Pretos, sendo posteriormente galardoado com prémios de literatura colonial pelas seguintes obras de ficção – O Velo d'Oiro (romance, 1932), Terras de Feitiço (contos, 1934) e O Sol dos Trópicos (romance, 1936).

   Seguindo uma linha de êxito das narrativas portuguesas do século XX ligadas a animais, iniciada com O Romance da Raposa (1924), de Aquilino Ribeiro (1885-1963), e continuada com Bichos (1940), de Miguel Torga (1907-1995), Henrique Galvão obteve enorme sucesso com a narrativa Kurika, a história de um pequeno leão órfão recolhido por um colono e "adoptado" por um cão e uma macaca, atingindo em poucos meses a 3.ª edição.

 

 

    Uma narrativa que certamente deve o seu êxito ao ambiente em que a ficção se desenvolve  e à minuciosa descrição dos vários animais que povoam a selva e a savana angolana. Mas também à verosimilhança que o autor atribui aos factos narrados, aspecto em que insiste particularmente, ao ilustrar o romance com duas fotografias apresentando as seguintes legendas – "As personagens deste romance existiram..." (fotografia de uma macaca e de um pequeno leão) e "As personagens deste romance não são imaginárias..." (fotografia de dois olongos mortos, com os cornos entrelaçados). O autor, aliás, fez questão de transformar o seu texto num conjunto que combina a ficção com o texto ensaístico de características técnico-científicas, particularmente no que respeita à classificação científica da fauna.

 

    

 

    Não se deve o leitor surpreender, por isso, ao encontrar notas como esta – "Walt Disney, num dos seus maravilhosos flmes, chama "Bambi" a um veado. O bambi não é um veado nem a designação se pode aplicar a este animal, que não existe na África, à qual o termo pertence, como vocábulo da língua bantu, para denominar um pequeno antílope do grupo das chamadas "cabras do mato", e que os naturalistas distinguem chamando-lhe "Cephalophus Sylvicapra, grimmi".

   O autor pretendeu, contudo, escrever uma obra para todas as idades, como ele muito bem declarou no prefácio, antecipando-se ao famoso lema ("Dos 7 aos 77 Anos") da revista belga Tintin (1946-1993) – "Este livro não se destina àquelas pessoas que conseguiram deixar de ser crianças na porção de tempo que decorre entre o termo da puberdade e o degrau convencional da maioridade civil. Pretendemos, é certo, que fosse um livro para crianças – mas para as crianças de todas as idades, entre os quinze e os oitenta anos, as crianças, enfim, que a idade não consegue matar nem abandonar na alma dos homens, mesmo quando as rugas já lhes sulcam as faces e seus cabelos embranquecem – ou caem para não sofrerem o desaire de mudar de cor."

 

 

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Segunda-feira, 24 de Setembro de 2007

Literatura Colonial Portuguesa

Capa de Bernardo Marques (1899-1962), ilustrações de Vasco ("Olmo", datas desconhecidas; Vasco Lopes de Mendonça?, 1881-1963).

 

Julião Quintinha (1885-1968), Novela Africana (1933).

   Jornalista e ficcionista, Julião Quintinha produziu durante a década de 1920 dois pequenos livros de ficção com bastante sucesso, os quais alcançaram novas edições em pouco tempo – Vizinhos do Mar (1.ª edição, 1921; 2.ª, 1923; 3.ª, 1929. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/163465.html) e Terras de Fogo (1.ª edição, 1923 ; 2.ª edição, 1925). Tal não sucedeu com outras obras do mesmo período, como Dor Vitoriosa – Novela Vermelha (1922) ou Cavalgada de Sonho (1924).

   No final dessa década, e na década seguinte, Quintinha começou a debruçar-se insistentemente sobre questões africanas e coloniais, através das suas crónicas e reportagens: África Misteriosa – Crónicas de Viagem (1929), Oiro Africano – Crónicas de Viagem (1929) e Terras de Sol e da Febre – Reportagem em Colónias Estrangeiras (1932). Publicara também, entretanto, um "esboço histórico" – Derrocada do Império Vátua e Mousinho d'Albuquerque (1930), em colaboração com Francisco Toscano (1873-1943).

   Quintinha desenvolvera relações com vários artistas do modernismo, destacando-se entre eles o seu conterrâneo (eram ambos naturais de Silves) Bernardo Marques, que ilustrou capas de algumas das suas obras, bem como com o jornalista e ficcionista António Ferro (1895-1956). Em 1933, Ferro foi nomeado  director do recém-criado Secretariado da Propaganda Nacional (SPN; mais tarde SNI), a agência de propaganda do Estado Novo. A Agência Geral das Colónias, fundada ainda durante a I República, em 1924, sofreu novo impulso com o Estado Novo e passou a traduzir a nova política do governo na recuperação do conceito de império colonial.  Surgiu assim a Exposição Colonial do Porto, em 1934, coordenada por um outro africanista entusiasta, Henrique Galvão (1895-1970), mais tarde contestatário do regime e autor de uma façanha quixotesca – o assalto e subsequente desvio para o Brasil do paquete Santa Maria, da Companhia Colonial de Navegação, em 1961.

 

  

 

   Naquele contexto, surgiu o livro Novelas Africanas. Apesar do título, este apresenta apenas o esboço de um  texto que se poderia incluir na tipologia das novelas – 'Como se Faz um Colonial', sendo todos os outros cinco textos mais próximos da tipologia do conto.

   A narrativa 'Como se Faz um Colonial' surge como um texto que conjuga ficção com trechos panfletários do colonialismo, na linha do que o título previamente nos sugere. Aliás, o prólogo de Quintinha assume-se mais como um ensaio ideológico sobre a recuperação do conceito de império colonial do que como uma introdução a textos ficcionais. Uma questão perfeitamente clarificada pelo autor, quando afirma – "[Novelas Africanas] É um livro simples, como simples é a gente a que se destina, e, embora velado dum véuzito de novelesca fantasia, são claros os seus intuitos – tão claros que bem poderiam dispensar-se as palavras deste prólogo. Escrevi-o, porém, muito especialmente para ter o ensejo de declarar que não era êste livro, de factura novelesca, que desejaria publicar neste momento, mas um panfleto violento e verdadeiro, onde exortasse o povo e a juventude das escolas a olharem, bem de frente, o problema colonial português em face das censuráveis ambições estrangeiras."

   Esta preocupação política de Quintinha, uma preocupação honesta, sentida e vivida pelo autor, com o problema colonial reflecte-se também na diversidade dos espaços narrativos escolhida pelo escritor – Angola, Guiné, Moçambique, S. Tomé e Príncipe, quatro espaços diferentes em apenas seis textos.

    É indubitável que, em muitos destes textos,  o panfletário prejudicou o ficcionista. Assim, poder-se-á dizer sem muita hesitação que o texto mais bem conseguido deste conjunto é um belíssimo e trágico conto cuja acção se desenrola na Guiné –  A Paixão da "Balanta", onde a trama novelesca quase faz esquecer a propaganda colonial.

 

 

 

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Segunda-feira, 17 de Setembro de 2007

Literatura Colonial Portuguesa

Capa e ilustrações de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957).

 

Castro Soromenho (1910-1968), Calenga (1945).

   Um dos maiores prosadores da literatura colonial portuguesa, Castro Soromenho legou-nos uma obra sui generis, porque centrada quase exclusivamente nas temáticas e nas narrativas perspectivadas segundo as tradições e a cultura dos povos nativos de África.

   Numa época em que no nosso país ressurgia e se consolidava politicamente o conceito de império colonial e os escritores se extasiavam perante a grandeza de África e todas as potencialidades que esta apresentava para a colonização, Castro Soromenho extasiou-se perante as tradições de sociedades que lhe pareciam estar ameaçadas pela cultura ocidental e perante a sabedoria dos povos dessas sociedades, como os "lundas, êsses poetas da planície". 

   Castro Soromenho ousou ainda levantar uma voz dissonante da voz do regime. "Ama, 'mãe negra', é essa saüdade, velha de mais de trinta anos, que invoca a tua memória ao findar êste livro dos homens da tua raça infeliz.", afirma o autor no seu preâmbulo a este livro. Pagou essa sua opção consciente e sentida de homenagem aos povos negros de África com o silêncio oficial sobre a sua obra. E com a proibição ou censura da maioria dos seus trabalhos. Terra Morta, um romance da década de 1940, surge referenciado na lista bibliográfica de Calenga com a seguinte nota – "Não pode entrar no mercado", verificando-se a sua publicação apenas posteriormente, já na década de 1960. Esta obra, em particular, teve várias reedições nas últimas três décadas.

   Duas novelas integram o livro Calenga, 'Calenga e a lenda dos rios do amor e morte' e 'Lueji e Ilunga na terra da amizade'. A primeira narra a história de Calenga, o menino que cresceu para ser soba dos calambas,  e o seu encontro com os cassongos. A segunda apresenta-nos a história da criação do país dos lundas, "como êles a contaram a Henrique de Carvalho [1843-1909], o grande explorador da Lunda, e eu a ouvi nos seus sertões", conforme diz o autor.

   Dois textos cujas narrativas fluem naturalmente, mostrando que uma aparente simplicidade discursiva pode ser sinónimo de excelente literatura.

 

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Segunda-feira, 10 de Setembro de 2007

Literatura Colonial Portuguesa

Ilustração de José de Moura (datas desconhecidas).

 

Eduardo Metzner Leone (1914-1987), Na Terra do Café (1946). 

   Metzner Leone escreveu durante as décadas de 40 e 50  várias obras de ficção e teatro, tendo posteriormente enveredado por obras de fundo histórico e ensaístico e obras de investigação jornalística. Nesta última qualidade, é apontado como alguém que possuía informações preciosas sobre o mistério que, em 1971, durante a guerra colonial, envolveu o navio Angoche nas águas de Moçambique. Assinale-se que o autor colaborou também como guionista no filme Encontro com a Morte (1965), de Arthur Duarte (1895-1982), um filme proibido em Portugal, na época (http://www.imdb.com/title/tt0259295/).

   O romance Na Terra do Café, cujo espaço de acção decorre na região de Gabela, no centro oeste de Angola, onde se encontravam os extensos cafezais de Amboim, traça-nos o perfil de um jovem colono nomeado pela primeira vez como feitor de uma roça, que acaba por ser vítima da sua própria inexperiência, da sua inconstância amorosa e dos seus preconceitos raciais.

   O envolvimento do feitor com a fula Uamba, o seu relacionamento tenso com alguns administradores da companhia e a descoberta de um mundo que lhe era totalmente estranho surgem como núcleo da estrutura narrativa. Uma narrativa complementada com a descrição, interessante e verosímil, daquele que seria o quotidiano de uma roça de café na época.

   Uma obra de leitura fácil e atraente, com um enredo que envolve o leitor e o deixa em suspense, sobre o futuro do protagonista, até à última dezena de páginas.

 

 

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Segunda-feira, 3 de Setembro de 2007

Literatura Colonial Portuguesa

 

Alexandre Cabral (pseudónimo de José dos Santos Cabral, 1917-1996), Histórias do Zaire (1956).

   Notável estudioso e especialista da obra camiliana, Alexandre Cabral publicou o imprescindível Dicionário de Camilo Castelo Branco (Editorial Caminho, 1988), entre dezenas de estudos, ensaios e obras de ficção. (No início da sua carreira, alguns dos seus trabalhos surgiram também sob o pseudónimo Z. Larbak.)

   Alexandre Cabral produziu três interessantes volumes de ficção que reflectem a sua estadia em África – Contos da Europa e da África (1947), Terra Quente (1953) e Histórias do Zaire. Este último, publicado novamente em 1982 (Livros Horizonte), é um volume característico da sua obra ligada a África – uma vivência centrada no antigo território do Congo  (particularmente nas antigas colónias da Bélgica e de França banhadas pelo rio Congo, ou Zaire) e um ponto de vista narrativo dedicado não apenas aos emigrantes portugueses mas também às populações naturais da região. O protagonismo destas constitui, aliás, o núcleo do livro. 'Daba-Goma', 'Kandot era o "boy" do Sr. Hiebler' e 'A "fula" Lubamba desapareceu' são narrativas que evidenciam ser a literatura colonial deste autor uma literatura que retrata a realidade, a magia e o inesperado das colónias africanas sem todavia ser, necessariamente, uma literatura apologista do colonialismo.

   Embora por razões diversas, note-se que a violência e a tensão que pontuam o conto inicial, 'Gonçalves morreu numa noite de tempestade', surgem quase como premonição dos conflitos coloniais que irromperam em África nos anos subsequentes. Por esse facto, é surpreendente, mesmo, que este volume não tenha sido apreendido ou censurado pelo regime.

   O único conto dedicado exclusivamente à presença portuguesa em África é a narrativa que encerra o volume – O "cacholas". Uma viagem de navio entre Angola e Portugal serve de pretexto para falar da vida a bordo, da diferença de classes, de viajantes clandestinos e de um tripulante cabo-verdiano, que acaba por falecer devido à indiferença dos serviços médicos de bordo. Um belíssimo conto que nos recorda a força dos contos de J. R. Miguéis (1901-1980) de temática semelhante, como 'Gente da Terceira Classe' e 'O Viajante Clandestino' (Gente da Terceira Classe, 1962).

   A escrita de Alexandre Cabral, desenvolta e atraente, e o inusitado da ficção de muitos dos seus contos e novelas alertam-nos para a necessidade de redescobrir vários autores do século XX que têm vindo a cair no esquecimento.

  

 

Ilustração de Rogério Ribeiro (n. 1930)

 

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Segunda-feira, 27 de Agosto de 2007

Reis Ventura e a Literatura Colonial Portuguesa

Fotografia da década de 1920 com a seguinte legenda, manuscrita por Reis Ventura, no verso: "Creio que já lhe falei no passeio que demos todos os do curso superior a Caminha, de barco. Foi muito interessante. Como vê estamos todos à secular porque a Portugal não podemos ir de hábito. Este retrato foi-nos tirado pelos padres Jesuitas da Guardia no claustro do seu convento. Eu sou esse trampolineiro marcado com uma cruz. Reis". Na frente, no canto superior esquerdo, uma dedicatória parcialmente ilegível: "A meu irmão (...) do Vasco (...)".

 

   Manuel Reis Ventura (1910-1988) foi um dos escritores que integrou aquela que se pode classificar como a segunda fase da literatura colonial portuguesa de inspiração africana, no século XX. A primeira fase, representada por escritores como Henrique Galvão (1895-1970), Julião Quintinha (1885-1968) e Castro Soromenho (1910-1968), desenvolveu-se entre as décadas de 20 e 40 coincidindo predominantemente com a recuperação do conceito de império colonial, preconizado pelo Estado Novo. A segunda fase veio a coincidir com o início da autodeterminação dos países francófonos de África, já na década de 50, e com a sublevação nas colónias portuguesas, na década seguinte. Em Angola, esta fase cristalizou-se à volta do Grupo da Província, um conjunto de artistas e escritores que contribuíram para o Suplemento Literário do jornal "a província de Angola" [sic], logo a partir da década de 40.

 

  

Luuanda, 1.ª edição brasileira (1965), à esquerda, e 3.ª edição portuguesa (1974).

 

   Durante a década de 60, este grupo, apoiado tacitamente pelo governo e pela Agência Geral do Ultramar, veio a ser contestado, na sua literatura comprometida com  o regime, por escritores de oposição ao colonialismo e ao Salazarismo, como José Luandino Vieira (pseudónimo de  José Vieira Mateus da Graça, n. 1935). Um autor que já se notabilizara na década de 50 através da sua colaboração nas revistas Mensagem e Cultura, veio a ser galardoado em 1965 com o prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores pelo seu livro Luuanda (1963). Um prémio que se revelou controverso pela oposição que mereceu das instituições governamentais da época e pela evidente contestação ao regime que tal atribuição representava, visto Luandino Vieira ser então um preso político.

 

Cafuso (1956), capa de Neves e Sousa.

 

   Em plena década de 60, devido à guerra, o compromisso ideológico de Reis Ventura para com o regime acentuou-se, vindo a sua literatura a ser fortemente condicionada por esse facto. A sua prosa passou a reflectir aspectos panfletários e dogmáticos, características já anteriormente sugeridas na personagem Bolchevique de A Romaria, congregando o reconhecimento do regime e dos defensores do sistema colonial. Nesta transição perdeu-se, contudo, a simplicidade, a clareza e a atracção de uma prosa corrida que o autor desenvolvera nos anos 50. Assim, talvez as suas obras literariamente mais conseguidas tenham sido precisamente as dessa década, merecendo particular destaque os romances que constituem a trilogia Cenas da vida em Luanda – Quatro Contos por Mês (1955), Cidade Alta (1958?), Filha de Branco (1960), bem como o romance parcialmente autobiográfico Cafuso (1956). Nesta última obra, o narrador intradiegético relata a sua passagem por Tuy, a sua preparação sacerdotal e o abandono da vocação. Reis Ventura efectuara esse mesmo percurso, tendo embarcado para Moçambique em 1934, de onde transitou para Angola, três anos depois. Deste último romance, transcrevem-se algumas passagens que retratam de um modo divertido a vocação sacerdotal da personagem adolescente:

 

   "O meu nome é José da Silva Taveira e tenho alguns estudos. Cheguei mesmo a cursar Filosofia com os Padres Franciscanos do Colégio de Santo António, na cidade fronteiriça de Tuy. Eu já lhes conto como isso aconteceu."

    (...)

   "Entrei, muito acanhado, na pobre saleta, famosa em toda a aldeia pela sua mesa de centro e alguns móveis desirmanados que meu pai trouxera do Brasil. O sr. Padre Inocêncio lá estava, alto e encorpado, com a testa rompendo até à coroa por entre duas farripas altas de cabelos, a fitar-me com os olhos bondosos, por baixo das sobrancelhas espessas. Naquela sua voz sonora de prègador de nomeada, perguntou-me logo, sem rodeios:

   – O menino quer ir para o colégio?

   Colhido de surpresa, derivei para minha mãe um olhar indeciso.

   – Vá, responde! – encorajou ela.

   Na minha consciência infantil, entendi que me destinavam para padre. Ràpidamente, corri os olhos cobiçosos pela grande fila de botões que o austero franciscano ostentava na batina. Lembrei-me dos puxões de orelhas que tinha apanhado pela mania de tirar à braguilha das calças o material para o jogo do botão. E, no meu íntimo, concluí:

   – "É furo!"

   O sr. Padre Inocêncio, bem longe dos meus silenciosos cálculos, ergueu-me o queixo com dois dedos amáveis e, olhando-me com bondade, proferiu:

   – É um colégio muito grande, numa cidade muito bonita. Queres ir?

   Mirei-lhe novamente os botões da batina. Caramba! Eram mais de vinte, alinhados, pretos, luzidios... E, resolutamente, respondi:

   – Eu quero, sim senhor."

 

Engrenagens Malditas (1964), capa de António Lino (1914-1996).

 

   A propósito da controvérsia que envolveu a atribuição do prémio do SPN em 1934, transcreve-se um excerto da entrevista que Reis Ventura concedeu ao jornal "a província de Angola" em 10 de Junho de 1970:

 

   "– Sabemos que ganhou o Prémio Antero de Quental em concorrência com Fernando Pessoa...

   – Não é verdade! E sinto-me envergonhado sempre que se fala nisso. Aconteceu apenas que a "Mensagem" de Fernando Pessoa, apresentada como "a Romaria", ao primeiro concurso literário do Secretariado da Propaganda Nacional, em 1934, não tinha o mínimo de cem páginas, exigido pelo Regulamento para as obras concorrentes ao Prémio Antero de Quental. Mas, ao atribuir-lhe o Segundo Prémio (apenas para respeitar a letra do Regulamento), o Júri proclamou o valor excepcional da "Mensagem" e declarou equiparados  os dois prémios da Poesia. Perante tão clara atitude, até eu, que era então ainda um garoto cheio de pequenas vaidades, compreendi que o Primeiro Prémio de Poesia, em 1934, estava conferido, de direito e de facto, a uma obra de génio, perante a qual os meus versinhos de rapaz nem sequer existem."

 

   Estas considerações tinham sido já consubstanciadas estrutural e conceptualmente em A Grei (1941), obra que em plena guerra colonial ressurgiu com o título Soldado Que Vais À Guerra (1964). Nesta reedição ligeiramente modificada, Reis Ventura passou a apresentar como composições introdutórias quatro poemas que anteriormente surgiam no final do livro e cujos títulos e conceitos são obviamente evocativos da Mensagem – Viriato, Aljubarrota, O Sonho do Infante, 1640.

 

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